Messi gelou o Bernabéu e reabriu a luta pela Liga Espanhola


Recebeu, fintou, criou o desequilíbrio a meio-campo, deu a progressão a André Gomes (hala!), Jordi Alba assistiu e La Pulga apareceu precisamente onde gosta de finalizar para enviar a bola para o canto inferior esquerdo da baliza de Keylor Navas. Vez, outra vez, na última jogada do encontro, ao 2º minuto de compensação dado por Hernandez Hernandez, o argentino decidiu o superclássico, chegando ao seu golo 500 com a camisola blaugrana. Com um toque de classe e de clara superioridade moral perante um silencioso Bernabeu (que gélido balde de água que foi despejado naquele minuto final) o argentino foi à linha de fundo, tirou a camisola e exibiu-a ao público madrileno para que nunca se esqueçam dele. Apesar do facto do Real Madrid ainda ter um jogo em atraso para cumprir frente ao Celta de Vigo (uma das equipas em melhor forma no futebol de nuestros hermanos) com o golpe de teatro perpetrado, o argentino salvou o Barça do abismo, espantou alguns dos fantasmas que tem vindo a atormentar a equipa nas últimas semanas e devolveu a equipa à luta pelo título.

Clássico bem mais aberto do que o expectável. O habitual novelo táctico que trunca os jogos entre os grandes do futebol mundial foi substituído por um jogo alegre no qual as duas equipas assumiram o compromisso de o tentar ganhar visto que o empate no fundo não satisfazia ambos os interesses na contenda: em caso de vitória, o Real garantiria já a vitória no campeonato (com 6 pontos de diferença e a possibilidade de fazer 9 em caso de vitória no jogo em atraso, creio que estaríamos perante um cenário de impossível reversão para o Barcelona) e, em caso de vitória do Barça, as contas seriam (como foram) reabertas.

As duas equipas acabaram por ser mais efectivas no contra-ataque do que no ataque organizado. Dos 5 golos obtidos e das 7\8 oportunidades de golo associadas que ambas as equipas construíram na partida, 75% dos lances foram desenhados no contra-ataque. A única excepção foram os lances de bola parada, situação na qual o Real abriu o marcador por intermédio de Casemiro (lance no qual fico com muitas dúvidas em relação à posição de Sérgio Ramos no momento do cruzamento de Marcelo; aproveito para dizer que o brasileiro conseguiu mais uma vez escapar à expulsão pelo acumular de faltas que fez sobre Lionel Messi), uma grande oportunidade que Gerard Piqué teve na segunda parte com um cabeceamento para uma excelente parada de Keylor Navas e o 2º golo dos madrilenos marcado por James Rodriguez, lance que apesar de não ter sido criado numa situação de bola parada, constituiu-se como uma excepção ao contra-ataque.

Com um forte dispositivo de pressão alta à saída de jogo dos catalães a partir de trás (situação que causou algum transtorno aos catalães, em particular a Piqué e a Sérgio Busquets), alguma velocidade incutida por Luka Modric nas transições para o contra-ataque e muita mobilidade de Cristiano Ronaldo e Benzema na frente de ataque (mais, quando a equipa atacava em ataque organizado, o avançado foi ao corredor esquerdo dar profundidade e apoio às investidas de Marcelo) a equipa madrilena tentou construir situações de perigo para a baliza de Marc André Ter Stegen com base nos habituais processos de transição rápida conduzidos pelo corredor central por Luka Modric, servindo o croata as entradas na área de Ronaldo. O português teve uma ocasião para inaugurar o marcador quando conseguiu, dentro da área, desviar a bola de Piqué para atirar em jeito para uma interessante defesa do guardião alemão do Barcelona.

Em ataque organizado, a história foi outra. Quer em profundidade (garantida pelo passe longo de Kroos), quer em futebol apoiado, a equipa de Zinedine Zidane procurou dotar a sua ala direita de jogo. Com Carvajal sempre presente numa posição mais exterior e Bale (aposta furada de Zidane; não está pura e simplesmente em forma e terá provavelmente que lidar com um novo período de lesão) ambos tentaram servir bem os dois homens mais adiantados da equipa. Se ao internacional Galés tudo saiu mal, o lateral (a atravessar um enorme período de forma física) não conseguiu cruzar nas melhores condições. Ao contrário, do outro lado, sempre que Marcelo subiu até ao último terço para ter oportunidade de colocar o seu cruzamento, o Real conseguiu criar situações de perigo: se Jordi Alba tirou o “pão da boca” de Ronaldo a cruzamento da esquerda do brasileiro, nos dois golos do Real na partida, foi o brasileiro quem assistiu.

Na primeira parte, no plano ofensivo, a turma catalã viveu dos momentos de Messi. Com Iniesta a fazer um jogo pouco criativo e até algo irregular no passe (não haja duvida que o internacional espanhol perdeu muito do seu jogo com a saída de Dani Alves para a Juventus; durante a presente temporada, sempre que varia o jogo para as entradas de Sergi Roberto na direita, o passe não lhe sai bem, ou seja, ainda não existe uma sincronização clara entre os dois jogadores) e devido às múltiplas dificuldades que os catalães sentiram na fase de construção devido ao enorme poder de pressão que possui o trio de médios do Real, Messi voltou a ter que pegar no jogo atrás para lhe acrescentar velocidade e magia. O argentino teve que lidar com a agressividade de Casemiro na marcação (completamente colado) sempre que foi ao meio-campo buscar o jogo, mas, com a sua enorme classe conseguiu fazer do brasileiro o quis, obrigando-o a cometer muitas faltas. Com razões de sobra para expulsar o médio internacional brasileiro pela sequência de faltas que este cometeu ao longo da partida, Hernandez Hernandez vestiu por momentos a pele de Viktor Kassai, o fúnebre árbitro que a meio da semana expulsou o Bayern da Champions, ao perdoar a expulsão ao antigo jogador do Porto.

Foi precisamente num lance de magia que o argentino fez o golo do empate, numa clássica jogada de entendimento dos homens de Luis Enrique: Busquets solicitou Rakitic que por sua vez, vendo a penetração de Suárez e a entrada de Messi na área sem bola, fez um passe para o argentino, aproveitando está claro a entrada do uruguaio para fixar defensores. Metade dos créditos vão obviamente para a atitude inteligente do avançado devido ao facto de ter conseguido enganar os jogadores do Real Madrid com a sua movimentação sem bola. Com uma prodigiosa recepção no meio de vários adversários, o argentino deu um nó cego em Carvajal e atirou com o seu pé esquerdo para o fundo da baliza de Navas.

Melhor na partida, após o golo do empate, o Barcelona começou a desenhar os seus habituais processos ofensivos. Jordi Alba subiu mais no terreno, Paco Alcácer começou a participar mais no processo de criação  e os catalães poderiam ter marcado o 2-1 mesmo em cima do intervalo num lance em que na sequência de um pontapé de canto batido na esquerda por Rakitic, ao 2º poste, Lionel Messi não conseguiu capitalizar uma falha de Keylor Navas na abordagem ao lance. Contudo, nesse lance creio que Luis Suárez comete falta ofensiva, carregando o costa-riquenho na pequena área.

Nota intermédia: aos 38″ Gareth Bale saiu para dar lugar a Marco Asensio. Ao contrário do extremo, o médio ofensivo espanhol voltou a demonstrar a razão que leva Zidane a considerá-lo neste momento o 12º jogador da sua equipa. Asensio está a tornar-se um jogador muito interessante pela velocidade que consegue incutir no jogo da equipa (principalmente nas acelerações que promove em situações de contra-ataque) e pela capacidade interessante que possui ao nível da decisão e da definição dos lances no último terço. Será em breve um titular desta equipa.

Na 2ª parte, o Real voltou a entrar melhor, como de resto já o tinha feito nos primeiros minutos do primeiro tempo. Com duas oportunidades, uma delas clamorosas (um cabeceamento de Benzema para grande defesa em leque de Ter Stegen, assemelhando-se nesse lance o guardião alemão a um guarda-redes de andebol; e um remate à entrada da área de Toni Kroos que obrigou o jovem guardião do Barça a ter que se esticar junto ao poste direito da sua baliza) o Real poderia ter conseguido o golo. O Barça tratou novamente de equilibrar o prato da balança e teve aquela oportunidade que Keylor Navas sonegou a Gerard Piqué na sequência de um canto. Bola aqui bola ali, o jogo foi prosseguindo com oportunidades para ambos os lados.

Se Ronaldo não foi capaz de “facturar” o 2-1 na cara de Ter Stegen, Rakitic não se fez rogado quando conseguiu, com aquele maravilhoso trabalho de pés, tirar Toni Kroos da frente, puxar a bola para dentro e estufar a baliza do costa-riquenho com um brilhante remate cruzado de pé esquerdo. O espectáculo ganhou claramente com o golo do croata.

A equipa madrilena acusou o golo e começou a perder algum desnorte. Exemplo disso foi a despropositada entrada de sola de Sérgio Ramos sobre Messi, entrada que obrigou (correctamente) Hernandez Hernandez a mandar o central mais cedo para os balneários. Contudo, o golo de James (o colombiano estava há muito escondido no banco de Zidane) teve o condão de voltar a exultar a equipa e os adeptos numa fase em que os catalães já davam como certa a vitória no encontro, não obstante dos avisos que vinham em forma de substituições do banco quando Luis Enrique fez entrar André Gomes para ajudar a fechar bem o flanco esquerdo já que Paco Alcacer não estava de todo a cumprir essa missão. O técnico do Barcelona quis impedir a todo o custo “os célebres e mortíferos cruzamentos de Carvajal” que tantos golos garantem ao Real nas segundas partes das suas partidas. O golo haveria de surgir numa jogada construída pelo outro corredor.

 No 7º golo do jogador colombiano na temporada, as culpas foram partilhadas por Sérgio Busquets e por Gerard Piqué. Se o médio defensivo não ficou bem na fotografia por não ter acompanhado a entrada na área do internacional colombiano, o central espanhol também não ficou melhor porque não atacou aquela bola no devido tempo nem conseguiu ter capacidades para limitar o jogador na sua acção, fiando-se claramente na ideia de que Busquets conseguiria ser mais rápido que James a recuperar posição para aliviar aquela bola.

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