Ainda sobre a questão da introdução do videoárbitro


Um dos principais celeumas discutidos nos últimos dias nos programas de comentário desportivo, nas redes sociais e na blogosfera relativamente à introdução da figura do videoárbitro na liga 2017\2018 prende-se com a passível existência de situações-limite de carácter ambíguo que terão de ser analisadas pelo videoárbitro com recurso à repetição de imagem. O exemplo que tem sido utilizado por todos aqueles que duvidam do sucesso desta tecnologia assemelha-se a este:
A equipa A está a atacar. Um dos seus jogadores, perde a Bola para a equipa B num lance em que existe uma irregularidade na recuperação do esférico que não é assinalada pelo árbitro. A equipa B contra-ataca e vê um dos seus jogadores sofrer uma carga na área adversária que o impossibilita de tirar vantagem sobre um adversário na sua acção. O árbitro não assinala qualquer irregularidade, de resto, passível de marcação de grande penalidade e exibição de cartão ao jogador infractor. A equipa A recupera a bola, inicia um contra-ataque e marca um golo numa jogada sem qualquer irregularidade.

Contudo, 2 minutos antes da primeira acção irregular (irregularidade na acção de recuperação da bola pela equipa B), a mesma equipa B queixa-se de uma falta a meio-campo.

Perante este exemplo, as perguntas que se impõem são as seguintes: que lances é que deverão ser analisados pelo VA e que decisão é que este deve tomar? Na análise de uma situação de golo manchada por várias irregularidades cometidas por jogadores de ambas as equipas, o vídeoárbitro poderá puxar as imagens até onde para decidir? As opções podem ser lançadas para a resolução deste lance podem ser 5  mas só uma é que está correcta. Qualquer pessoa que perceba minimamente de lógica, conseguirá resolver rapidamente esta questão.

1- O VA recua as imagens e assinala a falta que ficou por assinalar a meio-campo a favor da equipa B.

2 – O VA valida o golo porque a equipa A no fundo não sofreu qualquer prejuízo com a primeira acção (perda de bola com recurso a uma acção irregular) visto que no fim da sequência de jogadas até conseguiu marcar um golo.

2- A equipa B tem direito a marcar a grande penalidade a seguir à validação do golo da equipa A.

3- Recomeça-se o jogo naturalmente com a marcação de uma falta a favor da equipa A, assinalando a primeira de todas as irregularidades na sequência de lances.

4- O videoárbitro anula o golo e recomenda ao árbitro principal a marcação da grande penalidade a favor da equipa B.

Em primeiro lugar, este tipo de exemplos criativos servem essencialmente os propósitos daqueles que querem desde cedo tapar o sol com a peneira, ou como quem diz, justificar eventuais erros que venham a ser cometidos pelos assistentes de vídeo para tentar descredibilizar o sistema, porque o sistema não serve os seus interesses. A criação de complexos exemplos que no máximo acontecerão num jogo a cada 10 mil, serve exclusivamente para que alguns possam lançar no imediato uma cortina de fumo.

O sistema não foi criado para que o VA ande de lupa em punho a analisar lance a lance. Se o VA passar 90 minutos a analisar lance a lance, teremos jogos com a duração de 8 horas e as 24 horas de um dia não chegarão para que os Pedro Guerras desta vida possam analisar os casos de “videoarbitragem” dos jogos dos 3 grandes.

A figura do VA serve essencialmente para auxiliar o árbitro nos lances que possam ter influência no desfecho final das partidas, ou seja, lances em que a bola possa ou não ter transposto a linha de golo, lances passíveis de marcação de grande penalidade, lances mal anulados em situações de dúvida em relação à existência ou não de fora de jogo (desde que o jogo não pare; se o jogo parar, não existe solução possível que não a de recomeçar com uma bola ao solo) e lances em que o árbitro tenha duvida entre a aplicação de uma sanção disciplinar leve ao jogador (cartão amarelo) e a aplicação de uma sanção disciplinar mais dura (cartão vermelho). Exclusivamente. No entanto, a figura do VA não anula de forma alguma a competência que todos os árbitros devem ter dentro das 4 linhas. Estou certo que a figura não substitui de todo a figura principal do árbitro, devendo a a actuação deste continuar a ser pautada pelo rigor na análise.

O que se tem de definir obrigatoriamente é a quantidade de jogadas a que o VA pode recorrer para realizar a sua análise. O Rugby explica: por norma, no rugby, quando é chamado a intervir, o VA só pode fazer recuar as imagens para efeitos de decisão sobre uma jogada até duas fases antes da fase de obtenção do ensaio. Por fase entende-se na modalidade uma situação em que um jogador é derrubado por uma placagem e a equipa é obrigada a ter que montar um ruck para que a bola seja transmitida. Logo, transpondo este exemplo para o futebol, será nítido que o VA só possa analisar a jogada até ao momento de um início lógico da sequência que redundou na obtenção de um proveito de forma irregular. No exemplo citado, não será lógico obrigar o VA a ter que rebobinar uma infracção que aconteceu 3 minutos antes daquela que marca o início da lógica sequencial que terminou na obtenção de um golo. Pede-se portanto que o VA possa separar o jogo por contextos.

Quero com isto dizer que a FPF deverá rapidamente assentar os critérios pelos quais se deverão guiar os árbitros, estabelecendo um “momento exacto” até ao qual eles poderão ir para realizar a sua análise.

Noutro prisma, temo, e temo mesmo muito que a aplicação da medida em Portugal seja gorada por outros aspectos que não o intervalo temporal até onde poderá ir o VA para fundamentar a sua decisão. Temo que sejamos obrigados a ver decisões enviesadas por clubite com o habitual recurso a interpretações extensivas ou restritivas das leis do jogo. Temo até que 10 brilhantes monitores não sejam capazes de levar um VA a analisar correctamente um facto. Temo que se inventem desculpas esfarrapadas para justificar decisão x ou decisão y com base em relatórios de observação falseados como foi o célebre caso recente da análise alegadamente feita pelo CA da UEFA à actuação de Jorge Sousa no Benfica vs Sporting. Temo a eventualidade de virmos a ter decisões alteradas pelo VA por discordância em relação aos critérios de interpretação utilizados pelos árbitros principais num julgamento de um ou vários lances, aplicando uma errónea e propositada sobreposição de critérios sobre estes. Nessas situações poderemos ver os árbitros principais a ser naturalmente induzidos em erro por alguém em quem obviamente vão confiar no momento pela superioridade de recursos disponíveis para realizar uma análise mais assertiva.

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