Giro de Itália – Etapa 14 – Tom Dumoulin volta a desafiar a Movistar


Não haja dúvida: Tom Dumoulin é um tipo de tomates! O holandês da Sunweb colocou o assunto da Geral a um nível pessoal, voltando a irritar todos aqueles que o perseguem com uma exibição de sonho coroada com uma vitória na linha de chegada na subida de 11,8 km ao Santuário de Oropa. O comportamento exibido pelo holandês no Blockhaus voltou a repetir-se: no início da subida, o mau posicionamento do holandês parecia indicar uma certa quebra física. A Movistar voltou a endurecer a corrida, seguindo-se o ataque de Nairo Quintana. Sem ir ao choque, o holandês tomou a dianteira da perseguição, colocou o ritmo mais confortável que poderia colocar face às circunstâncias da corrida e no final, ainda teve forças para vencer a etapa e cavar mais umas diferenças para os mais directos perseguidores.

O holandês sofredor

Vou isolar todos os acontecimentos que a corrida proporcionou até à chegada do grupo a Vila de Biella, início da subida que conduziria os ciclistas até ao Santuário de Oropa. A 11,8 km, a corrida, devidamente lançada por elementos da Trek de Bauke Mollema (a maior desilusão da etapa visto que perdeu 1:44, resultado que talvez possa impedi-lo de vir a lutar por um lugar no pódio) devidamente secundada pela Française des Jeux de Thibault Pinot (outra das desilusões da etapa) previa um interessante espectáculo numa inclinação que tinha rampas duras de 8\9% a partir dos 7 km finais. A subida para Oropa poderia efectivamente, se fosse bem atacada por alguém, estabelecer diferenças de 20\30 segundos.

O primeiro a atacá-la, desde bem cedo, quando as rampas ainda não ultrapassavam os 4% foi Diego Rosa da Sky. Com Kyrienka a passar pela frente, a formação inglesa dava mostras de querer vencer a etapa. Aproveitando um certo desajuste de velocidade existente na cabeça do pelotão (os movistar tentaram acelerar o ritmo mas receberam imediatamente ordens para travar a marcha até aos km finais, momento em que Victor De La Parte viria a aparecer na dianteira) o gregário de luxo da formação agora comandada por Mikel Landa face à desistência de Geraint Thomas durante o dia de ontem, tentou ganhar uma vantagem que lhe permitisse acalentar o sonho de vencer a etapa.

A Movistar veio, como referi, para a frente, e Igor Anton (Dimension Data) também tentou a sua sorte. Sem o líder da montanha Omar Fraile na frente, a formação sul-africana lançou o trepador espanhol com o intuito de perceber se este poderia ganhar a etapa e os 35 pontos relativos à contagem de montanha (única do dia) que se verificava lá no alto de forma a manter a camisola azul na posse da equipa. Anton acabaria por não perecer aos esforços de Victor de La Parte. O curtinho trabalho da Movistar reduziu ao mínimo o grupo principal. Para os leitores terem uma noção, o 9º Andrey Amador (Movistar) já não estava no grupo. Bauke Mollema passou por dificuldades e acabou por descolar. Na cauda do grupo, Bob Jungels (Quickstep) ia suportando a custo o ritmo imposto. Tom Dumoulin também parecia indicar algumas dificuldades. Na frente, Steven Kruijswijk (Lotto-Jumbo) dava algumas mostras de estar a passar bem na montanha pela primeira vez na 100ª edição da prova.

Quando faltavam 4 km para o fim, na parte mais dura da subida, começaram os ataques. O primeiro a agitar com o grupo dos favoritos foi Domenico Pozzovivo. O italiano da AG2R atacou precisamente no momento em que um dos seus rivais directos na luta pelo pódio (Bauke Mollema) estava a descolar. Ninguém respondeu ao ataque de pavio curto do italiano. Com muita classe, o “aparecido” Mikel Landa (o espanhol corre naturalmente sem pressão para tentar dar uma alegria à Sky numa autêntica prova de terror para a formação britânica) foi para a frente do grupo, onde poucos metros depois saiu Nairo Quintana com um interessante ataque. Não sendo um ataque muito vigoroso, o colombiano haveria de rachar o grupo em 3 secções – a dele, na frente, com Zakarin (resposta imediata) e Pozzovivo – o de trás, com Dumoulin a assumir a teste, tendo como fiéis depositários Nibali, Landa e Adam Yates – e um 3º, onde Thibault, acompanhado de homens como Kangert (Astana) – tentava não perder muito tempo para a frente.

Quintana esticou a corda várias vezes na ideia de fazer um rasgo significativo em relação a Zakarin e Pozzovivo (viria a cair gradualmente de grupo em grupo), num primeiro plano e a Dumoulin, num segundo. O holandês voltou a repetir o comportamento tido no Blockhaus, não se deixando cair na finta do colombiano. A pouco e pouco, colocou a sua cadência e confortavelmente foi à procura do ciclista colombiano, anulando a pequena diferência de 6\7 segundos que este tinha conquistado.

A corrida chegou aos seus metros finais com um quarteto na frente: Dumoulin, Zakarin, Quintana e Landa. Nibali voltou a não conseguir acompanhar a marcha, descolando a 1,5 km da meta. O italiano seria apanhado inclusive por Thibault Pinot, ciclista que nos 3 km anteriores vinha a perder 30 segundos para a frente da corrida. Nos metros finais coube ao russo Zakarin o lançamento do assalto final à etapa e às bonificações. Dumoulin foi ao choque (Landa não teve forças e Quintana ficou apeado na bicicleta) e ainda teve forças para superar o russo e estabelecer diferenças em relação a todos os perseguidores. O holandês estará decerto a irritar todos os ciclistas e responsáveis da Movistar. A esta hora deverá estar Eusébio Unzué a pensar o que é que há de fazer para se livrar da viga que se colocou no caminho do seu chefe-de-fila.

Sensacional Rui Costa

Na subida final, o português da Team UAE, andou sempre por perto da frente da corrida. O nosso ídolo acabou por fechar na 16ª posição a 1 minuto e 19 de Dumoulin, resultado que permitiu ao português descer apenas uma posição na geral para a 15ª. Contudo, o ciclista da Póvoa do Varzim continua muito próximo de David Formolo da Cannondale (14º a 3 segundos), de Adam Yates (13º a 15 segundos), de Dario Cataldo da Astana (12º a 45 segundos do português), de Steven Kruijswijk (11º a 55 segundos), estando a 2:23 de Andrey Amador, o 10º classificado. O português terá amanhã uma oportunidade de ouro para tentar realizar um ataque similar aquele que realizou nos Apeninos, visto que a parte final da etapa que termina em Bergamo é ao seu jeito. Com duas contagens (uma de 3ª e outra de 2ª) nos últimos km, esta é uma etapa moldada às características do ciclista da UAE.

Classificação da etapa


Em alta

Tom Dumoulin – Naturalmente. Mais uma demonstração de forças do ciclista da Sunweb. A cada dia que passa ganha confiança e destrói a confiança dos adversários, principalmente de Nairo Quintana. O grande problema do holandês é a mudança de ritmos que é feita no início de cada subida. Assim que a corrida estabiliza, o voador de Maastricht mete o seu ritmo e alcança sempre o que pretende. Enorme espírito de sacríficio. Está no Giro para o vencer! Definitivamente!

Mikel Landa – Boa etapa do homem da Sky. O espanhol foi injustamente arredado da competição na queda sofrida no Blockhaus. Já apareceu numa fuga mas não conseguiu gerir o seu esforço nem adoptou a melhor estratégia de corrida. Na etapa de hoje provou novamente que pertence à elite. Irá voltar nas próximas etapas. O espanhol quer mesmo conquistar uma etapa.

Ilnur Zakarin – O russo está finalmente no ponto. Está de pavio largo e está ofensivo. Ainda é cedo para descartar a possibilidade de vir a vencer a prova visto que está tão próximo de Nairo na geral. Se Dumoulin escorregar e Nairo não se livrar dele, o russo vai capitalizar.

Adam Yates – Outro dos injustiçados no Blockhaus, está a subir de forma. Já consegue finalmente aguentar junto dos melhores. Arrisca o top 10 se continua a manter este tipo de andamento.

Jan Hirt – A pouco e pouco, o chefe-de-fila da CCC Polsat vai-se chegando à frente. A classificação obtida durante o dia de hoje (perdeu 1 minuto para Dumoulin) permitiram ao checo alcançar o top20. Não obstante dos 19 minutos averbados, o jovem ciclista checo tem condições para subir mais 3 ou 4 lugares nas próximas etapas.

Em Baixa

Vincenzo Nibali – Pior que a postura ultra defensiva do italiano é, não conseguir terminar uma etapa de montanha junto aos seus mais directos rivais. Arrisca-se a fechar em 5º lugar. Não está a 100%. Nota-se a milhas!

Thibault Pinot – Etapa decepcionante. A presença da sua formação na frente indicava que o francês estava bem, depois de ter atacado no Monte Fumaiolo. Os 35 segundos averbados demonstram novamente o seu maior defeito: a irregularidade.

Franco Pelizzotti – O único homem que Nibali dispõe para o ajudar na montanha não tem conseguido andar a par com o seu líder. Pelizotti apareceu na parte final para dirimir as perdas somadas por Nibali na parte final. A razão pela qual Nibali está a passar por dificuldades passa imenso pela falta de apoio do seu gregário.

Bauke Mollema – Corolário do Blockhaus. O holandês está sem energia para melhor. Se continuar assim, vai desaparecer rapidamente do top 10. Nas etapas da 3ª semana, poderá apanhar um dose de minutos quando for chamado a enfrentar várias montanhas num só dia.

Andrey Amador – Depois da excelente prestação nos Apeninos, lancei aqui a hipótese de virmos a ter o costa-riquenho como uma espécie de 2ª lança da Movistar apontada a Dumoulin. O costa-riquenho sucumbiu no início da subida para Oropa e perdeu muito tempo, caíndo para o 10º lugar da geral. Voltará ao seu papel de gregário.

Classificação geral

A geral indica que a luta pela vitória, apesar de não estar fechada para os 8 primeiros (pode sempre existir uma surpresa) está cada vez mais reduzida ao nível de probabilidades (medidas através das prestações dos ciclistas). Nairo Quintana e Ilnur Zakarin (5º) parecem-me neste momento os únicos ciclistas com capacidades para anular a diferença que possuem para Tom Dumoulin.
A luta por um lugar no pódio está ao rubro. Todos os segundos contarão para definir a batalha que se irá travar de Pinot até Domenico Pozzovivo. Não acredito que Jungels e Kruisjwijk consigam intrometer-se nesta luta.

Outras classificações

Nota prévia

André Greipel “pôs o violino da choradeira no saco” e abandonou o Giro. Sem etapas que favoreçam as suas características e\ou o seu grau de resistência a 2ªs categorias (a etapa de amanhã), o alemão decidiu rumar a outras paragens. Terá que melhorar imenso se quiser ser feliz no Tour. No Giro, os sprinters presentes (Gaviria, Bennett, Ferrari, Maresczko, Caleb Ewan) foram uma brincadeira se comparados com a elite (Sagan, Cavendish, Degenkolb, Kittel, Michael Matthews, Arnaud Demare, Bouhani, Van Avermaet) que decerto irá cair na prova francesa. Se perdeu 4 para Gaviria no Giro, o alemão terá que melhorar muito se quiser disputar sprints no Tour.

Pontos\Regularidade – Fernando Gaviria continua a sua tranquila caminhada para Milão com 123 pontos de vantagem para Jasper Stuyven da Trek.

Montanha – Os 35 pontos somados por Tom Dumoulin no alto de Oropa permitem ao holandês ascender à liderança desta categoria com 51 pontos. Omar Fraile não se fez ao piso. Continua com 49 pontos. Jan Polanc (UAE) andou por perto da frente na subida final mas não marcou qualquer ponto. O esloveno continua na 3ª posição com 46 pontos. Amanhã é um bom dia para Fraille e Polanc entrarem numa fuga para colherem pontos nas categorias estacionadas no final da etapa. Nairo Quintana é 4º com 44 pontos. Ilnur Zakarin é 5º com 37.

Sprints intermédios – Pavel Brutt (Gazprom) continua a liderar com 44 pontos, mais 5 que Daniel Teklehaimanot.

Combatividade – Fernando Gaviria continua a liderar o prémio da combatividade com 52 pontos, mais 19 que Jasper Stuyven.

Juventude – Bob Jungels perdeu tempo para Adam Yates (Orica) e Davide Formolo (Cannondale). O luxemburguês tem agora 2:15 de vantagem para o britânico da formação australiana e 2:27 para o italiano da Cannondale. Formolo caiu portanto para a 3ª posição em virtude do tempo perdido para Yates. Jan Polanc da UAE está na 4ª posição a 3:43m.

Por equipas – A Movistar aumentou em 24 segundos a vantagem (3:54) para a Astana e em cerca de 1 minuto a vantagem para a 3ª classificada, a UAE (10:21).

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