Hoje Escreves tu #13 – Como avaliar a era Jesus, Mestre da Táctica, no Sporting? – 1ª parte


Por Miguel Condessa

Pontos prévios para perceberem onde me situo e onde situo o meu clube de coração para fazer esta análise:

  • O Sporting, dado o seu passado recente, chegou às mãos do Bruno de Carvalho (BdC) numa situação muito fragilizada em relação aos seus rivais, quer em termos de activos que possuía, quer em termos monetários/económicos, quer em termos de organização, quer do clube, quer da SAD, quer em termos de poder no desporto em Portugal! Estaria muito mais próximo do que é a realidade do Sporting de Braga do que seriam, e são, as realidades do Porto e, especialmente, do Benfica que nessa altura já dominava em quase todas as vertentes.
  • Não sou um admirador incondicional do Jesus. Reconheço-lhe mérito técnico-táctico como treinador, acho-o um bom treinador de campo, que lê bem os jogos, mas também lhe reconheço grandes deficiências noutras valias fundamentais a um treinador que, em conjunto com as primeiras, acabam por fazer o treinador no seu todo. Além disso acho-o uma pessoa muito limitada. É muito centrada no seu Ego, raramente assumindo os erros que comete – que não são tão poucos como isso. No geral acho-o um bom treinador, que poderia ser muito melhor se fosse uma pessoa mais culta e mais equilibrada, com a dose de humildade que normalmente os grandes seres têm – quem é grande, mesmo, nunca precisou de se colocar em bicos dos pés. Não é, nem pouco mais ou menos, o que pintam dele, e muito menos o que ele pensa de si próprio.
  • Jesus, no geral, é um treinador no mesmo patamar de um Vilas Boas, de um Marco Silva, de um Rui Vitória, de um Paulo Fonseca, de um Vitor Pereira, e até há pouco tempo até do Jardim, que esta época demonstrou que já está num patamar superior, mais próximo do Mourinho! Terá umas características melhores, outras piores, como todos. E, para mim, é a soma disso tudo que os coloca a todos num mesmo patamar, mesmo que determinadas características possam indicar um mais que os outros para determinado momento num determinado clube.
  • Diminuir esse fosso gigante requeria um trabalho monstruoso de reorganização a todos os níveis e uma elevada percentagem de acerto, quase a roçar o 100%, nas tomadas de decisão necessárias. No que ao futebol diz respeito, que é basicamente o que interessa para aqui, requeria uma acertada remodelação do futebol, a dispensa acertada do entulho que por lá havia e a contratação cirúrgica e acertada de novos jogadores, gastando pouco e bem, ao mesmo tempo se fazia um esforço para manter os bons jogadores que já tínhamos.

Partindo destes 4 pontos, e sem me alongar muito nos 2 primeiros anos – de Jardim e de Marco Silva – penso que o principal foi feito e com um sucesso muito aceitável. Foram escolhidos 2 bons treinadores. Neste aspecto acho que dificilmente poderiam ter feito melhor! Tive pena do Jardim ter sido vendido mas compreendi dadas as circunstâncias e achei muito bem, não só, a aposta ter sido feita no Marco como com um contrato de 4 anos. Já em termos das aquisições estes 2 anos deixaram algo a desejar. Se no 1º ano, dadas as condicionantes monetárias, a coisa era bastante difícil – foram gastos bem menos de 10M€ em 17 jogadores, dos quais 10 vieram para a equipa A – conseguiram-se boas contratações como a do Jefferson, a do Montero e a do Slimani e a razoável do Maurício. Muitos vieram emprestados, sem grandes custos, e não rendendo acabaram por sair como entraram. Cerca de 2/3 das aquisições foram, pelo menos de algum modo, positivas.

No entanto, no 2º ano, gastando-se para cima de 16M€ em 13 jogadores, dos quais pelo menos 8 vinham para a equipa A, a coisa foi diferente. Aproveitou-se o Nani e o Paulo Oliveira, de algum modo o Sarr, o Jonathan e o Gauld na B. O Paulo Oliveira já estava contratado quando o Marco foi anunciado, e o Nani veio na venda do Rojo. Nem um dos outros teve a opinião, favorável ou não, do Marco, como o BdC fez questão de frisar e o Marco nunca desmentiu. Andou ela por ela entre os que se aproveitaram e os que acabaram por se revelar mal contratados, acabando por se “deitar foracerca de 8/9M€!

Sempre fui contra mandar o Marco embora. Primeiro porque lhe reconheço imenso futuro! Também porque se percebeu que os jogadores estiveram sempre do seu lado e acreditavam nas suas ideias, como se viu pelo querer demonstrado, em condições muito desfavoráveis, na 2ª parte da épica final da Taça de Portugal que ganhámos ao Braga. Sempre teve uma postura correcta mesmo nos momentos mais difíceis e eu acreditava no seu projecto, que é muito similar ao que eu penso que deve ser um projecto em qualquer equipa ao longo do tempo! Fiz questão de escrever no Facebook do BdC a minha opinião, rematando com a minha convicção que ao fim dos 3 anos que eram o contrato original do Jesus ele estaria arrependido e, nesse período, o sucesso desportivo do Marco seria superior ao do Sporting, infelizmente.

Não tendo especial apreço pelo Jesus, se já achava mau mandar o Marco embora, achei um erro ser o Jesus, treinador que a esmagadora maioria dos sportinguistas diziam só ganhar no Benfica por causa do colinho, a substitui-lo mas até compreendo a opção por ele. Que outro treinador faria os adeptos não se revoltarem contra a saída do Marco? Sou dos poucos que acha que o Jesus já tem um presente muito limitado – quantos clubes de topo nos campeonatos europeus estarão dispostos a apostar nele nesta altura? – e que o seu futuro será… bola. Na altura penso que teria ainda presente pois o Porto estaria também disposto a contratá-lo, o que hoje já duvido bastante. E não tendo Porto, nem um dia o Sporting, em Portugal acaba o seu espaço. E, como disse, não acredito que alguma grande equipa europeia o queira. Claro, poderá sempre ir para um país árabe, ganhar
rios de dinheiro, ou para a Turquia ou Grécia, mas duvido que isso seja do seu agrado. Se for, porque não tem mais mercado, será para fazer crescer o pé-de-meia durante 2 ou 3 anos antes de arrumar as botas e enveredar por uma carreira de comentador – onde será interessante tentar perceber o que diz!

Mas a opção recaiu sobre o Jesus e o Jesus passou a ser o meu treinador, apesar de não acreditar que o sucesso desportivo no Sporting chegue com ele. Era, e é, cada vez mais, a minha convicção. Mas faço força, todas as semanas, para que o Jesus demonstre que estou errado e que me mostre como a aposta nele foi um sucesso, especialmente desportivo! De qualquer maneira, tiro o chapéu ao BdC porque soube sempre escolher bons treinadores.

No 1º ano do Jesus, gastaram-se um pouco mais que 20M€ por 15 jogadores (não coloco na lista o Ciani que saiu tão depressa como chegou!), dos quais 12 foram directamente para a equipa A.
Alguns vieram emprestados, como o Coates ou o Paulista, outros a “custo zero”, como o Aquilani, o Bruno César, o Schelotto ou o João Pereira. Tirando o Bryan Ruiz que estava contratado quando se anunciou o Jesus, todos os outros tiveram o seu aval, num volte-face da política de contratações. O jogador mais caro acabou por ser o Teo – perto de 5M€ – o que me pareceu logo um erro, não só pelo seu passado problemático por todo o lado onde passou como pelo montante envolvido para a idade de um jogador tão problemático! Mais ainda por, como confirmou posteriormente o BdC, a alternativa ser o Mitroglou! Óbvio que eu traria sempre o Mitroglou, se a escolha fosse entre estes.

2… De todos os jogadores que chegaram durante esta época, só o Coates é um jogador que é inquestionável. Mais ainda pelo baixo valor da opção de compra! De resto só questionei a vinda do Aquilani porque me pareceu um jogador já sem intensidade para o Sporting de Jesus, como se provou. Os outros, ou porque não os conhecia o suficiente, ou porque me pareceram valer o risco,não questionei.

Esse ano resume-se praticamente à conquista da Supertaça, contra um Benfica perdido pela entrada de um novo treinador que estava a conhecer os cantos à casa e de rastos da digressão Americana, e ao bom campeonato que fizemos, lutando até ao fim pelo título que, para mim é inequívoco, não foi conquistado porque a APAF não deixou! Na Taça da Liga fomos eliminados por uma equipa da 2ª Liga – uma vergonha! – na Taça de Portugal fomos gamados em Braga e afastados da prova, num enorme jogo de futebol, e na Europa tivemos uma prestação medíocre, sendo goleados por um clube albanês desconhecido e saindo mais tarde da prova sem glória nem fama – nem pontos para o ranking! Mesmo tendo em conta que fizemos um campeonato muito bom e merecíamos o título, a verdade é que não ganhámos nada e a época acabou por ser, de alguma forma, e à conta disso, uma frustração. Mas as perspectivas, pelo excelente futebol com que se fez os 2 últimos meses da época, eram animadoras para a época seguinte.

No 2º ano do Jesus, depois de Portugal ter sido campeão da Europa, vendemos o Naldo, o João Mário e o Slimani, fazendo mais de 70M€ em vendas, dos quais entraram no clube cerca de 60 M€.

Gastou-se um pouco mais de 30M€ em 23 jogadores, dos quais 12 vieram para a equipa A. Destes 12, na minha opinião, aproveitam-se 2: o guarda-redes suplente que veio a “custo zero” e o Dost, que custou 10M€. O resto nunca me chegou a convencer, com excepção do Spalvis que, na altura me pareceu uma boa compra na relação preço/qualidade, e do Campbell e do Castaignos que, apesar de andarem meio perdidos e afastados do sucesso nos últimos 3 anos, acreditava que o Jesus podia dar-lhes o toque que mudasse isso pois reconheço-lhes algum talento e qualidade!

Se o ano passado acabou com alguma frustração, este ano em Janeiro já estávamos frustrados pois ficámos fora da Europa e da luta pelo título em Dezembro, e fora das 2 Taças, da Liga (gamados) e de Portugal, em Janeiro. Ainda que haja razões de queixa da APAF, mais uma vez, desta vez foram muitos erros próprios que estiveram na base de uma época que, no melhor, será similar à época do Marco Silva (76 pontos) que muitos dos seus críticos apontaram como fraca e justificativa do seu
despedimento.

O artigo do João Marcelino no domingo, dia 30 de Abril, onde diz que “o problema do futebol do Sporting esta temporada foram as contratações falhadas e o tempo que Jorge Jesus demorou a tentar justificá-las, e a impô-las sem êxito” é, sem mudar uma vírgula, o que eu penso. Apostou até à exaustão nos gajos que foi buscar deixando de lado a qualidade que tinha em casa que só precisa que apostem neles e lhes dêem tempo. Para mim, que falo nisto desde Outubro com frequência, para se fazer o que se fez esta época, gastaram-se cerca de 30M€ a mais, entre passes, comissões, prémios de assinatura e ordenados. Sinal, para mim evidente, que há falta de planeamento, que há falta de uma ideia e de um rumo. O que há é tentar ganhar para o ano! E havendo dinheiro, gasta-se para ver se ficamos mais perto disso!

O Jesus é muito no treino de campo, é bom técnica e tacticamente. Estraga muito do que é nesses dois aspectos com a personalidade egocêntrica que tem, com o ego inacreditável e foleiro, com as cenas inacreditáveis que diz e com a pouca educação que tem! Os jogadores ficaram lixados com ele no pós-Madrid e uma parte do problema este ano foi os jogadores deixarem de confiar nele, não só por essas declarações como por aquilo que o João Marcelino fala no tal artigo e que fez com que o Jesus perdesse credibilidade junto de muitos jogadores nucleares e não só. A aposta no Elias, no André, no Markovic, no Alan, que nunca deram nada à equipa, que se notava a léguas que não tinham o entendimento do jogo que o Jesus dizia faltar aos miúdos (Iuri, Matheus, Podence,
Geraldes, Palhinha) justificando assim não os utilizar, fê-lo perder o resto da credibilidade que ainda tinha juntos dos jogadores. Os jogadores questionavam as opções do treinador e quando assim é já se sabe que é a coisa fica difícil de gerir! Há desmotivação, e havendo desmotivação não se dá tudo, não se mete o pé da mesma maneira, não se dá aquele extra que muitas vezes faz a diferença. E nem digo que isto fosse consciente. É assim, mesmo inconscientemente! E isso acabou
por hipotecar a época toda muito cedo!

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