A ponta do iceberg da manipulação de resultados em Portugal


O que se passou ontem em Freamunde no Freamunde vs Penafiel foi de facto algo muito estranho mas não tenho dúvidas para afirmar que se trata de mais um esquema de viciação de resultados na 2ª Liga. Onde há fumo há fogo e esta história, se for bem investigada pela Polícia Judiciária, poderá guiar os inspectores a outras histórias de manipulação de resultados.

O súbito aparecimento de uma desconhecida “coach” de jogadores (pelo menos a fiar pelas declarações que foram proferidas pelo presidente da SAD do Freamunde) as mensagens por esta divulgadas ao referido dirigente (sms que continham o resultado exacto que se iria verificar no intervalo e no final da partida), a estranha actuação do árbitro Hélder Malheiro (validou 1 golo irregular ao Penafiel, anulou 2 ao Freamunde e ficaram, segundo a opinião dos homens da casa por assinalar 2 grandes penalidades a favor da turma da casa; no meio do turbilhão em que foi colocada a arbitragem portuguesa, estes erros de arbitragem até podem ser considerados normais, mas, cruzados com os outros factos, já não são assim tão normais…) e as odds verificadas nas casas de apostas (o Penafiel, 4º classificado da Liga, chegou a ter uma odd de 7 euros por cada euro apostado face aos 2 euros no Freamunde, equipa que neste momento está a um passo de descer de divisão) são per se factos verdadeiramente anormais. E não estão a meu ver associados com a Operação Jogo Duplo.  

Há mais redes relacionadas com a manipulação de resultados desportivos a operar em Portugal. Qualquer investigação que deva ser feita pelas autoridades deverá obrigatoriamente começar na “chinesice” em que se tornou aquela prova com a entrada da Ledman como patrocinadora oficial na prova, continuar na observância do quotidiano dos clubes e terminar no cruzamento de alguns dados que podem ser bastante interessantes para perceber o fenómeno.

1. A rompante entrada da multinacional chinesa Ledman no cenário de uma prova secundária do futebol europeu (uma daquelas que é propensa à existência deste tipo de casos; vejam-se a quantidade de jogos manipulados que a Federbet apanhou no ano passado nos escalões secundários de vários campeonatos europeus) com uma proposta altamente vantajosa (segundo Proença foi “a melhor dos últimos 15 anos” que a Liga recebeu) “cheirou-me imediatamente a gato” – se pela óptica da Liga, o valor angariado permitiu fazer face às enormes despesas que a competição gera, pela óptica do patrocinador, o que é que levou uma empresa multinacional chinesa a patrocinar com vários milhões uma prova cujo naming não gera contrapartidas de maior porque não é de todo uma prova com um enorme grau de visibilidade no futebol europeu? Não me venham portanto dizer que aquela multinacional investiu por investir num escalão secundário de um futebol e de um país periférico da europa para rentabilizar os ganhos de uma “eventual exposição mediática da prova”. Para isso investiam no momento certo na primeira liga, uma prova 100 vezes mais mediática que a segunda. Os chineses não são de todo um povo filantropo. Onde se metem tem sempre o desiderato de ganhar dinheiro. Muito dinheiro. E na China, como sabem, as apostas em eventos desportivos são ilegais mas toda a gente o sabe que os chineses o fazem noutros países, muitas vezes, à luz da lei.

A quantidade de jogadores e treinadores que estes queriam desde o início colocar nos clubes da 2ª Liga foi outra das questões que me levou a chegar a algumas conclusões. Parece-me claro como a água que quem está por detrás deste patrocínio queria colocar o máximo número de jogadores (escondido sobre o pretexto de um intercâmbio de jogadores e treinadores “de que alegadamente beneficiariam também jogadores e treinadores portugueses”) e pretensos treinadores para que eles pudessem, no coração dos clubes, influenciar os colegas portugueses. Os chineses estudaram portanto muito bem todas as condicionantes destes clubes bem como os seus problemas de fundo: os crónicos problemas de tesouraria dos clubes de 2ª liga, a ausência de receitas de maior que possam garantir sustentabilidade à actividade das organizações, os crónicos atrasos destes no pagamento das suas obrigações perante jogadores e funcionários, os problemas financeiros pelos quais passou a própria Liga de Clubes e até os problemas financeiros pontuais que um ou outro dirigente de um clube pode estar a passar.

2. Porque um jogador que ganha 1500\2000 euros mensais e não os recebe é um jogador facilmente corruptível. Um jogador de 2ª Liga que aufira rendimentos na ordem dos 1000\1500 euros (conheço casos de ordenado mínimo estabelecido pelos regulamentos; neste momento é de 1455 euros para a Liga e 845,78 euros para a 2ª liga) são jogadores propensos a embarcar neste tipo de esquemas se os seus clubes não estiverem com a sua folha salarial em dia porque obviamente que são seres humanos que precisam do seu rendimento para fazer face às suas despesas e às despesas familiares. No caso da Operação Jogo Duplo, a necessidade aguçou o engenho. A rede que operava em Portugal começou então a subornar uma data de jogadores com luvas que chegavam aos 3500 euros em troca da manipulação dos resultados dos jogos. De acordo com a acusação do Ministério Público, os jogadores eram informados previamente por um elemento sobre o resultado pretendido, chegando a existir um momento, a meio de um jogo, em que o mesmo elemento, o famoso Aranha da Claque Super Dragões agora arguido no processo, pediu expressamente, a alto e bom som, no meio da bancada, para o guardião Rafael Veloso, na altura guarda-redes do Oriental, sofrer mais um golo porque para os mentores da rede aquele resultado não chegava e era preciso sofrer mais um golo.

3. Um dirigente ou accionista que teve que injectar milhares ou até milhões (literalmente a fundo perdido) na SAD de um clube que não consegue ter mais que 500 pessoas no estádio, quer reaver o seu dinheiro, constituindo-se portanto como mais um agente que pode ser facilmente corrompido.

4. Por outro lado,  as apostas desportivas online e o Jogo Placard abriram as portas do dinheiro fácil a muitas pessoas. O Jogo Placard veio simplificar a possibilidade de se ir às padarias, cafés e quiosques apostar em resultados desportivos como quem vai ali comprar pão. Claro que no meio do simples apostador que dá um euro para ganhar 10 existirá quem tenha milhares para investir de forma a ganhar milhões. Assim como também sei que existem dezenas de agentes ligados à modalidade a apostar nos próprios campeonatos em que participam, maquilhando as suas apostas pessoais nos números de identificação fiscal das respectivas esposas, dos pais e de outros familiares. As autoridades precisam obrigatoriamente de fazer o cruzamento de dados (a quantidade de apostas realizadas por familiares directos e indirectos, cruzando os valores envolvidos com a declaração de rendimentos dessas mesmas pessoas e dos atletas que possivelmente estão associados) para perceber se não são por vezes os próprios atletas ou dirigentes os elementos que manipulam os seus próprios desafios.

2 opiniões sobre “A ponta do iceberg da manipulação de resultados em Portugal”

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