Antevisão do Giro de Itália 2017 – As equipas e os corredores (2ª parte)


Da Gazprom, a última equipa abordada na segunda parte desta antevisão, passamos para a Lotto-Soudal.

A equipa belga é no meio deste pelotão um mundo completamente à parte. Sem ter no seu plantel uma figura assumidamente de referência do cenário internacional para as etapas de montanha, a Lotto-Soudal é uma equipa que gosta de capitalizar nas chegadas aos sprints (porque tem efectivamente um dos melhores especialistas da última década e um ciclista capaz tanto de o lançar como de sprintar; Moreno Hofland) e nas grandes clássicas, através dos ciclistas ofensivos que possui no seu rooster (Tony Gallopin, Adam Hansen, Jelle Wallays Jurgen Roelandts, Tosh van der Sand, Lars Bak, Tim Wellens).

Se Andre Greipel tem várias oportunidades para trazer um conjunto interessante de vitórias porque tanto poderá discutir as etapas que terminarão em sprint massivo como as etapas que terminarão em “pequenos muros”, a estratégia da equipa também passará por Adam Hansen, Maxime Monfort e Tomás Marczynski, estes dois últimos, os “melhores” da equipa para a montanha. Marczynski estará de olho numa das estratégias que a equipa belga tem assumido nos últimos anos: a luta pelos prémios da montanha. Já Monfort, um ciclista em claro pico descendente da carreira, já logrou finalizar uma grande volta no top10 (6º na Vuelta de 2011) para além das 6 ocasiões em que terminou grandes voltas (incluindo a Volta à França) no top20. Não sendo expectável que o veterano belga consiga lutar directamente por um top10, não será descabido atribuir-lhe já um lugar entre os 20 primeiros porque os factos das suas participações anteriores no Giro comprovam que ele costuma andar ali sempre por perto dos melhores.

O australiano Adam Hansen será por sua vez o ponta-de-lança para as fugas. Estou convicto que veremos Hansen na frente em 3 ou 4 etapas.

Nairo Man quer a rosa!

O colombiano tem nesta edição do Giro uma fantástica oportunidade para chegar a Milão debaixo de uma ovação triunfal, 3 anos depois de ter conquistado em Itália a primeira e única vitória na geral individual de uma prova de 3 semanas. As subidas ao Monte Etna, a Blockhaus, a Oropa e a etapa que tem o seu fim na estação invernal de ski de Bormio são etapas talhadas para a potência do colombiano na alta montanha.

Sem entrar em detalhes sobre o actual estado de forma do colombiano porque ainda na semana passada venceu a geral da Volta às Astúrias, a Movistar preparou uma team de sonho para o ajudar a alcançar a vitória na prova italiana com as presenças de Andrey Amador, Winner Anacona, Victor de La Parte, José Herrada, Gorka Izaguirre e Rory Sutherland.

Para atacar uma ou outra vitória em etapa (a etapa que termina nas Termas de Luigiane parece-me muito interessante para as características que Rojas veio a adquirir como escudeiro de Valverde nas clássicas das Ardenas) a equipa conta com José Joaquin Rojas e Daniele Bennatti. Ambos poderão vencer nessa etapa que termina com um pequeno muro.

A Orica também joga forte na geral individual com o lançamento de Adam Yates. O ofensivo trepador britânico será um quebra-cabeças de difícil resolução para todos os que se assumam como candidatos na montanha. O único problema reside apenas na equipa: a equipa australiana não leva muita gente capaz de trabalhar e ajudar o seu chefe-de-fila na montanha. Levar apenas Ruben Plaza é algo escasso para um ciclista com as ambições de Yates.

Com um elenco composto muito em torno da possibilidade de virem a ganhar etapas ao sprint com ciclistas como Caleb Ewan, Luka Mezgec, ou até Alex Edmonsson, não resta ninguém para ajudar Yates na alta montanha. O líder da equipa australiana será exposto mas, mesmo exposto, é explosivo como o caraças e se estiver em boa forma vai diabolizar a corrida na alta montanha.

Hora de sair do armário para o campeão nacional de estrada luxemburguês Bob Jungels. Sabemos que Jungels pode ganhar clássicas e pode fechar top7 em qualquer prova por etapas de 3 semanas. Sabemos que Jungels é um ciclista ofensivo que gosta de atacar, até na alta montanha, destemido e despreocupado. Tais características promovem ao ciclista a possibilidade de constantemente retirar pressão às suas prestações. A única coisa que não sabemos é se o jovem Bob Jungels tem capacidade para discutir taco-a-taco com os melhores, ou seja, se é homem para dar o passo em frente de forma a assumir um favoritismo à conquista da geral individual da prova. Esse passo em frente é obviamente acompanhado de pressão.

O luxemburguês não poderá contar com muito apoio por parte da sua equipa. A única excepção dentro dos 9 convocados é Eros Capecchi, ciclista que já fechou dentro dos 25 melhores na Vuelta em 3 ocasiões. Com dois sprinters em ascensão no cenário mundial, a equipa belga Quickstep preparou uma equipa que gira em torno de Fernando Gavíria e de Mauro Richeze. Quer o colombiano quer o argentino serão na minha modesta opinião aqueles que mais poderão irritar André Greipel. Com 4 vitórias, algumas delas importantes na Vuelta a San Juan e no Tirreno-Adriático, Gavíria tomará a dianteira das preferências do trabalho de equipa. Contudo, Richeze será um bom plano B para se intrometer ao barulho nos sprints.

O australiano Nathan Haas é a escolha da equipa sul-africana Dimension Data para liderar a equipa mas a grande aposta da equipa para a geral individual é Igor Anton. Sem ter realizado uma primeira metade de temporada para aí além, se estiver em forma, Anton poderá facilmente lutar por um lugar no top15. Num conjunto trilhado para a aposta em fugas nas etapas de montanha, Omar Fraille e os eritreus Natnael Berhane e Daniel Teklehaimainot poderão discutir abertamente uma ou outra vitória de etapa se as equipas dos favoritos deixarem uma fuga ter sucesso e um deles será claramente aposta da equipa para o prémio da montanha.

O sprinter sul-africano Jense Van Reinsburg é a aposta da equipa africana para as chegadas ao sprint e para o contra-relógio final. O campeão nacional sul-africano ainda não somou qualquer vitória pela equipa no presente ano.

O russo Ilnur Zakarin é a grande aposta da russa Katusha de José Azevedo. O ciclista de 27 anos aparece nesta edição do Giro a crescer ao nível de forma física, num ano em que conseguiu um 2º lugar na Volta a Abu Dhabi e um 6º no Paris-Nice. Poderá lutar o ofensivo all-rounder por um lugar no pódio? Talvez. No ano passado esteve próximo de o conseguir, não fosse aquela queda a 3 dias do fim da prova.

Certo certo é que a equipa russa leva uma data de ciclistas de qualidade para auxiliar o seu chefe-de-fila. Robert Kiserlovski, Viacheslav Kuznetsov, Alberto Losada e Angel Vicioso são homens que podem realizar um “trabalho de sapa” de muita qualidade nas montanhas.

Para as fugas, aposta constante dos russos, à falta da presença do “azarado” Alexander Kristoff nos convocados, o português José Gonçalves e o russo Matvey Mamikin poderão dar uma trabalheira dos diabos ao pelotão se bem que ainda poderemos ter uma surpresa outra se o ciclista natural de Barcelos entrar de vez em quando, como tem sido apanágio da sua carreira, nos sprints finais.

Outro dos candidatos é Steven Kruijswijk. O ciclista holandês da Lotto-Jumbo-NL volta ao local do crime, 1 ano depois de ter estado à beira de levar a vitória na geral individual para casa, não fosse também o facto de ter sofrido uma queda na etapa 19 quando lutava taco-a-taco com Nibali e Esteban Chavez pela maglia Rosa! A neve na estrada na descida do Colle D´Agnello (não está prevista uma passagem por este alto na edição de 2017) quando o holandês seguia um ataque de Nibali e Chavez acabou por ser fatal para as suas aspirações. O ciclista de 28 anos contará com a ajuda de Jurgen Van der Broeck nas etapas de montanha. Aos 34 anos, o veteraníssimo trepador que já fez 7º no Giro na edição de 2008 e 2 pódios no Tour nas edições de 2010 e 2012 é uma ajuda muito valiosa para Kruijswijk. Quem sabe se o próprio Van der Broeck não é em forma um corredor que demonstre ainda capacidade para andar junto dos melhores, 2 anos após ter feito um 12º lugar na prova italiana.

Não existindo mais homens capazes de ajudar o chefe-de-fila nas suas pretensões, a Lotto-Jumbo-NL tem, porém, gente muito capaz nas suas fileiras para arriscar vitórias em etapas. Stef Clements e Victor Campanaerts são ciclistas muito respeitáveis no contra-relógio e Enrico Battaglin é um candidato muito sério a 2 etapas que se irão disputar logo na primeira semana.

Mikel Landa Meana é definitivamente a grande incógnita desta prova. O ciclista basco de 27 anos tem vindo a subir de forma nas últimas semanas (5ª na geral do Tour of the Alps, tendo inclusive atacado na etapa rainha dessa prova numa etapa que foi ganha por Geraint Thomas) mas o seu estado de forma ainda é motivo de alguma desconfiança. Terá o corredor capacidade para brilhar na alta montanha ou terá a Sky de voltar a confiar a liderança a Geraint Thomas a meio da prova, colocando Landa a trabalhar para os objectivos que o galês possa vir a desenhar ao longo da prova?

É que o galês nascido há 30 anos em Cardiff tem vindo a desenhar uma fabulosa temporada nas provas de 1 semana que tem realizado nos últimos meses. Vencedor da geral e de uma etapa no Tour of the Alps, vencedor de uma etapa com um final muito complicado no Tirreno-Adriático, prova onde arrancou um fantástico e saboroso 5º lugar, o braço direito de Chris Froome poderá não ter que obedecer a Landa ao longo da corrida.

Para a prova italiana, a equipa Sky leva o seu habitual dispositivo de combate com Kenny Elissonde, Vasili Kyrienka, Phillip Deignan, Sebastian Henao, Michal Golas, Salvatore Puccio e Diego Rosa. Este último, Diego Rosa, também andará sempre perto da frente na alta montanha. Não sendo de todo aposta da Sky para o quer que seja, o ciclista italiano de 28 anos funcionará como uma espécie de “provocador” nas etapas de montanha, ou seja, um ciclista capaz de promover ataques para obrigar ao desgaste das equipas adversárias e\ou para fazer aumentar o ritmo na frente da corrida nas etapas de montanha. Geraint Thomas “adora” esse preciso trabalho que o seu colega de equipa consegue realizar.

O galhardo ciclista holandês volta à prova onde na edição de 2016 liderou durante 6 etapas (venceu o prólogo em Apeldoorn, sendo desalojado da 1ª posição da geral individual na 3ª e 8ª etapa) antes de abandonar na 11ª etapa. O chefe-de-fila da Sunweb é uma caixinha de surpresas. Há 3 anos atrás ninguém lhe dava muito crédito para além da sua especialidade, o contra-relógio.

O que é certo é que a partir de 2014, o ciclista começou a jogar na média montanha se nada se tivesse dito sobre a sua incapacidade para se tornar num bom corredor de montanha. Desde então, para além de um 6º lugar na Vuelta de 2015 (que liderou até bem perto do final), apesar de não ter ganho qualquer prova, Dumoulin já fez top 10 em várias provas compostas essencialmente por etapas de média e alta montanha como a Volta à Suiça, a Volta à Romândia e Tirreno-Adriático. Sendo um ciclista ofensivo (gosta imenso de atacar), Dumoulin (medalhado de bronze na prova de contra-relógio do Rio 2016) é um daqueles que nem precisa de atacar na montanha para ganhar a geral individual de qualquer prova. Se o holandês se puder defender bem na montanha não perdendo tempo para os restantes, pode fazer as diferenças no contra-relógio. Porém, o ciclista de 26 anos nascido em Maastricht ainda é algo irregular nas provas de 3 semanas. Nas 7 edições em que participou nas grandes voltas, desistiu em 4 ocasiões.

Para além de Dumoulin, a Sunweb traz na sua algibeira mais dois nomes fortes para a geral individual. Wilco Kelderman (7º em 2014) provou na Romândia que está em forma para atacar um top10 e Laurens Ten Dam é, apesar do facto de estar a passar por um ocaso na sua carreira após ter fechado no top 10 da Vuelta 2013 e do Tour 2014, um nome sempre a ter em conta para a montanha.

A viver um novo período na sua carreira após a chegada de Alberto Contador à Trek, Bauke Mollema tem que aproveitar a oportunidade que a equipa lhe está a dar para tentar eventualmente sair da sombra de El Pistolero. Com bons resultados na presente temporada (Vencedor da geral individual do Tour de San Juan, 4º na Volta a Abu Dhabi e 9º no Tirreno-Adriático) o ciclista holandês de 30 anos atinge neste Giro a sua maioridade no ciclismo. Sem Contador por perto (no Tour terá provavelmente que se prestar a gregário de luxo de El Pistolero) o holandês tem um ou dois elementos nos 9 convocados que podem realizar um óptimo trabalho em prol dos seus objectivos. Jesus Hernandez, Julien Bernard e Peter Stetina são 3 corredores capazes de endurecer a corrida de maneira a promover ataques do seu líder.

O italiano Giácomo Nizzolo é a grande aposta da Trek para os sprints finais. Nizzolo é na minha opinião aquele que mais poderá ameaçar o reinado de Greipel nas chegadas ao sprint. Candidato ao prémio por pontos da prova.

Bem escondido para tentar garantir uma etapa está Jasper Stuyven. O puncheur belga vai aparecer em várias etapas.

Para não me repetir na análise, tratarei de saltar a UAE de Rui Costa, equipa cuja composição já fiz questão de analisar num post publicado na semana passada. 

Chegamos por fim à Wilier Triestina-Selle Italia de Filippo Pozzatto. O que é poderemos dizer sobre o elenco desta equipa de UCI Pro Continental que recebeu um wild card da organização do Giro devido ao facto de ter vários ciclistas italianos na sua formação (a licença da equipa está registada no Reino Unido) em detrimento da participação de equipas bem mais apetrechadas como a Cofidis, a Androni, a Direct Energie ou a Wanty? Pouco ou nada para além da presença do icónico Fillippo Pozzato, ciclista que é no fundo mais parra do que uva.

Pozzatto tornou-se um ícone devido à sua vitória na Milão São-Remo em 2006 e aos segundos lugares que alcançou por duas vezes no Paris-Roubaix. Tirando isso, uma vitória na geral do Tirreno-Adriático e uma vitória no Giro, Pippo Pozzatto tem mãos cheias de vitórias em corridas de menor prestígio e uma carreira sucessivamente manchada pela sua participação directa em escândalos relacionados com o dopping. Em 2012 o ciclista foi condenado a 3 meses de suspensão devido ao facto do ciclista ter trabalhado directamente com o Dr. Doping Michele Ferrari.

Voltando à Selle Itália, a equipa sabe perfeitamente que poderá lutar no máximo por uma vitória em etapa, sendo este objectivo, algo profundamente irrealista num cenário minimamente normal de corrida.

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