Conte, um Treinador com T grande


Com o título inglês obtido na noite de hoje, estou em crer que Antonio Conte solidificou finalmente a sua posição como um dos melhores treinadores do panorama mundial, faltando-lhe apenas neste momento uma conquista europeia, patamar que deverá decerto ser marcado como o grande objectivo do treinador do Chelsea para as próximas temporadas. No espaço de 8 anos, Conte saltou de uma vitória na Série B italiana com o Bari para a conquista do seu “4º título nacional”, vencendo o primeiro título fora de portas e, fora do espartilho de superioridade em que se encontra desde há vários anos a esta parte a Juventus no cenário italiano. Se os 3 títulos alcançados com a Juve se explicaram em parte pela superioridade de plantel dos bianconeri em relação aos restantes planteis das equipas da série A, o título inglês foi diferente porque revelou um treinador capaz de triunfar num cenário caótico com recurso a ideias muito bem cimentadas que se podem facilmente explicar em vários pontos:
Um sistema táctico e uma identidade muito bem cultivada. Capacidade metodológica de fazer operar um sistema em qualquer plantel.

Muitos são os treinadores que só gostam ou só querem fazer jogar as suas equipas no sistema táctico da sua preferência. Uns, apercebem-se facilmente no estudo prévio da matéria-prima de que irão dispor ao longo da época que o sistema preferencial poderá ser rapidamente operacionalizado. Vários são os treinadores que obrigam os seus dirigentes a trazer uma fornada de jogadores para operacionalizar o sistema que querem ver operacionalizado, porque a matéria-prima que dispõem não é suficiente para conseguir satisfazer o objectivo. Outros fazem-no porque são teimosos ou porque efectivamente são muito curtinhos de ideias ao nível da metodologia de treino, não sabendo operacionalizar uma equipa ao nível de processos noutro sistema de jogo. Por outro lado, muitos outros são mais moldáveis, mudando o sistema táctico utilizado consoante as características dos planteis que lhe são oferecidos.

Não posso de forma alguma criticar aquele que só gosta de utilizar um sistema táctico preferencial se esse sistema der frutos em determinada(s) equipa (s) assim como também não poderei de forma alguma criticar aquele treinador que se molda à matéria-prima que lhe é oferecida porque revelam acima de tudo que são treinadores que militam em patamares de aprendizagem metodológica muito superiores, podendo efectivamente pegar em qualquer plantel, desde o “mais rico” até ao mais pobre ou escasso de recursos – treinadores capazes de operacionalizar equipas em vários sistemas tácticos conseguem quase sempre transformar o que é mau em bom, o que é sofrível em remediado, o que é remediado em bom. Criticáveis são aqueles que se mantém arreigados a um determinado sistema por teimosia bem como aqueles que não evoluíram ao nível de metodologia de treino ou não conseguiram aperceber-se atempadamente das evoluções constantes de uma modalidade que estará sempre em constante mutação.

Desde o primeiro minuto no clube, Conte sabia perfeitamente o que fazer com este Chelsea. Sabia qual era o sistema táctico com que iria trabalhar (3x4x3) quais os jogadores com quem iria operacionalizar esse sistema, os processos ofensivos e defensivos que deveriam ser trabalhados até à exaustão, nunca abandonando em momento algum a identidade de jogo da equipa. Pode-se dizer que o italiano nunca teve um plano B porque nunca acreditou que o seu plano A fosse mal sucedido. O Chelsea da 1ª Jornada acabou a ser o Chelsea da 37ª jornada. Os processos (bem trabalhados) foram ligeiramente modificados em relação às nuances apresentadas noutros rosários (na Juventus, por exemplo) mas o italiano cometeu a proeza de adequar um conjunto de jogadores aos seus processos e nunca o contrário, facto que permitiu que vários jogadores (Pedro, Matic, o próprio Kanté, Diego Costa, César Azpilicueta, Victor Moses, Marcos Alonso, Nathan Aké, David Luiz, Cesc Fabrègas) crescessem ainda mais como jogadores ao longo desta temporada. 

Para o corroborar basta só dizer que nunca se viu um Eden Hazard tão virtuoso do ponto de vista das suas acções individuais sem abdicar de colocar essas mesmas acções ao serviço do colectivo, funcionando como uma individualidade ao serviço do colectivo.
Nunca se viu um Nemanja Matic tão empenhado no esforço ofensivo de uma equipa.
Nunca se viu uma temporada tão prodigiosa de Victor Moses, ainda para mais numa posição que resulta de uma adaptação promovida pelo treinador italiano.
Nunca se viu (e eu acompanhei durante bastantes anos este jogador no seu percurso na Fiorentina) um Marcos Alonso tão desequilibrador e tão finalizador.

E isso resultou em certa medida de processos de jogo bem trabalhados em muito pouco tempo, como:

– 3 centrais bem abertos, o que facilita imediatamente a colocação de bola no meio campo. Queimar as primeiras linhas de pressão dos adversários é assim, uma tarefa bastante fácil.
– extremos sempre projectados numa primeira fase procurando ganhar as costas dos laterais adversários. Numa 2ª fase, em ataque organizado, os centrais que defendem pelas alas sobem no terreno ajudando a criar superioridade numérica através da oferta de uma linha de passe interior. Sempre a bola entra no médio organizador (Fabrègas, por exemplo; mais Matic do que Kanté, um jogador mais vocacionado para queimar linhas com a bola quando não existem soluções imediatas e seguras de passe) este procura imediatamente lançar os alas, o que garante lateralidade e profundidade imediata à equipa Se não conseguir…

– Tem sempre os apoios frontais oferecidos pelo trio de ataque… Estes apoios frontais bem como a troca de bolas entre um avançado que sabe segurar bem a bola (Diego Costa) e dois criativos que actuam sempre muito próximos desse mesmo avançado foram uma constante ao longo da temporada.

– Passes diagonais para a entrada de jogadores nas costas da defesa.
– Uso e abuso do remate de meia distância.
– Dois criativos que pendem imenso para as alas, tentando dar profundidade aos alas quando estes tem o seu marcador directo pela frente e não conseguem dar progressão ao jogo. Em muitos jogos vimos Eden Hazard a fazer movimentos em diagonal do centro para a esquerda de forma a ceder imediatamente linha de passe a Marcos Alonso de maneira a ganhar a linha e servir bem as entradas de Diego Costa ou a entrada de um colega à entrada da área para rematar.

– Defesa individual quando a equipa pressiona em terrenos adiantados, obrigando os jogadores contrários a jogar para as alas, zona do terreno em que a pressão alta se intensifica porque os alas de Conte saem imediatamente para pressionar os laterais contrários, deixando os alas com os centrais que tem a missão de defender os corredores (Azpilicueta, Cahill).
– Médios bem subidos no contra-pressing numa primeira fase para tentar imediatamente capitalizar qualquer erro dos laterais “se tentarem jogar a bola para o miolo”, de forma a cortar imediatamente qualquer esforço adversário que vise imediatamente colocar profundidade no seu jogo.
– Se o contra-pressing não resultar, a equipa recua imediatamente linhas e reorganiza-se num bloco baixo bem orientado numa sistema de defesa à zona, extremamente pressionante no qual a equipa assume imediatamente 2 linhas: uma de 5 elementos (alas baixam funcionando como laterais, centrais que jogam nas alas ajudam imediatamente David Luiz no meio, criando superioridade numérica na área), ajudam imediatamente a fechar os corredores e pressionam no osso a equipa contrária até recuperarem a bola.

 Um conjunto de contratações cirúrgicas 

Depois de um annus horribilis com José Mourinho, temporada em que o clube foi abalado por um conjunto de escândalos iniciado com o estado de sítio armado pelo técnico português com a fisioterapeuta Eva Carneiro, incidente que viria a ferir de morte toda uma temporada, seria de esperar que Roman Abrahamovic abrisse a sua generosa bolsa ao novo treinador para contratar à la carte, garantindo-lhe todas as condições para formar um plantel rico em soluções. Não posso de maneira alguma afirmar que Conte gastou pouco nas 5 contratações cirúrgicas que fez chegar a Stamford Bridge, mas posso afirmar que os 132 milhões gastos pelo treinador italiano no verão de 2016 foram provavelmente os mais bem gastos da história dos Blues.

O técnico italiano acertou em todas as contratações se excluirmos, por motivos óbvios, a de Eduardo, um guarda-redes que no fundo só serve para dar uma ajuda nos treinos.

Marcos Alonso conseguiu colmatar uma falha que era verificada na equipa desde há uns anos a esta parte, não obstante as contratações de Filipe Luis e Baba Rahman por parte de José Mourinho. O espanhol provou ser uma contratação de excelência porque era um jogador que já alinhava na Fiorentina numa identidade de jogo muito próxima daquela que Conte veio a aplicar no Chelsea.

Ngolo Kanté – o panzer que enche o terreno, pedra basilar no equilíbrio e até na mecânica ofensiva deste Chelsea.

Discursos marcados pela necessidade de incutir “mais” exigência nos jogadores – o caso de Ngolo Kanté

Ao longo de vários meses, Conte pediu a Kanté que pudesse melhorar jogo após jogo, chegando a criticar abertamente o jogador quando ele falhou 5 passes na vitória do Chelsea frente ao West Ham. Vejamos estes 3 vídeos:

1 – Aqui, na pré temporada.

2- Em Março, quando o francês já era a pedra basilar da equipa.

3 – Há duas semanas atrás, quando já tinha sido atribuído ao francês o Prémio de Player of the Year

Se Conte cultiva esta autêntica cultura de exigência com jogadores cujo rendimento roça a perfeição, imaginemos então o que é que o italiano deverá dizer aos\sobre os jogadores que não estão a ter um rendimento minimamente coadunante com as expectativas formuladas.

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