Bloco de Notas da História #13 – Top 10 dos 31 anos de consulado Berlusconi no Milan


Como dizia a cantiga (cujo autor sinceramente já não me recordo) “x anos é muito tempo” e no fundo a cantiga não poderia estar mais perto da verdade no caso de Sílvio Berlusconi. Il Cavaliere findou ontem o seu ciclo de 31 anos à frente do Milan, no dia em que o clube foi vendido por 740 milhões de euros a um consórcio de empresários chineses, o Rossoneri Sport Investment Lux, consórcio que é liderado pelo empresário Li Yonghong, o homem que irá comandar a partir de hoje os destinos do colosso clube da região da Lombardia. Para trás, neste enorme rasto de 31 anos, ficaram 29 títulos. 29 títulos conquistados sob a batuta do homem que é seguramente uma das figuras mais amadas e também mais odiadas da História da Itália Unificada, em conjunto com a preciosa ajuda do seu braço direito Adriano Galliani. No momento da despedida, decidi escrever um post sobre o longo legado deixado no clube pelo “Duce” dos tempos modernos, num formato estruturado em 10 breves capítulos divididos por vários posts. 
1. A chegada de Sílvio Berlusconi ao clube – acordar o leão adormecido.

1986. 8 de Julho, mais precisamente. O Milan vive uma das mais conturbadas senão a mais conturbada fase da sua história. O leone rossoneri estava a viver debaixo de escândalos há 7 temporadas. O primeiro, em 1979, o do Totonero, o mega processo da manipulação de resultados que conduziu o Milan para a Serie B do campeonato italiano numa decisão sem precedentes na história do desporto italiano. O segundo, a envolver o seu presidente Fabrício Colombo em 1980. Colombo e vários dirigentes do Milan foram acusados pelas Finanças Italianas de serem os cabecilhas do esquema que esteve na origem do Totonero. Apesar de ter subido na temporada 80\81, na temporada 82\83 voltaria a beijar o 2º escalão depois de um frustrante 14º lugar na temporada anterior na Serie A. Esses anos, ou seja, os anos que mediaram a última conquista do scudetto (1979) e a chegada de Berlusconi em 1986 foram anos de suplício para os tifossi rossoneri. Mergulhados em dívidas em virtude da contratação de jogadores ingleses muito caros de qualidade muito duvidosa (Mark Hateley, Joe Jordan, Ray Wilkins) para pouco rendimento dentro de campo durante a presidência do “agricultor” Giuseppe Farina, um presidente sem carisma, 10000 pessoas esperavam que Sílvio Berlusconi pudesse devolver os títulos a Milão quando este se apresentou nesse dia, 8 de Julho de 1986, no Estádio da Arena Cívica de Milão.

Berlusconi não caminhava para novo (49 anos) no ano em que o seu grupo (Fininvest) comprou o clube milanês. Aquele que nos anos 50, na flor da sua juventude, tinha sido cantor num navio para pagar os estudos em Direito, tinha iniciado a sua fortuna nos anos 60 e 70 na construção civil. O Milano Duo, um completo habitacional de 4 mil residências foi a primeira grande empreitada em que este envolvido. Em 1973, a TeleMilano, empresa criada para transmitir nas propriedades que tinha construído, acabou por ser o seu primeiro investimento nos média. O projecto que visava criar a primeira televisão por cabo de Itália, consumada nesse verão de 1973 no primeiro canal privado do país (por assinatura) acabou por se transformar ao longo de 4 décadas no maior império dos média de toda a Itália e num dos maiores do mundo. Em 1978 viria a fundação do grupo Fininvest, numa altura em que Berlusconi já entrava altamente envolvido na política e na maçonaria, mais concretamente na loja maçonica Propaganda Due. A Fininvest foi a holding que serviu de veículo para a compra de um negócio em que o magnata nunca tinha estado e que nunca tinha imaginado entrar nesses 49 anos: no Futebol.

Com muitos milhões para investir (a equipa do Milan era comandada por Nils Liedholm, um dos históricos do trio sueco; Gren, Nordhal e Liedholm; fizeram parte da equipa que conquistou 4 scudettos na década de 50 e da Selecção Sueca que viria a perder a final do Campeonato do Mundo de 1958 para o Brasil de Péle) Berlusconi deixou correr o primeiro ano para se ambientar ao clube e poder auscultar o verdadeiro estado das suas finanças, para investir a sério em 1997 com a contratação da dupla Mais Admirável do Novo Futebol: Marco Van Basten e Ruud Gullit. Um ano depois seria adicionado Frank Rijkaard num negócio muito estranho que envolveu dois clubes terceiros como intermediários: o Sporting e o Saragoça. A história é simples: o jogador queria sair a todo o custo do Ajax em virtude dos “parcos vencimentos” auferidos no clube holandês quando comparados com os milionários contratos que o futebol italiano tinha a oferecer após o término da lei que vigorava desde 1966 (desde a copiosa derrota dos italianos frente aos norte-coreanos) e que impedia os clubes italianos de contratar jogadores estrangeiros. Pelo meio também já se tinha incompatibilizado com o treinador Johan Cruyjff. Como o clube holandês não estava disposto a abrir mão do seu craque por “truta e meia”, foi um amigo português de o jogador que fez questão de falar com o presidente do Sporting Jorge Gonçalves para ir a Amesterdão negociar o jogador. Enquanto o jogador estava a ser negociado numa novela sem fim entre dirigentes dos dois clubes (o Ajax queria ir até ao mais aproximado cêntimo pelo passe do jogador) o jogador estava a treinar em Lisboa com o plantel leonino.

Como o desfecho do negócio entre Sporting e Ajax só teve desfecho a 23 de Outubro desse ano, o jogador já não pode ser inscrito pelo Sporting sendo emprestado ao Saragoça. O Sporting haveria de o vender para Milão no dia 1 de Maio de 1988 por cerca de 150 mil contos (actualmente a preços correntes, qualquer coisa como 382500 euros actualmente). Na altura o Sporting já vendia tudo por uma pechincha.

O trio holandês viria dar um toque de classe a uma equipa cheia de qualidade que contava com o guarda-redes Giovanni Galli, com o histórico Franco Baresi (rejeitado pelo Inter, ao contrário do seu irmão Giuseppe), com Alessandro Costacurta, Filippo Galli, Paolo Maldini, Mauro Tassotti, Carlo Ancelotti, Angelo Colombo, Roberto Donadoni e Daniele Massaro.

A pedra de toque da primeira grande geração do Milan moderno seria o treinador, o Excêntrico Arrigo Sacchi.

2 – Sacchi – o homem que Misturava o Futebol num Pote

Quem era Arrigo Sacchi?

Era a pergunta mais repetida pela imprensa italiana em 1987 quando o semi-desconhecido treinador do Parma (na altura na Serie B) assinou pelo Milão 1 ano depois de ter forçado a equipa de Milão a um desempate pela marca de grandes penalidades numa eliminatória da Coppa Itália.

Sacchi era, como Berlusconi também o era, um provocador de consciências, um geniozinho louco que fazia tudo errado para dar certo. Um visionário excêntrico que se aproveitou de um determinado contexto no futebol italiano e de um determinado leque de jogadores existentes na equipa para fazer história.

Na altura no futebol italiano, o sistema táctico mais utilizado era sem dúvida o clássico 5x3x2, o sistema táctico que Helenio Herrera utilizou para inventar um dos modelos de jogo mais utilizados da história do futebol, o Catenaccio. Com um 4x4x2 losango, táctica que surgiu no final dos anos 70 com o quadrado mágico do meio-campo da selecção brasileira, Arrigo Sacchi pretendia criar um sistema muito dinâmico com e sem bola no qual os jogadores do meio-campo impunham o ritmo de jogo aos adversários, movimentavam-se circularmente de forma a ter sempre linhas de passe seguras para efectuar progressão, projectavam os laterais no terreno para dar largura e profundidade, aparecendo os médios interiores e o médio ofensivo a apoiar por dentro (criação de sobreposições interiores) de forma a subjugar a outra equipa com uma estratégia de jogo muito próxima do ataque total de Rinus Michels. Na frente de ataque estava o ponta-de-lança mais completo e mais técnico que alguma vez o futebol pode ver:

O futebol ofensivo da equipa milanesa era esmagador, mas, a loucura de Sacchi não ficava por aqui. Se a equipa do Milan era muito expansiva no ataque organizado e no contra-ataque, defensivamente, a coisa era bem mais complexa. As ideias defensivas de Sacchi ainda hoje pululam pela cabeça, por exemplo, do treinador do Atlético de Madrid Diego Simeone. Não é para menos. O técnico começou por descartar o tradicional líbero (Sweeper; não confundir com a função da chamada posição Beckenbauer) que era utilizado por meia europa. Sacchi conseguia conjugar dois estilos completamente diferentes num só, dois estilos que dependiam apenas do contexto que era ditado pelo adversário durante os jogos: pressão alta para recuperar a bola em terrenos adiantados de forma a esmagar no contra-ataque (parte da estratégia ofensiva) ou baixar totalmente as linhas para um sistema defensivo ultra recuado, onde o Milan era, À boa maneira italiana, imbatível. Ah, esqueci-me de um pormenor: a marcação era zonal e não Homem-A-Homem!

Se dentro do campo Sacchi era um provocador, fora de campo era um filósofo, um verdadeiro guru da filosofia futebolística. Senão vejamos as frases que foram proferidas em determinados contextos pelo treinador:

“Um jockey para o ser nunca precisou de ter sido cavalo de corrida”

“Durante o jogo deste noite não conseguiríamos marcar nem contra uma equipa composta por jornalistas”

“Eu sou o profeta de Fusignano. Convençam-se disso”

“A única forma de montar uma equipa é através da junção de jogadores que falam a mesma língua e jogam o mesmo jogo, um jogo de equipa. Nunca conseguiremos conquistar nada enquanto tentarmos por nós próprios. E se conseguirmos, o sucesso não irá durar muito tempo. Eu usualmente repito o que disse Michaelangelo: “O Espírito guia a mão””.

No centro de treinos, a metodologia estava acima de qualquer outro treinador italiano. Sacchi exigia respeito, disciplina, trabalho árduo e espírito de equipa aos seus jogadores. A alimentação e os hábitos de cada jogador teriam de ser regrados e obviamente vigiados com todo o rigor por parte do staff do clube que reportava as suas impressões ao treinador. Sacchi detinha sempre a última palavra sobre qualquer problema relacionado com a equipa. Por outro lado era ele que se encarregava de cultivar a relação entre todos os elementos da cadeia (direcção, jogadores, técnicos, staff não-técnico) para que existisse o melhor ambiente de trabalho possível na estrutura profissional do Milan.

Metodologicamente foram inovadoras a ideia de de treino que visava colocar todos os jogadores a “praticar um jogo sem bola” no qual teriam que simular os seus movimentos dentro de campo. Sacchi fazia sempre este modelo de treino quando tinha que fazer ligeiras adaptações ao modelo de jogo implantado ou no início da temporada como forma de adaptar jogadores ao modelo de jogo, respectivas funções dentro do campo ou movimentações.

(este post terá uma sequência nos próximos dias)  

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