Giro de Itália – 4ª etapa – A diabólica etapa que Jan Polanc venceu no Monte Etna


No regresso à estrada após o primeiro dia de descanso na prova na segunda-feira, numa etapa decorrida em solo continental na Sicília, a UAE de Rui Costa concretizou o seu principal objectivo na prova: a vitória numa etapa. E que etapa! Na primeira grande abordagem à alta montanha, o esloveno Jan Polanc chegou isolado ao alto do Monte Etna, coroando com êxito o enorme esforço tomado durante vários quilómetros numa fuga.

Numa etapa diabólica em que houve um bocado de tudo (uma fuga bem sucedida, ataques dos favoritos à geral na parte final da etapa, um engano no percurso por parte de alguns ciclistas que veio a originar quedas na parte final, abandonos a meio da etapa, furos entre alguns dos principais contenders, a expulsão de Javier Moreno Bazan da Katusha por agressão a um ciclista da Sky) o esloveno teve que cerrar os dentes para preservar os 6 minutos adquiridos sobre o pelotão na passagem pela subida à Porta Della Femma Morta (a sensivelmente 60 km do fim da tirada) na subida ao flanco lateral do Monte Etna, no dia em que a camisola rosa passou de mãos entre ciclistas da mesma equipa. O sprinter Fernando Gaviria entregou a liderança da prova ao seu chefe-de-fila Bob Jungels.

Um dia de sonho para Jan Polanc

A UAE escolheu a primeira etapa de alta montanha para fazer avançar a sua primeira unidade em fuga. O escolhido do director desportivo da turma emir acabou por ser o jovem esloveno de 25 anos Jan Polanc, ciclista que ainda há bem pouco tempo conseguiu fechar a Volta a Croácia na 3ª posição, dando alguma réplica a Vincenzo Nibali na prova croata. Juntamente com o ciclista esloveno saíram nomes menores de várias equipas: Pavel Brutt da Gazprom (um repetente em fugas na presente edição), Van Rensburg (Dimension Data) e Eugenio Alafaci da Trek. A passagem pela contagem de montanha de 1ª categoria na Porta della Ferma Morta, num terreno globalmente acentuado, acabaria por fazer uma selecção natural quer no grupo dos fugitivos, quer no grupo do pelotão. Polanc acabaria por ficar sozinho à entrada para a subida final (Monte Etna – 18 km de extensão a uma percentagem média de 10%) com um tempo relativamente confortável para o pelotão (cerca de 4 minutos e meio) comandado essencialmente pela Quickstep do líder Fernando Gavíria (viria a descolar do pelotão apenas na entrada para a subida final) e pela Bahrein-Mérida de Vincenzo Nibali.

Uma etapa de incidências

A etapa começou com o conhecimento do abandono de Angel Vicioso da Katusha. O espanhol não conseguiu recuperar durante o dia de descanso de uma queda tida na véspera na chegada a Cagliari, deixando portanto de ser opção para o seu líder Ilnur Zakarin, ciclista que era à partida para a etapa de hoje, o contender com mais tempo acumulado na geral (43 segundos para a liderança).

Com o desenrolar da etapa, outras incidências vieram a acontecer. Ainda antes de chegar ao Mont Etna, quando o pelotão ainda vivia debaixo de alguma tranquilidade (a bom da verdade ninguém se preocupou muito em anular a fuga porque quase todas as equipas acreditavam que o esforço de subida de quem viesse a empregar esforços na ascensão final chegaria para anular o grupo de fugitivos) um engano de dois ciclistas no percurso, um dos quais Fernando Gaviria, haveria de provocar uma queda no pelotão onde tombariam Ilnur Zakarin (mais uma vez; o russo escapou novamente sem sequelas físicas) e Jeremy Roy da Française des Jeux. Este não seria o único contratempo verificado. Um pouco mais à frente na etapa, aquando de uma passagem a alta velocidade pelo paralelo de uma localidade, altura em que a Bahrein-Mérida quis dar um claro safanão na velocidade a que percorria o pelotão, um dos principais gregários de Vincenzo Nibali (Javier Moreno Bazan) haveria de dar um “chega para lá” seguido de uma cuspidela a Diego Rosa da Sky, atitude que obrigou os comissários de corrida a terem que dar ordem de expulsão da prova ao ciclista espanhol.

Um enorme sacrifício para chegar ao flanco do vulcão

Logo na entrada para a inclinação final, Jan Polanc conseguiu livrar-se de Van Rensburg. O pelotão também subiu o seu pace no início da subida, recuperando largos segundos ao esloveno a cada km que era ultrapassado. Assim que instalados na subida, o grupo com 7o unidades começou a ver as primeiras movimentações. O primeiro a movimentar-se foi o veterano Paolo Tiralongo. Conhecedor do terreno visto que treina regularmente na região, o veterano italiano de 39 anos da Astana tentou procurar a sua 4ª vitória no Giro. Seria apanhado poucos metros adiante.

Logo que Tiralongo foi neutralizado, Pierre Rolland (seguido de Pello Bilbao da Astana) da Cannondale tornou o assunto mais sério com um ataque que colocou várias unidades em sentido. O francês ainda chegou a ter 40″ de vantagem sobre o grupo principal, colocando-se numa posição privilegiada (a sensivelmente 2:10) para atacar a “liderança” de Polanc na etapa caso o esloveno viesse a quebrar nos minutos finais. Ao mesmo tempo, no grupo dos favoritos, Tejay Van Garderen passou por alguns problemas mecânicos relacionados com a mudança de desmultiplicação da sua pedaleira e Mikel Landa furou, sendo imediatamente ajudado na sua recolocação no grupo principal por Sebastien Henao.

O azar de Landa motivou imediatamente algumas movimentações por parte das equipas dos candidatos. Subitamente, a Française des Jeux fez chegar 4 homens à frente da corrida para aumentar a velocidade de forma a dificultar a vida ao “co” chefe-de-fila da Sky. Como os franceses não conseguiram colocar um ritmo forte, a Bahrein tratou de tentar colocar as equipas dos principais favoritos a mexer-se com um ataque surpresa do principal escudeiro de Nibali, nada mais nada menos que Franco Pelizzoti. Revelando uma marcação colectiva e individual muito forte ao longo da subida final, a Movistar respondeu imediatamente ao ataque de Pelizzoti com o gregário de luxo de Nairo Quintana, o colombiano Winner Anacona.

Aqui e ali começava portanto a funcionar o jogo das marcações cerradas e aquele ziguezaguear estranho entre os candidatos, sinal evidente de que um ataque importante poderá estar iminente. Nibali e Quintana saiam paulatinamente do enfileiramento habitual para espreitar para trás à procura de ver se Landa já tinha entrado e qual o estado de esforço de um ou de outro ciclista. Bem atento, na roda de Nairo Quintana seguia o nosso português Rui Costa. Com uma enorme cara de esforço, o Rui bem tentou chegar lá cima junto dos melhores e só não chegou porque…

Nibali esticou assim que Kanstantin Siutsou, o último homem que a Bahrein dispunha para trabalhar, arrumou para o lado. O semi ataque realizado pelo Rei de Messina, ciclista que ontem correu no seu território, visou essencialmente mostrar à concorrência que está bem (e parece estar mesmo a ultrapassar um excelente momento de forma!) e testar as pernas dos restantes candidatos. Ninguém ousou responder directamente ao seu ataque mas, com algum esforço, tanto a Orica como a Movistar trataram de fechar os pequenos metros que o italiano ganhou num curto espaço de tempo.

Mais ataques viriam a surgir na parte final. Com olhos no prémio de montanha de 1ª categoria que estava estacionado à passagem para o último km e quiçá até na vitória na etapa visto que Polanc não andava muito longe (1 minuto e 15) e estava a quebrar desde a passagem pelo insuflável que assinalava os 5 km para a meta, o dinamarquês Jasper Hansen (Astana; a equipa casaque esteve efectivamente muito interventiva na etapa de ontem), o espanhol Igor Anton da Dimension Data e Ilnur Zakarin tentaram sair do grupo dos favoritos. O grupo estava nesta altura reduzido a talvez 25 unidades, não contando nesta fase com a presença de Rui Costa. O português não ia de resto muito longe, acabando por perder pouco tempo (cerca de 1 minuto) na chegada ao Monte Etna. Zakarin haveria de ser o único que conseguiria ganhar tempo a toda a gente, conquistando 16 (10 na estrada mais 6 de bónus pelo 2º lugar na tirada) segundos que amenizaram as perdas obtidas nas etapas anteriores.

Classificação Geral

Em virtude da natural rendição de Gaviria na subida final (o colombiano ainda aguentou muito na frente para bonificar num dos sprints intermédios colocados entre a Femma Morta e o Monte Etna, marcando pontos para a classificação que realmente lhe interessa, a da regularidade\por pontos) e do facto de não se terem estabelecido diferenças de maior entre os favoritos, os 10 segundos acumulados por Bob Jungels na chegada a Cagliari permitiram ao ciclista luxemburguês ascender à liderança da prova. Geraint Thomas acabaria por ganhar 4 segundos a toda a gente visto que bonificou ao fechar na 3ª posição.

Embora não se tenham registado diferenças significativas entre os candidatos, a tabela da geral individual ficou mais arejada. As unidades estão agora dispostas nas suas posições de ataque à liderança da prova. As perdas sofridas na etapa por Rui Costa até acabaram por ser positivas porque o português passou com alguma distinção o primeiro teste num terreno que não é a sua especialidade. Creio que o nosso ídolo poderá crescer muito na prova daqui em diante.

Outras classificações

Pontos\Regularidade – André Greipel mantém a camisola na sua posse, mantendo os mesmos pontos de diferença em relação a Daniel Teklehaimanot numa classificação em que Fernando Gaviria marcou pontos num sprint intermédio.

Montanha – Em virtude dos pontos acumulados na etapa com uma passagem na 2ª posição e outra na 1ª nos prémios de 2ª e 1ª categoria, Jan Polanc ascendeu à liderança desta classificação. Daniel Teklehaimanot desistiu bem cedo da etapa. Polanc tem agora 43 pontos, mais 19 que Teklehaimanot e mais 25 que Ilnur Zakarin. É de esperar portanto que o esloveno possa lutar por esta camisola, sabendo de antemão que o eritreu irá aparecer numa ou noutra etapa envolvido numa fuga para acumular pontos em todas as contagens. Igor Anton (Dimension Data) e Jesper Hansen (Astana) também deram a impressão durante a etapa que pretendem lutar por esta categoria.

sprints bonificados – O russo Pavel Brutt (Gazprom) venceu os dois sprints bonificados do dia. O ciclista da Gazprom parece muito interessado em levar esta classificação para casa. Com 20 pontos alcançados durante a etapa, aproximou-se de Daniel Teklehaimanot, ficando agora a 8 pontos do eritreu.

Combatividade – Os 19 pontos somados por Jan Polanc também o aproximaram da liderança de Teklehaimanot (22). Com 17 pontos somados, Pavel Brutt também espreita a liderança do ciclista africano da Dimension Data.

Prémio da Juventude – Bob Jungels lidera o prémio destinado aos ciclistas com idade inferior a 26 anos. O campeão nacional luxemburguês tem 10 segundos de vantagem sobre Adam Yates (Orica) e Davide Formolo (Cannondale). A quase 1 minuto (58s) aparece Jan Polanc. Creio que esta categoria será discutida taco-a-taco pelo trio da frente. Não estou a ver o esloveno com capacidades para se intrometer nesta luta.

Geral por equipas – A Cannondale ascendeu à liderança. A equipa Norte-Americana tem agora 7 segundos de vantagem sobre a UAE e 36 sobre a Movistar.

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