A falta de cultura desportiva que grassa no nosso país


No verão passado, quando os nossos atletas (das modalidades) amadoras que participaram nas olimpíadas do Rio, “defraudaram” (no fundo, conscientemente, o único que defraudou as “normais” expectativas em virtude do seu potencial foi Fernando Pimenta) as falsas expectativas que foram depositadas pelo povo português circularam pelas redes sociais longos textos, alguns com uma análise correcta, de indivíduos que consideravam que o país, “excessivamente futeboleiro” não poderia pedir grandes resultados internacionais a atletas a quem não eram dadas as condições materiais e de treino suficientes para poderem alcançar esses mesmos objectivos.

O estado de euforia provocado pelas vitórias das nossas selecções de futebol e hóquei em patins nos europeus realizados no ano passado provocaram um perigoso aumento da fasquia de exigência aos nossos atletas. O povo exige agora que as nossas selecções e que os nossos mais prestigiados atletas sejam capazes de vencer “de letra” todas as competições em que venham a participar, sem saber que, exceptuando o futebol, o país está muito longe de proporcionar a muitas modalidades o clima propício para a formação de atletas capazes de vingar no cenário internacional. Muitas modalidades não possuem no nosso país infraestruturas e material de treino de ponta para a prática, técnicos altamente qualificados que consigam trazer experiência, qualidade e inovação para o treino, capacidade financeira para conseguir que os seus melhores atletas possam competir no estrangeiro ou condições para “trazer os melhores do estrangeiro” a competir contra os melhores atletas portugueses. Muitos dos nossos melhores atletas são por outro lado votados a um amadorismo profundo quando deveriam exercer livremente a sua prática num regime profissional. Quando um atleta é obrigado a pedir dinheiro aos pais para poder aprender ou competir no estrangeiro, como foram os casos do tenista João Sousa ou de Rui Bragança, o nosso melhor atleta no Taekwondo, creio que está tudo dito em relação a esta questão.
O país “futeboleiro” por outro lado, acaba por ser uma verdadeira falácia. O povo português, alimentado por uma imprensa desportiva que só parece servir para espalhar o propositado ódio que é destilado por uma classe dirigente pequenina, assume-se agora como um povo profundamente enredado e alienado nas novelas cor-de-rosa que são motivadas por factos exteriores às 4 linhas.

Nos últimos anos, poucos são aqueles que se tem preocupado em saber mais sobre futebol e em discutir mais sobre futebol. Futebol a sério. O futebol dos jogadores, das tácticas, dos comportamentos ofensivos e defensivos, das bolas paradas, dos lances estudados que em muitos casos dizem e muito do trabalho metodológico que é realizado pelos treinadores, dos passes que saíram desviados, dos golos cantados que foram falhados por determinado jogador por falta de engenho técnico ou daquela característica especial que foi trabalhada pelo treinador ou pelo preparador físico num determinado jogador. O futebol português está mergulhado na fossa da intriga, do boato, da especulação, da contra-informação que é habilmente espalhada pelos dirigentes dos clubes ou pelos ventríloquos de comunicação deste para afectar os interesses dos clubes rivais, pelos cães-de-fila dos clubes que só sabem promover discórdia e pela habilidade que alguns jornalistas possuem em serem eles mesmos os arautos da discórdia através de artigos sensacionalistas (alguns deles encomendados por dirigentes ou notáveis de clubes) que só visam fazer render mais as vendas das edições dos seus jornais.

A falta de cultura desportiva que grassa no nosso país começa precisamente no futebol. Somos um país em que toda a gente se acha expert em futebol. Contudo, ninguém perde mais que 3 segundos a ver a jogada de um jogador do Levante no jogo contra o Eibar a não ser que o lance em causa tenha algo de caricato (o que por sua vez o leva a estar publicado naqueles sites do género do Tá Bonito) e poucos são aqueles que perguntados saibam por sua vez dizer em que é que distinguia de outros jogadores o maravilho Gunter Netzer. “Quem?” – perguntarão alguns. Pois. Pois, claro. Felizmente, o youtube ainda possui um largo espólio de vídeos.
Os dirigentes dos clubes portugueses em nada ajudam ao aumento de uma cultura desportiva que falta no nosso país. Enquanto uns chegam a utilizar a selecção como arma de arremesso para que a Federação satisfaça os seus milionários interesses em disputa, outros, fomentam ainda mais o clima de ódio existente contra a sua pessoa porque não conseguem estar calados. Os castigos deveriam ser mais duros e deveriam de uma vez por todas começar a excluir pessoas do associativismo porque essas pessoas não são dignas de andar pelo desporto. Não possuem ética nem condutas que se coadunam com um dos objectivos do desporto: a paz social.

Essa mesma paz social também é ameaçada como referi por jornalistas sem escrúpulos, “mulas” de recados que só visam acicatar ainda mais os ânimos. Se olharmos para os destaques desta semana nos jornais desportivos, conseguimos perceber que provavelmente, o jornalismo desportivo português só irá meter um travão quando alguém for baleado nas imediações de um estádio. Esse dia já esteve mais longe. Estamos a poucos dias de um clássico que poderá ser decisivo para o desfecho final deste campeonato. O que é que temos visto nas primeiras páginas dos jornais? Uma guerra interminável entre clubes, entre a Federação e clubes, entre clubes e elementos de claques dos clubes rivais, entre adeptos de um clube e um dirigente de um clube rival que só ia ver a sua selecção nacional ao estádio como qualquer outro cidadão português. As primeiras páginas dos jornais desportivos tem sido portanto esta lástima que se vê, uma lástima que para além de uma notória falta de cultura desportiva dos jornalistas, editores e directores das publicações, afecta o desporto e a tão ambicionada paz social que é uma das missões que consubstancia a existência1 do desporto.

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