Análise: Real 3-0 Atlético – Uma orgia de futebol do Real


Hat-trick feito. Eliminatória que nunca o chegou a ser. Orgia de futebol colectivo, a essência do futebol, polvilhada com a frieza do suspeito do costume na hora de atirar à baliza. Uma equipa que chega às meias-finais de uma competição como a Champions, a jogar fora perante a equipa que está em melhor forma no cenário europeu, sem qualquer intensidade (nos momentos de pressão, nos momentos de construção), sem ideias para contrariar o sistema defensivo montado pelo adversário, incapaz de se reinventar face aos problemas colocados pelo adversário, inoperante e cheia de problemas no sector defensivo e na sala de máquinas do meio-campo, jamais poderá sonhar com o quer que seja. Essa equipa, completamente descaracterizada face aos moldes trabalhados e apresentados (com distinção) nos últimos anos foi a equipa de Diego Simeone. A extraordinária equipa que conhecemos nos últimos anos pela sua enorme capacidade de subir e baixar linhas conforme o momento do jogo, de rapidamente de se organizar defensivamente num intransponível bloco baixo, intensa na pressão, agressiva no capítulo de recuperação da bola, assertiva nos duelos na área, eficaz no alívio, e muito criativa e eficaz na transição para o contra-ataque com recurso a poucas unidades nesse processo, já não existe.

O caso ficou completamente sentenciado na 1ª mão. 
Compreender o trabalho de Zidane

Intensidade a meio-campo. Pressão no osso, a doer. Marcações cerradas para obrigar o adversário ao erro. Dois médios mais descaídos para as alas (Modric a ajudar Carvajal no processo defensivo enquanto Kroos fez o mesmo no flanco contrário) sem nunca terem descurado a ajuda ao centro de forma a criar superioridade numérica, vantagem que foi preciosa nas divididas. Casemiro mais entregue às movimentações de Griezmann, seguido as amplas movimentações do francês no corredor central para impedir que este pudesse receber e servir a entrada de Gameiro pelas costas dos centrais. Só por 1 vez o avançado francês conseguiu servir bem o seu compatriota, num lance que foi resolvido com eficácia por Keylor Navas no 1×1 contra o avançado. Especial atenção ao flanco esquerdo do Atlético porque é pelo flanco esquerdo que a equipa colchonera gosta de realizar as transições para o ataque (através do seu lateral esquerdo) e “criar” jogo, quer pelos cruzamentos de Filipe Luis quer pelos cruzamentos de Koke. Com a colocação de 4 homens naquele flanco, Zidane esteve sempre em vantagem no flanco, impedindo a desejada profundidade que o Atlético quis ter mas não conseguiu. Assim que a equipa da casa se apanhou a ganhar, baixou o bloco defensivo, todos os jogadores começaram a fechar bem as linhas de passe e o Atlético nunca mais voltou a entrar na partida.

Se defensivamente, o técnico francês montou a equipa com distinção, ofensivamente tenho que dizer o mesmo. Meio-campo mais aberto, com Casemiro a “safar-se” muito bem no capítulo do passe sem ter medo de assumir a condução de bola e o primeiro passe nas transições. Zidane está a conseguir tirar o que nunca ninguém tirou do médio brasileiro, dotando-o de mais eficácia no passe. Kroos mais encostado à esquerda fazendo a ligação entre o médio e o sector esquerdo. Modric mais pela direita, auxiliando directamente o brasileiro. Laterais bem projectados sempre à procura do cruzamento para o toque de midas de Ronaldo, e a pedra de toque (Isco) a vaguear entre um flanco e outro para ajudar nas triangulações, triangulações onde apareceu várias vezes Ronaldo a descair para o flanco direito.

Quando uma equipa é operacionalizada a este nível de personalização quer nos processos ofensivos, quer nos processos defensivos, o resultado só pode ser bom.

Uma equipa que soube o queria desde o início. Um “início de terror” para o Atlético.

Os primeiros 20 minutos da partida foram fulcrais para o desenrolar dos acontecimentos. A equipa do Real sabia perfeitamente ao que vinha: queria iniciar a partida a pressionar o adversário no seu último terço, queria marcar cedo, queria condicionar o jogo adversário, aproveitando a sua lentidão de processos a meio-campo e a falta de ideias face às adversidades colocadas ao seu habitual modelo de jogo, para dar, mais tarde ou mais cedo uma estocada de morte na eliminatória.

Foi precisamente isso que aconteceu no Bernabeu. Com uma entrada de leão, os merengues não deixaram jogar e foram aproveitando as falhas defensivas que eram cometidas pela turma de Cholo Simeone. A primeira, mais evidente, e em certa forma resultante da ideia que Simeone projectou para a partida, de forma a condicionar as transições adversárias, foi a facilidade com que os merengues conseguiam suplantar as duas linhas de pressão (média alta) dos colchoneros para colocar a bola em Luka Modric, garantindo-lhe mais conforto na zona de construção. O argentino acreditou e bem que a equipa teria mais hipóteses de marcar primeiro se conseguisse viver no erro do adversário nas saídas a partir de trás. Uma recuperação de bola no meio-campo do Real poderia efectivamente valer “golden shares” nos pés de Griezmann. Nos primeiros minutos arrisco-me a dizer que os jogadores do Atlético pareciam baratas tontas a correr atrás dos jogadores do Real, sem existir dentro do colectivo uma individualização bem definida das respectivas zonas de pressão: cada um pressionava o que estava “mais à mão”.

Com o uso e abuso de combinações entre Isco e Carvajal no flanco direito e do 1×1 de Marcelo na esquerda face a um Lucas Hernandez que tremeu como varas verdes, a equipa merengue visava essencialmente construir boas situações de finalização para Ronaldo e Benzema através de cruzamentos. Os centrais do Atlético não tiveram mãos para tantos violinos nestes primeiros minutos e a equipa acabou por nunca conseguir aliviar bem as bolas que caíam na área.. Carvajal foi o primeiro a dar o sinal de alerta quando conseguiu entrar pela direita em espaço de finalização depois de realizar uma vistosa tabela com Isco (que tirou Filipe Luis do caminho) e um portentoso drible sobre Godin, obrigando Oblak a uma defesa de recurso que só não deu em golo porque Benzema estava mal enquadrado no momento do ressalto.

Os merengues não baixaram a intensidade do seu dispositivo de pressão, não cometeram erros posicionais, e foram lucrando com a baixa intensidade com que os colchoneros encararam a partida. Se pelas alas, tanto Koke como Ferreira-Carrasco foram uma autêntica nulidade, no miolo a situação não era melhor. Pesem os esforços de Griezmann para vir pegar o jogo atrás de forma a criar espaço para as possíveis entradas de Koke e Ferreira-Carrasco nas costas de Casemiro (na primeira parte existiu espaço), ambos não perceberam que poderiam retirar proveitos do dinamismo do francês aparecendo no corredor central (num dos raros momentos em que Koke saiu do desconforto do seu flanco, vai nascer uma falta que redundou num clássico lance de bola parada desta equipa no qual Griezmann levou com muita categoria para o 2º poste onde apareceu Godin em esforço a rematar por cima) e tanto Gabi como Saúl Niguez nunca se conseguiram impor no jogo, perdendo muitos lances para Modric, Casemiro, Benzema e Kroos. Quando foi preciso, até Ronaldo pressionava ou tapava linhas de passe. O Real queria a bola e teve a bola.

Na 2ª parte, o Atlético conseguiu carregar mais jogo para a outra metade do campo. Contudo, a equipa de Simeone nunca foi rápida nas transições e nunca teve ideias para contornar o bloco recuado que a equipa de Madrid passou a exercer para cortar qualquer veleidade de profundidade no jogo colchonero. Sem nunca ter parado de investir pelos flancos, sempre que podia, Marcelo (face à lesão de Carvajal e à entrada de Nacho, situação que enfraqueceu o power football da ala direita do Real) subia no terreno com o esférico controlado de forma a procurar Benzema e Ronaldo. Foi numa jogada desenhada pelos 3 que nasceria o 2º golo, golo em que Filipe Luis cometeu um deslize na recepção\alívio do esférico depois de ter fechado bem a linha de passe entre o francês e o português. Ronaldo aproveitou o deslize do catarinense para deixar a bola tocar no esférico e estufar as redes de um pobre guarda-redes que não teve quaisquer hipóteses.

Diego Simeone bem tentou no 2º tempo mexer com a frente de ataque, colocando caras novas nas alas e na frente de ataque. Nem Angel Correia, nem Nico Gaitán nem El Niño Torres conseguiram ter o poder de inverter um jogo em que se pedia mais dinâmica aos colchoneros para suplantar a pressão adversária nas trocas de bola a meio-campo e mais fantasia no momento de criação. Durante 90 minutos foram raras as vezes em que vimos os jogadores de Simeone tentar rasgar a defesa merengue em investidas individuais, momentos que Saúl Níguez e Koke por vezes tão bem sabem realizar.

A cereja no topo do bolo.

Zidane percebeu a certa altura que poderia matar por completo a eliminatória se a equipa desse bola ao Atlético e descesse o seu bloco defensivo. A lentidão de processos dos colchoneros aliada à falta de dinamismo de algumas unidades levariam a equipa a perder a bola e a conceder a oportunidade para o Real contra-atacar. O jogo era portanto ideal para a velocidade de Marco Asensio e Lucas Vazquez nas alas. Os dois corresponderam às intenções do seu treinador. Se num, Asensio passou que nem uma flecha sobre Lucas Hernandez, assistindo a diagonal de Vasquez que culminou num remate torto por parte deste, aos 86″ foi o próprio Vazques quem ajudou a decidir a eliminatória quando realizou aquela espantosa combinação no contra-ataque com Ronaldo, assistindo da linha de fundo o corte nas costas dos português sobre os defesas do Real Madrid. Vazquez percebeu muito bem o movimento sem bola do português, tratou de ganhar a linha para fixar as atenções dos defesas colchoneros (criou o engodo) e quando viu já Ronaldo estava na cara de Oblak, assistindo-o com muita classe.

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