As meias verdades de Bruno de Carvalho


“Não podemos confundir muitas vezes o que são as intervenções dos presidentes, não se pode confundir rivalidades com ódios. E os ódios não vêm de se falar, de haver troca de palavras dos presidentes. Não é isso que eleva os índices do ódio, não é isso que leva os adeptos a irem para a rua e a terem determinado tipo de atitudes. O que leva os níveis de ódios são as tarjas a gozar com pessoas que foram mortas, as tentativas de homicídios de atirar petardos e cadeiras para cima das pessoas, são os cânticos constantes e alusivos a essas mortes e o facto de não se fazer nada… ou os diretores de comunicação, que têm responsabilidades, irem falar em folclore. Isso sim eleva os índices de ódio a um extremo que sempre condenarei, e que não aceito. Há linhas que não se ultrapassam, as famílias das pessoas, a vida humana não pode ser ultrapassada. Não nos podemos perder no acessório” – Bruno de Carvalho – 26-04-2017

Devo iniciar este comentário por dizer que concordo em parte com o conteúdo das declarações do presidente do Sporting. Tanto os adeptos do Benfica (com a situação dos assobios a simular o ruído do lançamento do very-light que matou o adepto Rui Mendes no jogo da final da Taça em 1996) como os adeptos do Porto no célebre cântico relacionado com a queda do avião da Chapecoense, ultrapassaram o limite do que é aceitável com tais atitudes e comportamentos. Mas, por outro lado, as declarações do presidente do Sporting acabam por ser meias verdades. O actual clima de ódio existente no futebol não foi virgem e não nasceu do zero, muito menos quando nos apercebemos claramente que na estrutura social altamente verticalizada que existe neste país, um país em que são cada vez menos aqueles que tem um filtro para separar o trigo do joio no que concerne à informação que bebem como se de esponjas se tratassem, a base da sociedade acaba por ser uma espécie de caixa de ressonância dos exemplos que vem do topo da pirâmide.

Qualquer atitude de ódio é antes de tudo uma manifestação negativa do ser humano. Como um fenómeno cultural com uma carga psicológica e emocional negativa de um certo grupo de indivíduos, o ódio, tem uma origem e tem causas que devem ser em primeiro lugar analisadas (para efeitos de prevenção) e explicadas\desmistificadas, para que não se voltem a cometer os mesmos erros que despoletam tais sentimentos. Dizer que o ódio é portanto um fenómeno que é transportado por um mecanismo acção\resposta (iniciada por um grupo de adeptos de um determinado clube e propagada ao grupo rival pela necessidade de responder ao sentimento negativo que foi veiculado pelo primeiro grupo de adeptos) é tentar esconder essas mesmas causas. E as causas desse mesmo ódio são iniciadas pelos próprios presidentes. Os presidentes podem não apelar ao ódio directamente (mesmo assim, creio que Luis Filipe Vieira o fez nesta descabida intervenção) mas fazem-no indirectamente pela via dos comentadores televisivos, dos directores de comunicação e das figuras públicas que manietam para lançar mais achas para a fogueira. Nessa situação, lamento dizer que o presidente do Sporting também tem as suas culpas no cartório quando sustenta diariamente dentro da sua casa a opinião deste senhor, um tal de Carlos Dolbeth.

Quando um presidente sustenta (e usa, como um agente que só serve para se poder dizer o que o presidente do Sporting não pode dizer publicamente para não ser ou parecer socialmente incorrecto) dentro da sua própria casa um individuo como este, munido com uma linha de pensamento e até de argumentação altamente enviesada e manipuladora (linha de pensamento da qual obviamente me desmarco porque me faz sentir uma espécie de “vergonha alheia”) com uma falta de maneiras grotesca, a fazer lembrar mesmo os comportamentos humanos na idade da pedra, com uma capacidade ímpar de recurso ao insulto gratuito e cobarde quando não encontra argumentos para conseguir justificar as suas teses, parece-me claro que se trata de uma situação altamente manipulada que visa apenas fomentar o ódio. Porque o recurso ao insulto fácil e gratuito e a manipulação de informação são duas das causas que criam sentimentos de ódio.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s