Análise: Real Madrid 4-2 Bayern – Um hino ao futebol ferido de morte pela arbitragem


Podia ter começado este post com a habitual adjectivação que é utilizada para qualificar os grandes jogos de Champions. Desta vez não o farei. Não o farei por respeito ao futebol transparente que sempre defendi e defendo. Direi apenas que foi um grande jogo de futebol jogado por duas grandes equipas, muito emotivo nos 210 minutos jogados, até porque o Bayern fez das tripas coração para virar o resultado desfavorável somado na primeira-mão em casa, mas, na verdade, só uma delas estava autorizada a passar às meias-finais da prova: o Real Madrid. A arbitragem da equipa comandada pelo húngaro Viktor Kassai assim o provou no Bernabeu, perdoando em 3 ocasiões a expulsão a Casemiro, expulsando Artur Vidal num lance completamente limpo no qual o chileno só joga a bola e validando um golo completamente irregular a Cristiano Ronaldo.

Ir contra a corrente do pensamento trigueiro de alguns portugueses é uma tarefa hercúlea. Num país maioritariamente assente em três tendências dominantes (Benfica, Cristiano Ronaldo e Renato Sanches) ai de quem ouse sequer questioná-las. Questionar esta vitória do Real Madrid e até a própria prestação de Ronaldo na partida (tirando os golos contra 10, onde é que esteve o internacional português durante 75 minutos e o que é que realmente fez na partida?) é correr o risco de ter que passar uma noite inteira a responder aos habituais comentários de trolls que só medem exibições pelo número de golos que tal jogador marca. Uns chamam-lhe legado. Eu chamo-lhe somente eficácia nos momentos decisivos. Porque da exibição de Ronaldo, só vieram os golos no momento certo. Exibições fizeram sim Carvajal, Marcelo, Luka Modric, Phillip Lahm, Arjen Robben, Arturo Vidal, Franck Ribèry, David Alaba, Manuel Neuer, Sérgio Ramos. Esses sim fizeram grandes exibições!

Feito este pequeno reparo, se excluirmos temporariamente Kassai da equação, foi um excelente jogo de futebol com emotividade, incerteza até à expulsão do jogador do Bayern, muito futebol de topo, riqueza táctica e técnica, pace elevado e o sal do futebol: 6 golos e muitas oportunidades de golo para ambas as equipas.

Os bávaros trataram de vestir o fato-macaco para poderem dar uma imagem diferente daquela que deram na 2ª parte do jogo da semana passada. Com Bobek Lewandowski e Mats Hummels de regresso ao onze, a equipa de Carlo Ancelotti manteve mais ou menos a mesma estrutura ao nível de processos ofensivos, não destoando por completo a matriz identitária da equipa. Com o ponta-de-lança polaco a equipa ganhou um maior pragmatismo nas fases de construção e criação de jogo. Com os extremos a jogar por dentro e os laterais bem projectados (Alaba funcionou praticamente como um médio ala ofensivo) o trio de médios tentou imediatamente mecanizar a construção de jogo com a adopção de processos simples fáceis de explicar: o primeiro passe da transição para o ataque a pertenceu sempre a Xabi Alonso, o passe de lateralização (Arturo Vidal abusou muito do passe longo para variar o jogo para o flanco direito) a Vidal\Thiago, e fase da criação aos homens dos flancos. Enquanto Franck Ribèry procurou através da sua posição mais interior fixar Carvajal e Modric nas suas acções para libertar o esférico no tempo correcto para a linha lateral de forma a proporcionar a David Alaba situações de cruzamento sem oposição adversária, no flanco direito Robben procurava as habituais soluções do seu jogo: situações de sobreposição com Phillip Lahm, as incursões para o miolo ou o 1×1 contra Marcelo para rematar ou para servir uma diagonal em desmarcação de Lewandowski. O duelo entre o holandês e o brasileiro foi épico, apesar do holandês ter levado a melhor sobre o brasileiro em várias ocasiões. Marcelo foi para mim o homem do jogo pelos dois golos que tirou ao Bayern em cima da linha de golo e pela exibição ofensiva de encher o olho. O lateral brasileiro apareceu em todo o lado e voltou a carregar a equipa para o ataque em várias ocasiões, chegando inclusive a aparecer no corredor central a páginas tantas a conduzir o contra-ataque que ficará na história da prova como uma das mais belas jogadas individuais algumas vez feitas.

Pode-se portanto dizer que o Bayern foi melhor na primeira parte ao nível de jogo jogado mas não foi a equipa com mais ocasiões de golo. Se aos 8″ Lewandowski foi impedido de marcar por um corajoso Marcelo a dar o peito às balas (Robben poderia ter feito melhor na recarga) do outro lado, com o habitual pragmatismo de contra-ataque (belas triangulações entre Isco, Ronaldo e Carvajal; o lateral subiu sempre bem nas situações de transição para o contra-ataque, oferecendo sempre uma linha de passe e progressão no terreno) o Real Madrid poderia ter inaugurado o marcador em 4 ocasiões: quando Carvajal testou Neuer com um remate de meia distância da direita, quando Toni Kroos falhou um autêntico penalty (salvo em cima da linha por Jerome Boateng) numa fífia de Manuel Neuer na abordagem ao cruzamento de Carvajal, quando o mesmo Toni Kroos disparou por cima depois de uma recuperação de Benzema na área adversária, numa fase da partida em que a defesa do Bayern mostrou muita intranquilidade (em especial Mats Hummels; exibição fantástica de Jerome Boateng) e por último quando Ronaldo atirou ao lado no corolário de um lance de contra-ataque bem conduzido pela faixa central por Marcelo, no qual o brasileiro tirou Phillip Lahm e Jerome Boateng do caminho com uma assistência prodigiosa para a desmarcação do extremo português.

Na 2ª parte, os alemães voltaram a entrar bem. Um certo recuo de linhas do Real permitiu à equipa de Carlo Ancelotti subir novamente as suas e dominar a posse de bola. À semelhança do que aconteceu aos 8″ no lance em que Marcelo negaria o golo a Lewandowski, voltou a ser numa combinação realizada entre os dois jogadores do flanco esquerdo que nasceria mais uma oportunidade de golo para os bávaros. Alaba entrou pela área para receber um passe de Ribèry e assistiu Robben na zona de penalty. O holandês pegou mal no esférico mas mesmo assim esteve a um passo de ser feliz, não fosse o corte de Marcelo em cima da linha de golo. Mais pressionantes a meio-campo, os bávaros conseguiram carregar mais sobre o adversário, chegando ao golo através da grande penalidade cometida por Casemiro sobre Arjan Robben no único lance em que o holandês foi receber a bola ao flanco esquerdo. Viktor Kassai marcou uma grande penalidade indiscutível mas perdoou ali a expulsão do brasileiro, facto que até compreendi apenas pela vontade de não estragar ali o jogo, critério que não foi aplicado (correctamente) no jogo da primeira mão com Javi Martinez.

O golo iria catapultar a equipa de Munique para o melhor período da sua exibição no Bernabeu. Com uma construção rápida, um flanco direito muito pró-activo e a inserção de vários homens em zona de finalização, foi por um triz que Arturo Vidal não fez o 2º logo a seguir na cara de Keylor Navas assim como por um triz que Bobek Lewandowski não aproveitou logo a seguir um momento de muita atrapalhação por parte dos centrais do Real na área. Nos bancos, os dois treinadores aperceberam-se que estavam defronte do momento em que a coisa poderia cair para ambos os lados. Enquanto Ancelotti decidiu inserir mais uma unidade na área com a entrada de Muller para a saída de Xabi Alonso (o médio estava a ter pouco trabalho naquele momento e já tinha um amarelo; momento de despedida na Champions saudado de pé com muito desportivismo pelos adeptos espanhóis) e dar mais frescura ao flanco esquerdo com a troca de extremos (Douglas Costa por Ribèry), Zidane apostou numa estratégia mais retroactiva com a colocação de Asenjo no lugar de Benzema (passando Ronaldo para a frente de ataque; o Real passou a dispor naquele momento de uma linha média defensiva composta por 5 unidades) para depois passar novamente ao 4x3x3 clássico 7 minutos depois com a entrada de Lucas Vazquez para o lugar de Isco.

Os madrilenos acabaram por empatar aos 76″ num lance em que Casemiro, aquele que deveria ter sido expulso em duas ocasiões (penalty e entrada sem bola) acabou por ser decisivo com aquele cruzamento direitinho para a cabeça de Ronaldo. O médio brasileiro cresceu muito no jogo. Foi importantíssimo como costuma ser no capítulo da recuperação de bola e na batalha pelas divididas a meio-campo e ainda conseguiu lançar com muita eficiência o contra-ataque. Se Kassai tudo perdoou ao trinco brasileiro na 2ª parte, o mesmo não se pode dizer quando aos 84″, o húngaro decidiu macular a sua assertiva exibição até aquele momento com a expulsão de Arturo Vidal num lance em que o chileno só jogou o esférico.

A expulsão do internacional chileno teve o condão de acelerar com o desfecho cozinhado para o efeito, ratificado já no prolongamento com o golo-em-fora de jogo de Cristiano Ronaldo. Obrigado a mexer por via da perda do jogador mais pressionante do seu meio-campo, numa altura em que o Real voltava a ameaçar no contragolpe, o técnico italiano teve de descartar a continuação da execução do plano de jogo que estava a ser executado pela sua equipa para fazer entrar Joshua Kimmish para o lugar de Lewandowski. Viktor Kassai soube plenamente o que fez, até porque na primeira mão, o Real só teve ascendente sobre a partida precisamente após a expulsão de Javi Martinez. Com menos um jogador em campo existiu espaço de sobra a meio-campo para os madrilenos lançarem o seu poderoso contragolpe, ferramenta que voltou a dar benefícios no prolongamento. Os madridistas devem portanto agradecer mais uma vez a sua sorte à arbitragem.

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2 opiniões sobre “Análise: Real Madrid 4-2 Bayern – Um hino ao futebol ferido de morte pela arbitragem”

  1. Gostei do seu artigo, o qual subscrevo, pois apesar de não ser um expert em matérias futebolísticas, quem vê um jogo com olhos desapaixonados, não é fácil, mas é possível ao menos manter a serenidade, só pode concordar com o que escreve.
    Nos últimos anos as equipas espanholas tem sido claramente beneficiadas pelos árbitros. Aliás, eu recordo o episódio Benquerença, um árbitro português que foi arbitrar um célebre jogo Inter – Barcelona, para as meias finais da Liga dos Campeões, era Moutinho treinador dois italianos, e prejudicou nessa arbitragem o Barcelona. Acabou arredado praticamente dos palcos internacionais. Angel Maria Vilar nunca lhe perdoou a desfeita. Mas se compararmos com o que se passou ontem no Santiago Bernabéu só podemos dar os parabéns ao Benquerenca, porque apesar de nesse dia ter sido medíocre, comparativamente a Victor Kassai, não influenciou o resultado da mesma forma.
    A UEFA e a FIFA são instituições podres há muitas décadas e não é por mudarem o Platini por Vilar, ou Blatter por Gianni Infantino que aquilo fica muito melhor.
    Ou Voktor Kassai tem o mesmo caminho de Benquerença, no mínimo, que por muito menos foi para a prateleira da Liga Europa, e raramente o chamavam, ou então as coisas acabarão por descambar. Eu só “fico satisfeito” por estas coisas acontecerem, não porque goste delas, só um idiota pode ter prazer em ver o desporto conspurcado por este tipo de pagens, ao serviço do chefe, mas porque os alemães também são beneficiados, nomeadamente em relação a nós próprios. Ou já se esqueceram de um célebre jogo entre o Sporting e os alemães do Shalke04, onde um árbitro russo de seu nome, Karasev, e os seus assistentes prejudicaram vergonhosamente o Sporting.
    O resultado foi o Senhor ter ido ao Mundial do Brasil. Pior não podia acontecer.
    Arbitragens como as de ontem, não são meros erros pontuais. São pura e simplesmente tentativas de condicionar o vencedor da partida.
    Por muitas destas coisas o futebol passa-me quase ao lado, e não fosse ontem ter sido um jogo entre dos potentados do futebol europeu, nem sequer tinha ligado ao evento.
    Há de chegar o dia em que o futebol será como o Ruggby, ou o Futebol Americano, no que toca à verdade desportiva.
    Nessa altura, talvez valha a pena perder umas tardes a beber uma “bijeca” a ver um jogo.
    Até lá, eu vou continuar no ciclismo, no ténis, no vôlei, etc…pelo menos as instituições que os regem são implacáveis com a falta de verdade desportiva. Só isso já ajuda muito!

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  2. Excelente comentário, como sempre, Rui! Tocou em praticamente todos os aspectos que nos revoltaram enquanto amantes e enquanto consumidores do espectáculo. São precisamente esse tipo de comportamentos, de favorecimentos e de agendas obscuras por parte de árbitros, clubes, dirigentes institucionais e patrocinadores que nos levam a desconfiar que o espectáculo está completamente viciado. E já se sabe, ninguém gosta de assistir a um espectáculo viciado como foi efectivamente o de ontem.

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