Análise: Mónaco 0-2 Juventus – Um trio mortífero!


O topo do cinismo ou o topo da inteligência na gestão de um jogo? Esta é a pergunta de partida que deixo no início desta crónica para que os leitores possam reflectir sobre o que se passou no jogo desta noite no Estádio Louis II. Uns dirão que a Juventus foi uma equipa cínica que viveu no erro do adversário, aproveitando os erros adversários para criar as jogadas de perigo que a turma italiana criou na partida. Outros dirão que os piemontesi foram muito inteligentes na forma em como abordaram todos os contextos que o jogo ditou. Nenhuma das “correntes de opinião” está totalmente errada mas também não explica 100% o desfecho final da partida. Temos obrigatoriamente que juntar ao cinismo e à inteligência\eficácia táctica defensiva dos bianconeri, o receio acumulado pelo Mónaco desde o início da partida e a subtil mudança que Leonardo Jardim protagonizou à identidade de jogo da equipa. 
Entrar com o bloco defensivo recuado. Porquê?

Créditos: Juventus Football Club

O treinador português deverá estudado o comportamento da equipa italiana em ataque organizado. Contra o Porto, no Dragão, no jogo a contar para os oitavos-de-final a equipa de Allegri dominou por completo a posse de bola, teve mais posse territorial, atacou muito mas baqueou por completo na fase de criação, causando perigo apenas em remates de meia distância. Nesse jogo, só quando Pjaca e Dani Alves entraram na partida (a meio da 2ª parte) é que a equipa de Allegri conseguiu furar a “razoavelmente organizada” defensiva portista num jogo em que os portistas tiveram que se remeter forçosamente à defesa devido à expulsão de Alex Telles.

Na mente de Leonardo Jardim estaria decerto uma ideia de base: defender bem, recuperar rapidamente a bola e sair nas transições em velocidade por intermédio de Bernardo Silva, para que o português pudesse criar situações de ruptura parecidas com aquelas que criou no 1º golo obtido pelos monegascos no jogo de Dortmund. Sentindo que a Juventus não tem o seu ponto forte no contra-ataque (a eliminatória contra o Barça evidenciou-o), o técnico português terá decerto confiado que a sua equipa poderia contra-atacar os italianos com um verdadeiro contraveneno ao seu jogo. No entanto ficou-me claramente a sensação que os franceses poderiam ter sido mais felizes se tivessem adoptado a estratégia de pressão alta que tantos frutos deu nas eliminatórias frente ao Borussia de Dortmund e Manchester City.

A Juve não teve medo de assumir o jogo no meio-campo do Mónaco, equipa que ficou amputada dos seus dois laterais de origem, facto que levou Jardim a ter que colocar Dirar na direita e Sidibé na esquerda. Com os dois alas bem projectados no último terço (a vigilância e cobertura defensiva aos flancos esteve sempre garantida por parte de Barzagli, Chiellini e Bonucci), Paulo Dybala mais próximo de Daniel Alves na direita (1×2 constante) e os médios a servirem de interligação entre flancos, os italianos conseguiam rapidamente construir jogadas através da variação de flanco para flanco em poucos toques, originando boas situações de cruzamento para a área, onde Mandzkukic apareceu mais próximo de Higuaín nesta fase inicial da partida. O único lance de perigo que rondou a baliza de Subasic neste período inicial deu-se quando Dani Alves conseguiu tomar as costas da defesa monegasca para assistir a entrada de Higuaín na cara de Subasic. O avançado não conseguiu chegar à fabulosa assistência do brasileiro por um palmo.

Os monegascos até conseguiram aguentar os primeiros assaltos, subindo paulatinamente as linhas à medida em que a Juve começou a ter mais cautela em atacar. As primeiras situações de perigo até se deram em dois cruzamentos de Dirar para a área à procura das desmarcações de Kylian Mbappé sobre os centrais transalpinos. O avançado revelou “ganas” de bater Gigi Buffon, fazendo jus às afirmações que proferiu na conferência de imprensa de ontem, momento no qual considerou que “estava ansioso para ter um duelo com o italiano”, que por sua vez considerou o avançado como um “jogador incrível” – nos dois primeiros rounds do “generation clash” entre o jovem avançado do Mónaco e o veteraníssimo guardião da Juve, Gigi deu 2 de vantagem a Mbappé com uma segura defesa a um cabeceamento (boa desmarcação no meio dos centrais) e uma defesa fantástica junto ao poste numa puxada ao canto do jovem. A melhor fase do Mónaco na partida culminaria com duas oportunidades: uma naquela de Glik (torto, ao lado) e outra mais perigosa na cabeça de Falcao.

A partir dali, os italianos sentiram o perigo e exceptuando num ou noutro momento da 2ª parte, só voltaram a subir as linhas para pressionar alto num par de ocasiões, originando nessas duas ocasiões, um lance de muito perigo para a baliza de Subasic quando Marchisio capitalizou num erro na saída de Thomas Lemar e o lance no 2º golo numa perda de bola de Bakayoko no meio-campo. Se no primeiro lance me deu a sensação que Marchisio foi guloso demais (viu a aberta para rematar na cara de Subasic, quando com um bocadinho mais de inteligência na decisão, face ao contra pé em que foi apanhada a defesa do Mónaco, se tivesse deixado os defesas passar, poderia ter assistido Dybala) no 2º, bem no 2º….

Três actores, dois processos simples e dois golos

No primeiro golo da partida, Dybala e Dani Alves soltaram toda a sua inteligência. O argentino teve a capacidade de leitura e a capacidade técnica que se lhe exigia naquele lance – ao ver a entrada de Daniel Alves nas costas de Bakayoko e Fabinho e a pressão de Jemerson face à ausência de Sidibé (os temíveis elementos de pressão do meio-campo de Jardim, jogadores que hoje estiveram uns furos abaixo do seu normal rendimento) o avançado sabia que poderia estar ali uma “situação dourada” na qual o brasileiro iria conseguir tirar vantagem se acelerasse com a bola nos pés porque meia defesa do Mónaco já estava ali totalmente comprometida. Foi o que internacional brasileiro fez, aguentando num segundo momento a carga de Kamil Glik, de modo a assistir a entrada “mais que comunicada de Higuaín” no espaço que acabou por ficar livre porque os médios do Mónaco não foram rápidos a recuperação posição e Thomas Lemar preocupou-se em ir fazer a dobra interior. Parece complicado não parece? Não, foi um processo simples e eficaz.

No lance do 2º, o processo foi mais simples. O argentino pressionou bem Bakayoko, recuperou o esférico, aguentou a natural “carga” que se seguiria no esforço de recuperação do homem que tinha perdido a bola, serviu o brasileiro e este, com a sua notável capacidade de cruzamento só teve mesmo de colocar a bola na entrada de Higuaín ao 2º poste. Naturalmente que Dani Alves sabia que o avançado iria cair ali naquele sítio.

Em ambos os lances, el Pepita calou todos aqueles que lhe demandavam golos na Champions.

E a Juventus ficou como quis na partida.

Os monegascos tentaram por ordem no jogo de maneira a conseguirem o golo que lhes poderia readmitir na discussão pelo resultado. A equipa de Leonardo Jardim tentou obviamente procurar profundidade nos corredores com as entradas em diagonal de Mbappé no flanco esquerdo e tentou entrosar os dois avançados no jogo construído a meio-campo. Se o primeiro foi sempre seguido por Barzagli, o segundo foi muito castigado com faltas sempre que vinha atrás tentar buscar jogo. Um dos aspectos que esta Juventus faz muito bem no jogo é o número de faltas que comete. Os italianos não tem qualquer medo de recorrer à falta (a faltas duras) sempre que se verifique uma situação que pode levar perigo à sua baliza. Giorgio Chiellini foi o expoente dessa estratégia. A doer em duas situações (uma cotovelada sobre Falcao, uma entrada duríssima sobre Germain), por várias vezes o central mereceu a expulsão por acumulação de Antonio Mateu Lahoz, o “trapalhoco árbitro” espanhol que deixou os italianos acumular uma dúzia de faltas duras sem actuar no critério disciplinar.

Moutinho e Germain ambicionaram regressar à estaca zero

Leonardo Jardim sentiu necessidade de mexer a meio-campo, colocando Moutinho a construir jogo e colocou Germain no lugar de Lemar. Não tendo sido arrojado nas alterações (viria a tirar o “escondido” Bernardo Silva para entrar o lateral Touré, subindo Dirar para o último terço), estas até acabaram por correr bem porque o Mónaco voltou a ter alguma alma para enfrentar a parte final da partida. Com uma construção muito simples, o português conseguiu criar boas de situação no cruzamento no flanco direito e o Mónaco ainda tentou um assalto final à baliza de Buffon. Com dois livres “muito bem batidos” na direita, o português concedeu um “penalty” de cabeça a Valère Germain (Buffon ainda teve de se esticar para conceder canto) e quase serviu com exito uma entrada de Falcao sobre Chellini, lamentando-se apenas o facto do colombiano ter chegado ligeiramente atrasado ao esférico.

 

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