O hipócrita discurso de Luís Filipe Vieira



Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência e de bom senso percebe que o presidente do Benfica não escreve os discursos que lê nem pensa as declarações que profere. Para chegarmos a tal conclusão, não precisamos sequer de lhe apanhar falhas no acto leitura dos discursos. Os erros estão mesmo no conteúdo das declarações. Na última semana, variadíssimas foram as incongruências que apanhei no seu discurso. Senão vejamos a contraposição entre algumas das declarações e as atitudes do presidente do Benfica:
“As pessoas têm de pensar muito no que estão a fazer. Não podem mandar as pedras e depois esconder as mãos. Há 15 ou 16 anos tivemos, dentro da nossa casa, um mentiroso compulsivo e um demagogo e soubemos recuperar o Benfica e trazê-lo para onde está hoje. Hoje, quando recebi a carta do Sporting, recordei-me desses tempos, de gente populista e mentirosa compulsiva” – logo a seguir ao final do derby para depois afirmar:

“Houve um incidente junto ao Estádio da Luz. Entregámos todas as imagens à polícia, não trabalhadas e com som. Já vi essas imagens. É fácil identificar as pessoas. Mas o que estavam a fazer adeptos do Sporting às três da manhã junto ao estádio do Benfica? Seria para tirar fotografias? As provocações geram violência e quem é que tem contribuído para isso ao longo destes quatro anos, quem é que incendiou o futebol português? Quando acontecer outra desgraça não venham culpar o Benfica. Reflitam todos. Vão para a cama e pensem”

Em 5 breves minutos, o presidente do Benfica considerou (em forma de interrogação) que foi o presidente do Sporting quem “incendiou o futebol português” nos últimos 4 anos mas, 2 minutos antes, em vez de reflectir (porque efectivamente mandou as pessoas reflectir) não teve qualquer pejo em ser ele o foco de incêndio ao insultar o presidente do Sporting na casa deste. Sem parar para reflectir. Contudo, Luís Filipe Vieira fugiu como o diabo fogue da cruz à assumpção (nítida) que um dos focos de violência reside no clube da Luz, ou seja as claques ilegais que o clube apoia.

Até mesmo a frase “não podem mandar as pedras e esconder as mãos” foi um profundo contra senso face à atitude de silêncio “demonstrada no último ano” (Vieira diz que no último ano só falou por uma vez; já encontrei pelo menos duas declarações, aqui e aqui; mas há mais se vasculharmos por essa internet) pelo presidente encarnado e não reflecte minimamente a postura pública de Bruno de Carvalho desde que tomou posse como presidente do Sporting porque o presidente do Sporting teve sempre a coragem de dar a cara por todas as suas declarações públicas ao contrário do presidente do Benfica, agente que durante muitos anos fala por intermédio de avançados de comunicação. A memória de Vieira e dos seus assessores de comunicação é portanto, muita curta. A 26 de Outubro de 2016, ou seja, há sensivelmente 7 meses atrás, o presidente do Benfica fez um conjunto de insinuações contra o rival nas entrelinhas deste discurso:

“O Benfica quer ter boas relações e recebemos todos os clubes. O Benfica, na hora da derrota, olha para dentro. Não acha que é estranho que um treinador que não ganha nada numa época mantém-se na temporada seguinte? Isso é o sinal que soubemos estar unidos e olhar para dentro. Quando se perde não podemos ir para a praça pública dizer que foram os vouchers, que foi o árbitro, que foi o outro, ou que o árbitro deu 6 minutos de desconto e devia ter dado 15. Um dos pontos do sucesso do Benfica é olhar para dentro. Somos exigentes e não nos desculpamos com ninguém. Não fazemos loucuras. Não há um atleta, treinador ou dirigente que esteja acima do Benfica”

“O Benfica já deu exemplos de que para discutir futebol senta-se à mesa com todos. Não tem qualquer problema. Agora, no dia a dia, não vamos ser hipócritas. Se me pergunta se me sentava à mesa com o presidente do Sporting respondia-lhe: para discutir o quê? O presidente do Sporting é um problema dos sportinguistas”

Ironia das ironias, o discurso do presidente do Benfica nessa ocasião começa com uma achega à manutenção de Jorge Jesus no comando técnico do Sporting. Curiosamente, não foi Vieira quem segurou Jesus no Benfica quando este também não ganhou nada numa temporada? Assim como também não foi ele próprio o dirigente que nos seus primeiros anos na presidência do Benfica aproveitou o “processo apito dourado” (processo no qual o Benfica se constituiu como assistente) para levantar uma cortina de fumo na qual pediu durante anos a fio “verdade desportiva” no futebol português, chegando inclusive a ser um dos principais signatários de uma petição entre na Assembleia da República? O que é difere portanto o comportamento de Bruno de Carvalho dos últimos 4 anos do comportamento de Vieira nos seus primeiros anos enquanto presidente do Benfica? Nada. Absolutamente nada.

O silêncio é de ouro?

Luis Filipe Vieira referiu numa das várias declarações que se tem mantido em silêncio no último ano (uma redonda mentira já aqui desmistificada) porque “o silêncio é a sua forma de comunicação” – se o silêncio é a sua forma de comunicação, não percebemos portanto as declarações proferidas em Alvalade nem tão pouco as declarações proferidas durante o dia de ontem na Casa do Benfica de Grândola. Se o presidente do Benfica considera “ver vantagens numa postura de silêncio” e já afirmou muitas vezes “que não quer encetar um diálogo com o Sporting” e que o Benfica “deverá deixar os adeptos dos rivais falar sozinhos” porque é que veio agora, durante a presente, semana, deitar vários bidons de gasolina para o incêndio que, segundo as suas palavras, “não é provocado por si”. Estranho e no mínimo antagónico. Se considerarmos as declarações ofensivas proferidas uns dias antes na casa do rival, digamos que neste caso concreto, “a bota não bate com a perdigota”:

«Face ao que temos assistido, e não vale a pena recordar, foi sem surpresa que soubemos que existe quem proponha a despenalização de declarações como uma das formas para a melhoria do ambiente que se vive no futebol português. É preciso uma enorme dose de falta de bom senso e igual medida de demagogia»

«Não bastam meras declarações de circunstância e propostas de cimeiras de alcance duvidoso, quando diariamente se mostram incapazes de posições firmes e claras perante quem todos os dias viola as regras. Temos assistido de um tudo um pouco, desde de quem sonhava com um regresso ao passado de triste memória, a alianças que hipotecam as suas próprias ambições desportivas, tudo servindo, afinal, para se evitar enfrentar de frente os motivos porque se falham objetivos constantemente»

«Não deixa de ser surpreendente que os apelos à serenidade do presidente da Liga só tenham ocorrido agora. Esteve demasiado tempo em silêncio, como que pactuando com o crescente clima de intimidação e crispação que alguns quiserem trazer para o futebol português, perdendo oportunidade de autoridade ao apenas falar agora.»

O silêncio é de ouro e é a sua forma de comunicação, mas, incongruência das incongruências, o presidente do Benfica conseguiu em poucos minutos atacar na diagonal os presidentes dos rivais e o presidente da Liga de Clubes. Isto meus caros leitores, é pura hipocrisia.

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3 opiniões sobre “O hipócrita discurso de Luís Filipe Vieira”

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