Giro de Itália – Etapa 11 – Omar Fraille vence nos Apeninos, na etapa em que Rui Costa (2º) merecia muito mais


O suspeito volta sempre ao local do crime! A etapa 11 (etapa que cruzou a cordilheira dos Apeninos, ligando Florença a Bagno di Romagna) estava literalmente a pedir a presença do português. 4 montanhas categorizadas (2 de 2ª categoria e 2 de 3ª) numa autêntica etapa de rasga pernas, sem terrenos planos, corrida na região onde o português pode ser feliz nos campeonatos do mundo de 2013, pediam que o ciclista natural da Póvoa do Varzim, chefe-de-fila da UAE, pudesse, não obstante da relativa proximidade que ainda possuía à partida relativamente ao top 10 e até mesmo à frente da corrida (cerca de 8 minutos para Tom Dumoulin) tentar entrar numa fuga de maneira a lutar pela vitória na etapa.

Rui Costa deverá ter assinalado a etapa como o momento ideal para tentar conquistar o seu principal objectivo na prova italiana. Saindo do pelotão na fuga do dia (ainda antes da subida aos 1372 metros do Monte Fumaiolo; última dificuldade do dia) o português conseguiu deixar a sua marca de água na etapa que acabaria por ser algo inglória para o esforço que realizou durante a etapa. Com um ataque em vão no Monte Fumaiolo, viria a recuperar 20 segundos para o duo que ali passou na frente (Omar Fraille da Dimension Data e Pierre Roland da Cannondale) de forma a discutir a vitória na etapa com o ciclista espanhol, com o ciclista francês e com Tanel da Astana.

Uma fuga muito muito interessante – jogadas tácticas da Movistar

O rasga pernas durinho inserido na etapa 11 pela organização do Giro convidava à realização de fugas por parte de puncheurs e 2ªas linhas de várias equipas. Logo aos 15 km de corrida, na primeira passagem montanhosa do dia pelo Passo della Consuma, um grupo de 26 corredores iniciou uma fuga que causou alguma apreensão junto da formação do líder da corrida, a Sunweb de Tom Dumoulin.

Entre os 25 corredores podíamos encontrar um pouco de tudo, desde ciclistas que iniciaram a etapa no top25 da geral a corredores que já não tem nada a perder, passando pelos habituais corredores que iriam aproveitar a etapa para tentar marcar pontos para a classificação da montanha. Do extenso grupo, composto por Laurens de Plus (QuickStep), Igor Anton e Omar Fraille (Dimension Data), José Rojas, Jesus Herrada e Andrey Amador (Movistar), Laurens Ten Dam (Sunweb), Giovani Visconti (Bahrein-Mérida), Mikel Landa e Phillip Deignan (Sky), Hugh Carty, Davide Vilella e Pierre Roland (Cannondale), Rui Costa e Simone Petilli (Team UAE), Tanel Kangert e Dario Cataldo (Astana), Hubert Dupont e Matteo Montaguti (AG2R), Ben Hermans (BMC), Ivan Rovny (Gazprom-Rusvelo), Tomasz Marczynski e Maxime Monfort (Lotto Soudal), Ruben Plaza (Orica-Scott), Martijn Keizer (LottoNL-Jumbo) e Simone Andreetta (Bardiani) – as maiores ameaças para a liderança de Tom Dumoulin eram Andrey Amador (9º a 4:39m), Tanel Kangert (12º a 5:36) e Dario Cataldo (15º a 5:56) – se a Sunweb não pusesse um ritmo aceitável desde início, a camisola poderia fortuitamente passar para um destes homens. Parece-me claro que a presença de Amador com dois colegas de equipa capazes de executar um bom trabalho na montanha, foi uma jogada táctica do director desportivo da formação espanhola Eusébio Unzué para começar a desgatar a equipa do líder e para eventualmente procurar que o ciclista costa-riquenho pudesse recuperar algum tempo na geral, de maneira a constituir-se como uma alternativa credível para a estratégia que a Movistar adoptará seguramente nas próximas etapas de montanha: o lançamento de ataques à vez de Quintana e Amador. Com o tempo ganho pelo costa-riquenho nesta etapa, qualquer ataque promovido por si na montanha terá obrigatoriamente que merecer a atenção de Tom Dumoulin e da sua formação.

Do lote de corredores em fuga, houve imediatamente dois que se quiseram destacar. À procura de outra sorte na prova, Mikel Landa arrastou consigo o seu compatriota Omar Fraille (ciclista de enorme valia neste tipo de etapas visto que é um trepador) na subida para o Passo della Calla (3ª categoria). Juntos, os dois espanhóis conseguiram ganhar cerca de 2 minutos ao grupo intermédio e 5 minutos ao pelotão. Os 3 minutos e 20 de máximo ganhos pelo grupo intermédio ao pelotão (comandado por 4 unidades da Sunweb) colocavam Andrey Amador virtualmente na 2ª posição da geral individual. Foi precisamente aí que a formação holandesa recebeu uma mãozinha da Française des Jeux de Thibault Pinot e da Trek de Bauke Mollema. Nesse preciso momento, Tejay Van Garderen dava o seu último suspiro quando as objectivas da televisão captavam o Norte-Americano a descolar do pelotão. Van Garderen irá nas próximas etapas tentar poupar forças para tentar entrar nas fugas das etapas de alta montanha que se avizinham nos próximos dias.

Em virtude dos esforços desenvolvidos por Rojas e Herrada, o duo da frente haveria de ser alcançado a 40 km da meta no início da subida para o Monte Fumaiolo. Mikel Landa ainda tentou um solo durante um par de km ao invés de se resguardar dentro do grupo à semelhança do que fez Omar Fraille. Os resultados da falta de inteligência crassa do corredor da Sky foram óbvios: haveria de cair do grupo passados alguns quilómetros, sendo totalmente neutralizado e ultrapassado pelo pelotão. Rojas continuou com o trabalho em prol de Amador subida a cima, até aos 4 km finais (os mais duros da longa subida), altura em que Laurent De Plus quebrou a harmonia existente com um prometedor ataque que teve o condão de despertar a famosa inteligência de Rui Costa na leitura da situação de corrida: assim que o belga saiu de cena, o português lançou um interessante ataque ao qual respondeu de imediato Pierre Rolland. Visconti, Amador, Fraille, Ruben Plaza, Vilella, Kangert e Cataldo não responderam à primeira. Assim que Rolland esticou o ritmo, Rui Costa voltou ao grupo intermédio e Omar Fraille foi em busca do francês, chegando ao mesmo com um andamento soberbo em cima do prémio da montanha.

No pelotão, aquando da entrada nos 4 km finais da inclinação final, havia quem também tivesse objectivos para a etapa. Franco Pelizotti, o escudeiro de Vincenzo Nibali, pegou ao serviço e tratou de endurecer a corrida, fazendo desaparecer num espaço de poucos metros, grande parte do pelotão. Preparando o caminho para um eventual ataque do seu líder, Nibali viria a esticar a corrida quando junto de si estavam apenas os favoritos. As únicas vítimas deste esticão promovido pela Bahrein acabariam por ser Geraint Thomas e Steven Kruiswijk, homens que ficaram literalmente apeados. Com uma subida a ritmo alucinante, a Française des Jeux tratou de meter alguma água na fervura durante alguns metros, para que Pinot pudesse tranquilamente lançar um fortíssimo ataque que lhe garantiria 10 segundos de vantagem sobre os seus adversários directos no alto do Monte Fumaiolo. O francês haveria de ser apanhado durante a descida.

Com 2 minutos de vantagem sobre o pelotão e 20 sobre os mais directos perseguidores no grupo intermédio, Omar Fraille e Pierre Roland pareciam, à entrada para os últimos 15 km, destinados a ombrear entre si pela vitória na etapa. Rui Costa tinha outros planos. Numa fase de falso plano após a descida, o português haveria de anular o tempo com um franco trabalho que colocou Fraille em sobressalto. O espanhol sabia que em condições normais, o português seria mais forte na ponta final da etapa. Tal cenário não veio a acontecer e, foi por pouco que não tivemos uma chegada a 9 visto que os Astana trabalharam muito bem nos km´s finais para lançar Tanel Kangert. O estónio ainda conseguiu chegar nos metros finais à companhia do trio que seguia na frente.

No momento táctico da chegada, quando um grupo de 5 comandado por Giovani Visconti ameaçava chegar à frente, Omar Fraille arrancou para a vitória. Rui Costa não teve pernas para ser mais forte na linha de chegada mas deu-nos uma excelente e prometedora exibição no Giro, provando que está claramente em crescendo no plano físico

Classificação de etapa

Em alta:      

Andrey Amador – O minuto e 37 segundos ganho pelo ciclista costa-riquenho (bom trepador e ainda melhor contra-relogista) ao pelotão catapultou-o da 9ª para a 6ª posição, estando agora a 3:05 de Tom Dumoulin. Isto fará com que Eusébio Unzué terá já no sábado um belíssimo ponta-de-lança para lançar um ataque já no sábado, na subida a Oropa. Amador poderá ser mais uma faca afiada à liderança de Dumoulin visto que se defende muito bem no contra-relógio.

Tanel Kangert – Rosto “mais” visível de uma Astana que está muito bem na prova, mesmo apesar dos contratempos sofridos com a perda irreparável de Michele Scarponi. O estónio entrou bem na fuga com o seu colega de equipa Dario Cataldo e pode subir ao top10. Para além do mais, a sua prestação nas 2 etapas de montanha corridas até ao momento foi soberba, realizando duas boas subidas de trás para a frente no Etna e no Blockhaus. Veremos se na terceira semana não paga caro o esforço que tem realizado nas últimas etapas.

Dario Cataldo – Idem. O italiano ficou à beirinha do top10. De fininho, sem se revelar como um “perigo” à primeira vista, o italiano ainda poderá subir mais na geral.

Rui Costa – Em crescendo. A ousadia valeu-lhe a subida de 3 lugares na geral sendo agora 15º a 6:29 de Dumoulin. Está a apenas 2:12 de Ilnur Zakarin (10º) e tem tudo para subir mais uns lugares às custas das más prestações de Geraint Thomas e Steven Kruisjwijk.

Omar Fraille – Excelente vitória de etapa e um passo decisivo na luta pelo seu objectivo principal que é a camisola da montanha. Contudo, o espanhol adia a questão que tem sido feita ao longo dos últimos dois anos: quando é que poderemos ver Fraille na luta directa por um top10 numa grande volta?

Thibault Pinot – O ataque realizado nos metros finais do Monte Fumaiolo indica que o francês tem pernas para dar e vender. Teremos Pinot ao ataque no sábado?

Bob Jungels e Adam Yates – Estabilizaram durante a etapa de hoje. O inglês ainda tem que se esforçar mais para subir na geral. Esteve presente no grupo principal mas a sua pedalada, na cauda, indicava algum sofrimento.

Em queda livre:

Geraint Thomas, Steven Kruijswijk e Tejay Van Garderen – Enquanto o galês tem razões de sobra para não conseguir aguentar o ritmo dos melhores (tem passado as suas noites cheio de dores em virtude da queda sofrida na 9ª etapa), o holandês está em queda disfarçada e o Norte-Americano bateu hoje no fundo. Esperava-se mais dos chefes-de-fila da Lotto-Jumbo e da BMC.

Classificação geral

Outras classificações

Pontos\Regularidade – Numa etapa em que apenas eram pontuáveis os pontos à chegada, Fernando Gaviria passou mais um dia descansado no grupeto dos sprinters mantendo a mesma distância de 31 pontos para Jasper Stuyven. Os próximos 2 dias serão decisivos para esta classificação visto que o terreno plano irá começar a queimar os seus últimos cartuchos.

Montanha – Os 20 pontos marcados durante o dia de hoje por Omar Fraille não foram suficientes para destronar Jan Polanc. A 1ª categoria vencida pelo ciclista esloveno da UAE no Monte desempatam a igualdade a 44 verificada no final desta etapa. Fraille assumiu a sua candidatura a um prémio para o qual a equipa joga com o viscaíno e com o seu compatriota Igor Anton. Nairo Quintana é 3º com 35 pontos enquanto Thibault Pinot é 4º com 27. Os 22 pontos somados por Laurens de Plus durante a etapa de hoje indiciam que a Quickstep pode pretender também a camisola azul. O belga poderá ser lançado novamente em fugas nas etapas de montanha.

Sprints intermédios – Daniel Teklehaimanot (Dimension Data) continua a liderar com 37 pontos, mais 8 que Eugene Zhupa da Selle Italia. Os dois poderão reaparecer nas fugas das próximas etapas.

Combatividade – Os 18 pontos marcados por Omar Fraille permitiram ao espanhol chegar perto do líder Fernando Gavíria. Gavíria tem agora 5 pontos de avanço sobre o 2º Jasper Stuyven (Trek) e 8 sobre o ciclista da Dimension Data.

Prémio da Juventude – Bob Jungels lidera com 2:23 de avanço sobre Davide Formolo (Cannondale) e 3:02 para Adam Yates (Orica), ciclista que desalojou Jan Polanc (UAE) da 3ª posição. Polanc está agora a 3:43 de Jungels.

Por equipas – A Movistar continua na liderança com mais 3:39 que a Astana. A UAE é a terceira a mais de 9 minutos.

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