Duas Dy(bala) e a noite em que Juventus roçou a perfeição táctica


Eximia. Soperba. Meravigliosa. Magistrale! Mostra solo alla portata dei migliori! A Vecchia Signora está a jogar as fichinhas todas na conquista desta Champions. Aceita-se uma “remontada” contra um PSG que esteve muito bem no jogo da primeira mão. Ingenuidade será alguém acreditar numa remontada do Barça depois da perfeita exibição a todos os níveis que foi realizada pela equipa italiana no Juventus Stadium Se essa reviravolta na eliminatória acontecer e se der nos moldes em que se deu a “remontada” louca contra o PSG, o futebol estará para sempre enviesado por factores anormais. A acontecer será o suficiente para que não queira saber desta competição nos próximos anos.

O que é se que pode fazer em Turim a esta hora da noite?

O músico austríaco Marcel Fureder, conhecido no meio musical como Parov Stellar, deu um dia a dica: relaxar ao som de um belíssimo sopro de saxofone, fechar os golos, e acreditar que esta Juve tem tudo para voltar a recuperar o ceptro do futebol europeu.
O mau (irregular, muito irregular) momento do Barça nas últimas semanas não explica esta derrota. Indiferentemente do adversário que se vai defrontar, na Champions os treinadores devem apresentar e montar as suas equipas como se do último jogo das suas vidas se tratasse e os jogadores devem encarar cada desafio como uma oportunidade única para fazer história. As vitórias na competição moralizam qualquer equipa e empurram-na para a frente quando os resultados domésticos as deixam a um passo do abismo. Nem os jogadores do Barça entraram com “ganas” de deixar a eliminatória bem encaminhada para Nou Camp nem Luis Enrique deu uma mãozinha nas escolhas que realizou para o onze titular da equipa quando preteriu a presença de Jordi Alba pela presença de Jerémy Mathieu no onze.

O espaço permitido pelo Francês para que Juan Cuadrado (bem acompanhado pela presença de Paulo Dybala por dentro) pudesse fazer o que quisesse da partida, conjugada com a menor pressão exercida pelos catalães na fase de construção ofensiva em virtude da ausência de Sérgio Busquets  (finalmente percebo a importância do trinco no futebol do Barça) explica a desvantagem averbada logo na primeira metade da primeira parte pela equipa de Luis Enrique: com total liberdade para flanquear em profundidade, os médios da Juve (Miralém Pjanic e Sami Khédira; duas excelentes exibições) e Gonzalo Higuaín num par de situações, colocaram o jogo nos pés do colombiano no flanco direito. Aproveitando o enorme espaço concedido por Mathieu e o facto do defesa não se preocupar muito em atacar a bola sempre que Cuadrado colocava o drible, o colombiano pode assistir o “génio de Dybala”. O argentino fez magia ao dominar a bola com o seu pé direito de forma a virar-se para a baliza (no meio da passividade de dois adversários) e aplicar o seu portentoso remate em arco (trademark) para inaugurar o marcador.

O cinismo desta Juve não se demorou a sentir quando os italianos (iniciaram em pressão alta a toda a largura do terreno) baixaram linhas e entregaram a posse da bola ao adversário. Há muitos anos (não é uma característica do modelo identitário de Allegri; é algo que vem desde os tempos de António Conte) que esta equipa da Juve gere na perfeição a multiplicidade de contextos que um jogo pode oferecer ou que poderão acontecer por iniciativa do adversário. Com uma excelente cobertura de espaços face a uma equipa que teve dificuldades na transição e que preferiu circular pacientemente em vez de arriscar forçar no imediato, a equipa apresentou pistas que revelam que Allegri estudou bem esta equipa do Barça: um deles foi a colocação dos laterais em cima de Messi e Neymar. Tanto Dani Alves (conhecedor de todo o leque de movimentos e truques do seu antigo colega de equipa e colega de selecção) como Alex Sandro acompanharam as movimentações dos seus adversários directos nem que isso implicasse ter que ir pressionar o jogador quando este tinha a bola na sua posse até ao meio-campo contrário. Os laterais da Juve tiveram o condão de empurrar os criativos para longe dos espaços habituais de criação, sem que a equipa ficasse descompensada com uma eventual progressão adversária, visto que tanto Mario Mandzukic como Juan Cuadrado encarregavam-se de baixar sempre que os laterais subiam para pressionar. Se o brasileiro secou por completo o seu compatriota, o extremo colombiano também foi importante na manobra defensiva da equipa quando em vez de se preocupar com as subidas de Mathieu (realçando mais uma vez o seu parco grau de ameaça ofensiva quando comparado com Jordi Alba) preferiu por vezes adoptar um posicionamento mais interior de forma a fechar a linha de passe de Mathieu e de Neymar para as tentativas de incursão de Andrés Iniesta no espaço de intervalo usualmente oferecido entre o central do lado direito e o lateral. Estratégia inteligente de Massimiliano Allegri.

Por outro lado, numa fase da partida em que o lateral direito Sergi Roberto abandonava o seu “posto fixo” para tentar ir ao meio ajudar Mascherano e Iniesta nas transições, sempre que Messi vinha também ao interior buscar jogo, ao 2º toque na bola do argentino apareceriam imediatamente vários jogadores da Juve a fechar-lhe o caminho para o remate no seu terreno mais fértil. O único lance em que o argentino conseguiu desequilibrar na primeira parte surgiu precisamente de um descuido de Sami Khedira quando o alemão no 1×1 contra o argentino no corredor central não foi rápido a atacar o adversário e permitiu que este servisse a entrada na área de Andrés Iniesta com um maravilhoso passe de ruptura. Na cara de Gigi Buffon, o italiano levou a melhor sobre o espanhol, realizando a defesa da noite. Não havia nada a temer para os lados da Juve. No seu último reduto, o monstro das balizas estava em noite sim. Esta defesa do histórico guardião italiano teve o condão de dar ainda mais confiança à sua dupla de centrais, dupla que teve uma trabalheira para anular Luis Suárez ao longo da partida. O duelo entre Suárez e os seus dois “carrascos” do Mundial do Brasil foi novamente intenso, físico e vibrante. No entanto, ao contrário de outros “carnavais” tudo até acabou bem com um abraço entre o uruguaio e Giorgio Chellini a meio da 2ª parte. O uruguaio deverá ter agradecido ao italiano a mudança de atitude realizada após a suspensão que teve de cumprir na sequência da famosa mordidela em 2014.

Do 1-0 ao 2-0 foi um passo. Desenvolvendo um jogo mais profícuo pela ala esquerda naquela fase do jogo, Mario Mandzukic fez um trabalhão e tanto para assistir Dybala para mais um golo. Com a defesa apanhada em contrapé pela presença de Higuain na área, a culpa do golo pertenceu a Javier Mascherano. O argentino esqueceu-se de ser mais rápido que a diagonal do seu compatriota da direita para o meio para lhe fechar o espaço e permitiu que este rematasse novamente em arco de uma zona que lhe é altamente favorável. O argentino acusou claramente no jogo de hoje a falta de rotinas numa posição em que já se destacou no passado.

Com 2-0 ao intervalo cabia a Luis Enrique o ónus da mudança. A entrada de André Gomes para o lugar de Mathieu (passando Umtiti para a esquerda da defesa) ofereceu ao Barça mais clarividência na transição mas sinceramente creio que só vi do português umas dezenas de passes para o lado. O Barça mudou de estratégia (Messi veio finalmente de corpo e alma para o corredor central) mas os catalães continuaram a teimar na entrada na muralha italiana pelo congestionado corredor central. Adoptando processos de jogo que visavam usar o seu ponta-de-lança como target man (para finalizar ou para assistir as entradas que vinham de trás) o Barça conseguiu criar 3 situações de remate nos primeiros 10 minutos com um enfoque especial para a situação em que Messi pode rematar finalmente à entrada da área. Nesse lance foi pena o facto do argentino ter sido obrigado a usar o seu pé fraco para visar a baliza de Buffon. Outro dos lances em que o

No entanto, a Juve continuava a ser mais perigosa nas suas transições em profundidade. Higuaín (deu ao longo do jogo um apoio frontal fantástico aos médios) poderia ter sentenciado o que veio a ser efectivamente com o golo de Chellini quando teve oportunidade para visar a baliza de Ter Stegen à entrada da área (defesa fácil do alemão) e quando, poucos minutos depois, foi isolado (posição irregular) na cara deste, permitindo-lhe uma arrojada defesa fruto de um bom tempo de saída da baliza. O golo de Chiellini na sequência de um canto e a sua fantástica e assertiva compostura defensiva em vários lances terminou com qualquer objectivo remanescente do Barça na partida e acaba por lançar a incógnita para o jogo da segunda mão: terá esta equipa de Luis Enrique capacidade para inverter novamente um resultado ultra desfavorável? Haverão novamente situações anormais no jogo da 2ª mão?

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