Giro de Itália – Etapa 9 – Nairo Quintana vence no Blockhaus numa lição estratégica da Movistar


Blockhaus – termo designado pelos soldados americanos e britânicos para caracterizar o bloco de gelo presente numa das montanhas do maçiço da Majella (região de Pescara) aquando da invasão à fascista Itália de Mussolini na 2ª guerra mundial. 14 km de subida a uma pendente média de 10% nos primeiros 10 km de subida e rampas de 14% dos 5 km finais. O espectáculo estava garantido para esta tarde bem como a possibilidade dos principais favoritos à gerais começarem a trilhar as primeiras diferenças entre si.

A Movistar pegou de estaca na corrida e nunca mais a largou, oferecendo a Nairo Quintana uma oportunidade de ouro para dinamitar toda a concorrência, incluindo Vincenzo Nibali, numa subida final que ficou marcada pela negativa pela queda sofrida por um grupo de corredores que incluía Geraint Thomas e Mikel Landa da Sky e Adam Yates da Orica logo no início da subida devido ao mau posicionamento na estrada de uma mota da polícia.

O colombiano pregou-nos um grande bluff quando afirmou, no final da subida que terminaria no colo do Monte Etna, “que não estava a 100%”  – 5 dias volvidos eis que nos brinda com uma exibição de altíssimo nível na montanha, conquistando a sua 3ª etapa no Giro.
Uma fuga que não ofereceu qualquer perigo.

Como costuma ser habitual desde há uns anos a esta na parte nas etapas de alta montanha das grandes provas, foram vários os ciclistas que se fizeram à estrada nos primeiros quilómetros para tentar a sua sorte. Na 9ª etapa, tirada de 149 km de extensão que terminava na difícil ascensão ao Blockhaus, Alexey Tstatevich (Gazprom), Mads Pedersen (Trek), Marco Marcato (UAE Team Emirates), Omar Fraile (Dimension Data), Jan Tratnik (CCC Polsat), Matteo Montaguti (AG2R La Mondiale), Luis Leon Sanchez (Astana), Matteo Busato (Selle Italia) and Iljo Keisse da Quickstep foram aqueles que se aventuraram. Nenhum destes punha em causa a liderança de Bob Jungels.

Com a fuga totalmente anulada a 25 km da meta (11 km do início da subida para o Blockhaus) em virtude do trabalho que toda a equipa Movistar vinha a fazer na dianteira do pelotão em benefício das aspirações do seu líder, a etapa estava lançada. Bem posicionadas, a Sky de Thomas e Landa, a Lotto-Jumbo de Kruiswijk, a Bahrain-Mérida de Nibali e a FJD de Pinot secundavam a formação espanhola de forma a precaverem uma eventual mudança de ritmo logo no início da escalada.

Uma estupidez patrocinada pela organização que ceifou o trabalho e as aspirações de 3 ciclistas e de 2 equipas

Logo no início da subida para Blockhaus, deu-se um incidente marcante que ajudou a clarificar a parte final da etapa. Quando os ciclistas se preparavam para colocar outro andamento, eis que um motard da polícia italiana, decide, numa estrada bastante estreita, estacionar a sua mota em plena faixa. Na frente do pelotão, um ciclista da Sunweb não consegue evitar o choque com o motard e arrasta 20 unidades consigo. Nessas 20 unidades, acabam por cair 3 chefes-de-fila, os dois da Sky e o da Orica. Landa, Thomas e Yates ainda conseguem prosseguir. O espanhol até é mais rápido que o seu colega galês a levantar-se do solo e a prosseguir a etapa. O galês contorce-se no chão com dores no ombro enquanto é assistido pela equipa médica da prova. Lentamente consegue-se levantar e até faz, até aos 3 km finais, em conjunto com o seu colega de equipa Diego Rosa uma subida similar aquela que estava a ser realizada mais à frente por Nairo Quintana, baqueando apenas na parte final. Landa “desiste” da etapa logo após a queda, enquanto Yates é rebocado pelos seus companheiros Ruben Plaza e Carlos Verona até determinado ponto da subida. Todos perdem mais de 4 minutos, ficando imediatamente fora da discussão pela prova.

Uma autêntica corrida por eliminação da Movistar

A equipa de Eusébio Unzué sabia perfeitamente ao que vinha: o objectivo da formação espanhola era endurecer de tal forma o ritmo na primeira metade da subida para não deixar margens para duvidas – todos os líderes tinham que ficar forçosamente sem ajudas na parte final, Nairo tinha que realizar um ataque demolidor (o quanto mais longe possível para conseguir ganhar segundos ou até 1 minuto a toda a concorrência) e o colombiano tinha que subir já hoje ao palanque para receber a sua “maglia rosa”.

A estratégia de endurecimento da corrida nos km´s iniciais da ascensão foi prodigiosa. Victor de La Parte, ciclista que já correu em Portugal, colocou um ritmo medonho, diria mesmo, insuportável, que fez uma razia de alto a baixo no pelotão, deixando apenas, a 7 km do fim, Nibali, Kruiswijk, Pozzovivo (AG2R), Pinot, Tom Dumoulin (Sunweb) Ilnur Zakarin (Katusha) e Bauke Mollema (Trek) na companhia do chefe-de-fila da Movistar. Ciclistas como o nosso Rui Costa (UAE), o líder da geral Bob Jungels, Tanel Kangert (Astana; excelente parte final em que o estónio conseguiu ultrapassar muita gente), Davide Formolo e Michael Woods (Cannondale), Tejay Van Garderen (BMC) Franco Pelizotti (Bahrain-Mérida) foram ficando para trás nos primeiros 6 dos 14 km previstos. Jungels ainda aguentou alguns km a 40\50 segundos do grupo principal. Assim que Nairo sacudiu com a corrida, o luxemburguês ficou definitivamente para trás, perdendo 3 minutos e meio para o colombiano.

A 6,7 km para a meta, o colombiano quis dar a estocada final com um ataque que arrastou imediatamente Thibault e Pinot, deixando o grupo perseguidor preso aos esforços de Tom Dumoulin, Bauke Mollema e Ilnur Zakarin. Após uma fase de esticões promovidos por Quintana e Pinot, o colombiano disse adeus aos seus rivais e só parou na linha de chegada.

Bravo Pinot. Grande Dumoulin! Nibali teve um dia para esquecer!

O francês nunca se conformou e o holandês da Sunweb foi novamente a grande surpresa do dia. Se o FDJ escapou imediatamente a Nibali, procurando ainda chegar a Quintana, no grupo de trás, Dumoulin arrastou o seu apêndice Mollema, mantendo-se sempre bem perto dos homens da frente. O holandês levou a água ao seu moinho chegando perto de Pinot, quando Nibali, caído em desgraça, nem o ritmo de Dumoulin conseguiu aguentar. Na parte final, Mollema, ciclista que tinha passado toda a subida na roda de Dumoulin haveria de terminar bem perto do duo que terminou no pódio da etapa.

Classificação da etapa

Em alta:
– Nairo Quintana – 
Os 24 segundos de diferença amealhados em relação a Thibault Pinot e Tom Dumoulin deixam o colombiano muito mais sossegado na abordagem ao contra-relógio intermédio que se realizará amanhã. A subida ao Blockhaus indicou que será muito difícil travar a marcha do colombiano.
Thibault Pinot – Se não tiver um dia mau pelo percurso, caminhará para uma situação plena de forma física na última semana.
– Tom Dumoulin – Excelente corrida protagonizada pelo holandês reforçando o seu estatuto de all-arounder. Está a solidificar o seu estatuto de corredor capaz de vingar na alta montanha. A forma em como não caiu na tentação de tentar responder ao ataque de Quintana, e em como tentou sempre subir ao seu ritmo, prova acima de tudo maturidade. É a maior ameaça para o colombiano neste momento visto que poderá recuperar muito facilmente no contra-relógio os segundos que perdeu para o colombiano nesta etapa.
Bauke Mollema – Exibição sofrida mas conseguida do holandês da Trek na etapa. Apercebeu-se que Dumoulin estava bem e limitou-se a seguir a sua roda na ascensão. Vai crescer muito nas próximas etapas. Candidato descarado ao pódio.
– Domenico Pozzovivo – Idem.
– Tanel Kangert – O estónio da Astana terminou na 7ª posição a 2 minutos e 2 segundos. Boa escalada do ciclista que tem a missão de tentar lutar por um lugar no top 10. A excelente prestação no dia de hoje garante-lhe a entrada para o 11º lugar.
Ilnur Zakarin – Manteve-se por perto. Perdendo 2:10 para Pinot, não fica totalmente arreadado da possibilidade de ainda lutar pelo pódio mas terá se mexer melhor nas próximas etapas de montanha. Poderá recuperar algum desse tempo no crono.
– Jan Polanc – No início da subida final, a imagem fitou o líder da montanha a descolar na cauda do grupo principal. Polanc teve forças para resistir e fazer uma corrida de trás para a frente, terminando na 14ª posição à frente do seu líder Rui Costa.

Em baixa:
– Vincenzo Nibali – 
1 minuto perdido para Quintana é uma perda significativa para o campeão em título da prova. Pior que o minuto perdido foi a forma defensiva em como encarou a etapa, provando que não está no seu topo de forma.
Bob Jungels – Esperava-se mais combatividade por parte do chefe-de-fila da Quickstep. Deverá ter pago hoje a factura de ter andado toda a primeira semana na frente a lutar pela conquista e preservação da maglia rosa bem como pelos objectivos da equipa no que concerne à conquista de vitórias por parte de Fernando Gaviria. Não é ainda neste momento um nome descartável para o top10 apesar de ter perdido 3 minutos e meio para Nairo Quintana. Também poderá recuperar no contra-relógio.
– Tejay Van Garderen – Foi um dos primeiros contenders a sair do grupo principal. Parece-me longe da forma ideal. A ver vamos se tiramos nas próximas etapas a prova dos 9.
– Steven Kruiswijk – O chefe-de-fila da Lotto-Jumbo averbou 2 minutos e 43. A meio da subida final notava-se o seu semblante de esforço. Terá que fazer mais e melhor se quiser eventualmente lutar por um lugar no top5. A concorrência ganhou minuto e meio de borla ao holandês– Rui Costa – Não sendo de todo uma etapa favorável às suas características, os 5 minutos e 6 segundos averbados pelo português e o facto de não ter sido novamente o primeiro UAE a chegar (já no Monte Etna ficou atrás de Simone Petili) reforçam a ideia que não lutará para o top10. Para tal teria que ter aguentado mais tempo em posição intermédia, tendo hipótese de ter apanhado boas rodas para ir subindo na etapa, como foram os casos de Adam Yates, Tanel Kangert ou até mesmo Geraint Thomas. Poderá ter que fazer “tanking” na próxima etapa de montanha de forma a perder mais tempo para a geral, situação que lhe será favorável para arriscar entrar numa fuga com o objectivo de vencer uma etapa.

Classificação geral

NairoMan ascendeu à liderança da prova. As diferenças obtidas pelo colombiano ainda não são as melhores e serão decerto reduzidas por alguns dos corredores no contra-relógio. Para além de Nibali e Pinot (capazes de fazer diferenças na montanha) a equipa do colombiano procurará decerto descartar ao máximo Tom Dumoulin e Bauke Mollema porque a proximidade destes não convém ao colombiano face ao seu handicap no contra-relógio para ambos.

Com a geral arrumada, inicia-se o período estratégico da prova no qual toda a gente vai entregar as despesas da corrida à Movistar, equipa que me parece a mais bem apetrechada para as receber.

Outras classificações

Regularidade\Pontos – Fernando Gaviria continua a liderar uma classificação que não sofreu alterações durante o dia de hoje.

Montanha – Com os 35 pontos somados no alto de Blockhaus, Nairo Quintana aproximou-se de Jan Polanc. O esloveno da UAE manteve os seus 44 pontos apesar do notório esforço que realizou na subida final para tentar ir amealhar mais uns pontos. Thibault Pinot ascendeu à 3ª posição com 27 pontos.

Sprints intermédios  – O topo desta classificação manteve-se inalterável. Daniel Teklehaimanot (Dimension Data) manteve a sua liderança por mais um dia.

Combatividade – Fernando Gaviria continua a liderar numa classificação que se manteve na sua rama inalterada durante o dia de hoje.

Juventude – Davide Formolo é o novo líder da juventude. O jovem da Cannondale aproveitou o deslize de Bob Jungels para lhe ganhar a camisola e trilhar desde já uma diferença muito interessante de 45 segundos que o belga terá que anular para ultrapassar o italiano nesta classificação bem como num lugar dentro do top10.. Jan Polanc está na 3ª posição a 2 minuto e 1 segundo.

Por equipas – Como seria de esperar, a UAE perdeu a 1ª posição para a Movistar. A equipa terminou com várias unidades nas primeiras posições da etapa, cimentando a liderança da prova. A 6 minutos e 15 segundos está a Astana. A UAE de Rui Costa é agora 3ª a 7 minutos e 57.

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