O auge de Greg Van Avermaet no velódromo de Roubaix!


Que ponta final surpreendente! Que prova! Que temporada dos diabos para o campeão olímpico! Depois de um 3º e um 4º lugar na prova em 2013 e 2015, Greg Van Avermaet subiu literalmente ao Olimpo do Paris-Roubaix. O belga está a viver neste preciso momento o seu grande momento de glória. Bem o mereceu na verdade depois de tantos anos a morrer na praia nas grandes clássicas e acima de tudo, depois de tantas críticas de que foi alvo por parte da imprensa da especialidade. Promissor desde sempre, GVA foi durante muitos anos votado a severas críticas que o acusavam de ser o maior flop da actual geração do ciclismo. O ciclista da BMC nunca esmoreceu e está a colher agora os louros do seu árduo trabalho. No momento da verdade, a verdade é que ele não falha!


Antes de partir para a crónica da maravilhosa corrida a que pude assistir, faço uma nota prévia. Hoje choramos o final da carreira de Tom Boonen. Nunca mais poderemos ver a classe do veterano de 36 anos nas estradas. Desta feita parece ser de vez. Boonen está de partida sem ter conseguido levar a 5ª vitória na prova e com ele leva obviamente alguns pedaços das minhas memórias de adolescência em relação a esta modalidade. Não querendo entrar em pormenores porque farei nos próximos dias o devido post de revisitação da extensa carreira do ciclista belga, campeão do mundo em 2005 na prova disputada em Madrid, o currículo de Boonen é efectivamente algo monstruoso: estamos a falar nada mais nada menos de 149 vitórias nas quais se subdividem 122 vitórias em etapa, 12 vitórias na geral individual de várias provas e 15 vitórias em classificações secundárias, entre as quais vitórias em etapas e na classificação geral individual dos pontos na Volta a França, campeonatos do mundo, Vuelta, Paris-Roubaix, Tour de Flandres, Grande Prémio de Harelbeke, Kuurne-Brussels-Kuurne, Volta ao Qatar, entre outras provas de altíssimo nível competitivo.

Para o efeito, fui buscar a sequência de vídeos disponível que resume os pontos alto da prova. No mar de avanços, recuos, ataques, alianças, furos, quedas e jogadas tácticas, por vezes torna-se difícil resumir com objectividade uma corrida cuja essência se baseia no caos e na imprevisibilidade total em virtude dos 29 difíceis sectores de pavê, sectores na distância total de 55 km\hora.

Ainda antes da chegada ao primeiro sector de pavé (sector 29 – Trouisville) o dia começou com dureza para os principais favoritos. Luke Durbridge da Orica foi o primeiro a beijar o asfalto caindo quando estava na cauda do pelotão. O australiano, embalado por uma excelente participação nos 3 dias de Panne, prova em que deu muita luta a Phillipe Gilbert era um dos candidatos secundários à prova. Não assumindo primazia na equipa Orica, pode-se dizer que era o plano B a Jens Keukeleire. Ao contrário do seu colega, Durbridge não deu nas vistas ao longo da tirada.

Outros candidatos, esses sim principais e da mesma equipa (John Degenkolb e Jasper Stuyven) também foram bafejados nos primeiros 120 km da etapa com o clássico furo, numa altura da corrida em que lá na frente já existiam os naturais aventureiros numa fuga. Jelle Wallays da Lotto-Soudal e Mickael Delage da Française des Jeux tentavam fazer pela vida. O duo da frente rapidamente teria a companhia do gigantão de 1,99m Steve Vanderbergh, ciclista experiente de 32 anos agora ao serviço da AG2R depois de vários anos na Etixx-Quickstep, equipa por quem fechou nos 20 primeiros nesta prova em duas ocasiões. Com Vanderbergh na frente havia que ter alguma cautela por parte do grupo principal, grupo que se ia reduzindo naturalmente por culpa dos furos e de algumas quedas que iam ocorrendo. Uma dessas quedas, entre os sectores 23 (Quérenaing) e o sector 22 (Maing) tiraram o vencedor da edição de 2014 Niki Terpstra da prova e fizeram Greg Van Avermaet passar pelo primeiro aperto quando teve uma avaria mecânica. Os azares não terminariam para o belga na prova. Para sua felicidade, acabaria por ser recolocado atempadamente por grande parte da equipa num curto espaço de tempo\terreno.

Poucos quilómetros tinham sidos ultrapassados quando a 102 quilómetros da meta o belga, reinserido de fresco no grupo principal voltaria a cair. Junto a uma valeta o cenário até parecia ser o pior porque o belga queixava-se da barrida. No entanto, sozinho, voltou a montar na bicicleta para recolar novamente ao grupo da frente. O belga acabou por ter novamente sorte dentro do azar que teve a meio da etapa visto que não teve qualquer contratempo na sua parte final, ao contrário de Peter Sagan.

Foi com 23 segundos de vantagem sobre o grupo principal (de Sagan, Boonen, Degenkolb, Greipel, Rowe, Matthew Hayman) que o trio de fugitivos chegou ao icónico Trouèe de Arenberg. O Trouèe de Arenberg é para além de um difícil sector de pavé na distância de 2400m no qual os ciclistas tem dificuldades em controlar a bicicleta dada a sua entrada a 55\60 km\h, o momento em que tudo se começa a definir ou a decidir na corrida. Com Greg Van Avermaet a 35 segundos do grupo principal e a sensivelmente 1 minuto do trio da frente na entrada para o sector foi a Quickstep de Boonen e Stybar quem quis acelerar imediatamente a corrida com a colocação do seu gregário-de-luxo Matteo Trentin. A Quickstep tentava portanto jogar com os melhores de dois mundos quando acelerou a corrida no referido cenário de corrida: por um lado, a aceleração visava descartar mais umas unidades e por outro lado, o ritmo alto seria passível de causar mais dificuldades a Greg Avermaet, o que levaria o belga a ter que redobrar esforços (e a perder energia) para chegar ao grupo principal. Na passagem pelo sector quer Sagan quer Greipel perceberam a ideia dos belgas e trataram de se colocar na roda de Trentin.

O trio da frente passou a ser um duo no final do sector. Wallays e Vanderbergh trataram de descartar Delarge. A fuga estava praticamente neutralizada até aparecer Sylvain Chavanel. O francês da Direct Energie fez uma excelente prova apesar de ter cometido a loucura de atacar cedo demais na minha opinião. Como se tem notado que Chavanel está num interessante momento de forma, o ciclista gaulês poderia ter esperado mais uns quilómetros para lançar o ataque. Acabou por se juntar à fuga sendo apanhado a sensivelmente 80 km da meta, pese embora o facto de ter animado com a corrida com o seu ataque. O ciclista da Direct Energie ainda conseguiu ter 50 segundos de avanço para o grupo principal e beneficiou durante 1 ou 2 km da ausência de Wallays por furo.

Sagan tinha outras ideias – as ideias loucas de Peter Sagan!

Com a entrada da Trek ao serviço com vários homens, o eslovaco decidiu pegar no seu fiel e precioso escudeiro Maciej Bodnar (um espantoso contrarelogista que muito jeito tem dado a Sagan) e mexeu com a corrida. A ideia de Sagan era colocar Bodnar a fazer um contrarelógio em seu benefício para arrasar a concorrência num ataque do “meio da rua” que foi acompanhado por Jasper Stuyven (as coisas poderiam efectivamente tornar-se mais perigosas porque Stuyven iria colaborar com o duo da Bora) e com Daniel Oss, este mais em representação da BMC de Greg Van Avermaet – mais uma vez, o eslovaco viria a ser bafejada com o azar, furando, motivo que o levou a abortar o plano e a regressar ao grupo de Tom Boonen, grupo onde Zdenek Stybar ajudava o seu chefe-de-fila e um ou dois ciclistas como Andre Greipel (tentou esticar a corrida em 3 ocasiões antes de cair irremediavelmente no grupo de Boonen na parte final), Gianni Moscon ou Sebastian Langveld (Cannondale) iam dando o arzinho da sua graça. Entretanto, parta trás já tinham ficado ciclistas como Lars Boom (o chefe-de-fila da Lotto-Jumbo para a prova) ou Alexander Kristoff da Katusha. O noruguês também voltou a ter um dia muito azarado.

A prova ia seguindo para o seu capítulo final. Por alguns momentos pude observar de perto os favoritos. Edvald Boasson Hagen parecia estar fresco quando os holofotes da transmissão francesa se focaram na sua posição a meio do grupo dos favoritos. Arnaud Demare também tentou a sua sorte mas os candidatos (já com Greg Van Avermaet devidamente inserido) não deixaram o sprinter francês sair a 63 km. Os sucessivos esticões que foram dados nesta fase da corrida acabaram por eliminar precisamente o norueguês da Dimension Data. Nesta altura da corrida, entre os 60 e 40 km para a linha de meta, os sucessivos esticões de Sagan, de Stybar, de Langveld, de Stuyven (que entretanto mantinha-se na frente na companhia do incansável Daniel Oss) iam fazendo estragos no grupo principal, dividindo-o em 2. Tom Boonen foi apanhado no 2º grupo na companhia de John Degenkolb e Jens Keukeleire. Os dois haveriam de ter que trabalhar em conjunto para fazer a junção ao grupo onde estava Peter Sagan.


Após novo ataque de Sebastian Langveld a 36 km acompanhado em boa hora por Jurgen Roelandts da Lotto-Soudal (Stybar e Sagan não responderam de imediato mas conseguiram algumas centenas de metros depois aproximar-se) Sagan tentou a 32 km da meta lançar um novo ataque que gorou novamente num problema mecânico enquanto lá atrás era Greg Van Avermaet quem saía à procura dos homens que iam na frente (em primeiro o seu companheiro de equipa Daniel Oss, depois ao grupo onde estavam entre outros Chavanel, Styuven, Roelandts, Dylan Van Baarle (semana que fecha com chave de ouro para o ciclista da Cannodale) e Zdenek Stybar. Já Tom Boonen e John Degenkolb haveriam de ficar num 3º grupo, grupo que viria a receber Peter Sagan aquando do problema mecânico do ciclista eslovaco da Bora. O grupo Boonen ainda esteve perto de recolar ao Grupo Van Avermaet quando se cifraram 29″ segundos de diferença a 28 km da meta (conseguiram recuperar 30 segundos em 4km).

Com Daniel Oss “apanhado” (como quem diz; a situação lá atrás era altamente favorável às aspirações de Greg Van Avermaet face à ausência dos 3 principais rivais; por detrás da heróica vitória de Avermaet está o fabuloso trabalho de Daniel Oss) a sensivelmente 25 km para a meta, gerou-se uma situação de algum conforto na prova para o campeão olímpico. Com o seu gregário italiano a gastar o resto das suas energias na manutenção da situação de prova, denotou-se que lá atrás no grupo Boonen, tanto o belga como Peter Sagan confiaram na perseguição que estava a ser feita por outros elementos do grupo. Como tal decidiram não sair do grupo para tentar reaproximar-se da frente da corrida. Quando Tom Boonen o fez a 18 km da meta já era tarde. Os 46 segundos de desvantagem não permitiriam a reentrada do belga na frente da corrida.

Na frente da corrida, a eliminação natural nos sectores 6, 5, 4 e 3 acabaram por ditar um cenário de corrida a 3 (Avermaet, Langveld, Stybar) para os quilómetros finais, cenário que poderia ter sido invertido em cima da linha de meta por Gianni Moscon (Sky), ciclista que se manteve muito perto e que aproveitou de um certo relaxamento dos 3 da frente (naquela fase de estudo para o sprint final) na última volta à pista do velódromo de Roubaix. Como Stybar sabia que muito dificilmente conseguiria bater Greg Van Avermaet ao sprint, o ciclista checo da Quickstep tentou nos últimos quilómetro esboçar o ataque. Já Langveld da Cannondale estava inegavelmente no fim das suas forças.

2 opiniões sobre “O auge de Greg Van Avermaet no velódromo de Roubaix!”

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