Bloco de Notas da História #18 – 16 anos sobre um triunfo marcante na história do futebol nacional


Foi há 16 anos anos atrás: o Boavistão de Jaime Pacheco e da família Loureiro vivia o momento auge da sua história, conquistando um título inédito no futebol português. Passados 55 anos do último triunfo de um clube pequeno (Belenenses), os axadrezados tornavam-se o 5º clube nacional a poder festejar a vitória num campeonato.
Suspeitas e cabalas à parte, a verdade é que os axadrezados eram desde meados dos anos 80, o clube “dito” pequeno com melhores classificações obtidas no campeonato, fechando 4º pódios na 3ª posição e outros tantos a dobrar nas 6 primeiras posições do campeonato. Com amplas presenças e até boas prestações nas competições europeias, numa época em que os clubes portugueses eram quase sempre sovados quando tinham que enfrentar os tubarões do futebol europeu e em que a “eliminação era mais que certa” quando tinham de defrontar clubes do meio da tabela das principais ligas (eis a evolução positiva que o nosso futebol sofreu), passar no antigo Estádio do Bessa era uma tarefa hercúlea para qualquer equipa. Em primeiro lugar, porque o público boavisteiro sempre foi historicamente um público muito hóstil, transformando qualquer confronto contra um grande no seu reduto, uma autêntica batalha pelo seu orgulho. Em segundo lugar, porque os jogadores do Boavista canalizavam todo o apoio que vinha das bancadas, fazendo das tripas coração para derrubar os grandes em sua casa.

Uma corrida por eliminação

Quando a temporada 2000\2001 o Boavista era naturalmente remetido ao nível de ambições e expectivas para a conquista de um lugar europeu, podendo, na melhor das hipóteses somar um 3º lugar visto que o Benfica estava a enfrentar na altura uma enorme panóplia de problemas transversais a todas as áreas de actuação do clube, desde a sua estrutura até à formação de jogadores. Um conjunto comandado por um homem experiente que já tinha dado cartas nos anos anteriores no Boavista, Vitória de Guimarães, Rio Ave e Paços de Ferreira, e um plantel recheado de consagrados do futebol nacional (William, Quevedo, Rui Bento,  Erwin Sanchez, Jorge Couto) misturado com um leque de jogadores que atingiam naquela época o seu primário estado de maturidade dentro do futebol português (Ricardo, Rui Óscar, Frechaut, Pedro Emanuel, Litos, Filipe Gouveia, Pedro Santos, Petit, Demetrius, Elpídio Silva, Whelington, Duda, Almani Moreira, Martelinho) eram per se garante da possibilidade de lutar por um lugar nas competições europeias e por uma eventual presença na final da Taça desse ano. Pese embora os problemas que atingiram o Sporting no início da temporada com os castigos dos contratados João Pinto e Paulo Bento (castigos europeus relativos às atitudes tidas pelos jogadores naquela meia-final de má memória frente à França no Euro 2000), o Sporting era, em teoria, o grande candidato à renovação do histórico título conquistado na era anterior. Afinal de contas, do plantel 1999\2000 os leões só tinham visto sair Aldo Duscher para a Corunha e Ivone deFranceschi para a Corunha, fazendo entrar no plantel um lote de consagrados onde se incluíam nomes como Dimas, Bruno Caires, Paulo Bento, João Vieira Pinto e Ricardo Sá Pinto. No renovado FC Porto, Jardel tinha saído para a Turquia, sendo contratado para o seu lugar um semi-desconhecido de nome Pena. O brasileiro haveria de ser o abono de família no Porto nessa temporada, alcançando logo no seu ano de estreia o prémio de melhor marcador do campeonato.

Praticando um futebol muito musculado, onde sobressaía um estilo de pressão à zona no osso, característica na qual se evidenciou em definitivo nessa temporada Petit (um autêntico pitbull) e uma capacidade ímpar de colocar um pragmático jogo em profundidade nas transições em contra-ataque para os rápidos e possantes homens que Pacheco tinha na frente de ataque, casos de Martelinho, Duda, Whelington e Elpidio Silva (estes 4 somaram 43 dos 63 golos somados pela equipa nas 34 jornadas da temporada, grande parte dos quais obtidos em lances nos quais sobressaia o poder no jogo aéreo dos avançados boavisteiros), os axadrezados começaram o campeonato com um arranque regular para as suas ambições, somando 11 pontos nas primeiras 6 jornadas. Com 18 pontos somados em 27 possíveis (4º lugar à 19ª jornada) ninguém desconfiava que os axadrezados podiam ser o underdog de uma prova em que o Braga até tinha feito um excelente arranque, somando 20 pontos em 27 possíveis, facto que à 9ª jornada da competição garantia aos arsenalistas a 3ª posição à frente do Sporting e a 4 pontos do renovado FC Porto.

A última jornada da primeira volta haveria de ser o brilhante game changer que explicaria o sucesso dos boavisteiros. Embalados por uma série de vitórias (algumas delas com goleadas), a vitória por 1-0 no Bessa contra o vizinho Porto com um solitário golo de Martelinho aos 31″ haveria de colocar o Boavista na liderança do campeonato. O registo de vitórias iria manter-se até à 21ª jornada, altura em que a formação de Jaime Pacheco perdeu em Braga por 1-0, abrindo uma janela de oportunidades para o ascendente Benfica de José Mourinho, treinador que haveria de ser o primeiro a ser eliminado pelos boavisteiros na recta final do campeonato após o nulo verificado logo na ronda seguinte (22ª) no jogo disputado na Luz.

O Boavista continuava na liderança. Na 29ª jornada dá-se o momento chave da competição. O Boavista liderava com 62 pontos, mais 4 que o Porto, e mais 7 que o Sporting. Num Bessa lotado, a formação axadrezada recebia o Sporting para aquele que era até ao momento o jogo mais importante da história do clube. Em caso de vitória, o Boavista mantinha a diferença de 4 pontos para o FC Porto (a 5 jornadas do fim, sabendo que na última jornada tinha que visitar o Dragão) e arrumava com o Sporting no que à conquista do título dizia respeito.

Foi no intenso, frenético e controverso jogo do Bessa que saltou para glória “o homem dos golos importantes”: Martelinho. Num jogo em que o Sporting de Manuel Fernandes foi altamente perdulário no primeiro tempo, o Boavista soube crescer na partida, e acabou em cima da turma leonina, vendo o seu esforço recompensado com um fantástico golo do extremo que tinha o dom de selar triunfos nos jogos mais importantes. A decisão do campeonato nacional 2000\2001 ficou na minha opinião, deu-se nesse jogo do Bessa. O Boavista haveria de se sagrar pela primeira vez campeão nacional de futebol no escalão de séniores 4 jornadas depois, batendo o modesto Desportivo das Aves por 3-0 no Bessa.

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