Rugby: Bélgica 29-18 Portugal – Os Lobos falham o assalto ao Grupo B


(o jogo integral estará disponível para visualização dentro de algumas horas)

Naturalmente, estamos todos desiludidos. Sabíamos todos que ia ser difícil. Não obstante a vitória obtida frente aos Belgas no test match realizado no final de 2016, tínhamos a clara noção que o adversário que hoje defrontámos é um adversário experiente e com unidades muito capazes. Os belgas teriam que se fazer à vida depois da fraca campanha no Grupo B assim como a nossa selecção também teria que vestir o fato macaco para dar sequência às 7 vitórias obtidas nos últimos 6 meses, de forma a poder subir para a divisão em que o rugby português tem que estar.

Creio que os comandados de Martim Aguiar fizeram o jogo possível. Mas também creio que não podemos cometer os erros que cometemos no início da partida (o 2º ensaio dos belgas num pontapé de recomeço foi algo anedótico para este nível) e que foi algo precipitada (a ideia de querer resolver tudo rapidamente) e até previsível no seu jogo ofensivo (demasiadas variações à ponta de passe para o lado que só foram contrariadas quando Penha e Costa começou a explorar o jogo ao pé; jogar “no passe para o lado” pode parecer muito jogo mas de facto não o é se não existir progressão) faltando em muitos momentos um dos princípios fundamentais do rugby: o apoio ao portador. Frente a uma equipa que foi muito poderosa no jogo de avançados, defendemos bem em alguns momentos.

Um arranque tenebroso.

Só havia uma estratégia possível para tentar inverter o ímpeto inicial com que a formação belga iria encarar o começo de partida – colocar imediatamente o jogo nos 22 adversários. Essa foi a ideia portuguesa mas um acumular de erros que se pagam caro a este nível ditaram dois ensaios a abrir. Mais fortes na pressão e placagem às investidas adversárias, mais fortes nas formações espontâneas, os belgas chegariam ao ensaio logo aos 5 minutos através do jogo penetrante por intermédio do seu 2ª linha Tuur Moelandts. Na reposição de bola a meio-campo o descalabro aconteceu: Nuno Penha e Costa colocou a bola na ponta, o rapidíssimo ponta belga Charles Reynaert (Racing Metro 92) colheu a oval e arrancou por ali fora até à linha de ensaio portuguesa, não sendo travado atempadamente por ninguém. Esta situação não pode acontecer ao mais alto nível. Aos 7″, Portugal já perdia por 14-0 sem que os belgas tivessem feito muita coisa que justificasse tal vantagem

O equilíbrio e 2 minutos de sonho

Paulatinamente, a defesa portuguesa começou a reagir com mais eficácia ao jogo dos avançados belgas (apesar destes terem beneficiado de uma penalidade que o seu 15 Alan Williams desperdiçou e dos portugueses terem feito 2 faltas na melée; perdemos por largo nas melées mas em contrapartida conseguimos conquistar 2 introduções contrárias na touche) e Portugal começou a despertar ofensivamente. Com uma interessante circulação apoiada entre os médios, as plataformas de ataque no meio-campo adversário permitiam aos portugueses boas plataformas de ataque para tentar jogar à ponta ou para perfurar com recurso a situações de intersessão com os centros, processos de jogo que se vieram, ao longo do tempo, a provar repetitivos e de fácil defesa para os belgas. Em duas ocasiões, no período que antecedeu os ensaios portugueses, Adérito Esteves teve boas hipóteses para finalizar na ponta, pecando as jogadas pela existência de erros técnicos.

Aos 20″ e 22″ o nosso XV acabou por conseguir equilibrar o resultado com duas brilhantes vagas: a primeira, na sequência de uma touche, com uma variação ao largo que foi parar às mãos de Pedro Bettencourt Ávila. O nosso mágico do Clermont haveria de fazer entrar com um offload a entrada do furão Vasco Fragoso Mendes dentro dos 22 adversários, parando o 3ª linha dentro da área de validação adversária depois de ter aguentado uma carga de um belga. Fragoso Mendes foi na minha modesta opinião um dos melhores em campo não só pelo lindo ensaio que marcou mas também pelas diversas incursões que pode fazer com a garra que lhe é habitual.
Logo a seguir, numa fase em que os belgas pareciam ter sentido o ensaio português, na sequência de outra plataforma de ataque saída de um alinhamento lateral, Bruno Medeiros tentou perfurar sem sucesso junto aos postes belgas, mas, o lançamento de uma nova fase para a direita terminaria com um ensaio de Pedro Bettencourt Ávila no meio de vários belgas, colocando o resultado em 14-12. Não tendo sido feliz na conversão, o 15 viria a remediar o erro passados alguns minutos quando cobrou de forma magistral, uma grande penalidade obtida atrás da linha do meio-campo.

No final da primeira parte, denotou-se que os lusitanos conseguiram por algum cobro às investidas belgas, praticando um rugby mais diversificado ao nível de processos e decisões. Com as pontas totalmente bloqueadas (sempre que Gonçalo Foro e Adérito Esteves tentavam progredir com a oval, apareciam imediatamente 2 ou 3 belgas a bloquear as suas investidas; por outro lado defensivamente começamos a dar mais espaço nas pontas, surgindo situações de clara superioridade numérica para a turma belga) os jogadores do eixo começaram a ter mais oportunidades para atacar com a oval na mão.José Lima também tentou dar um ár da sua graça em duas ou três incursões. Todas as acções individuais pecaram apenas por falta de apoio para dar continuidade às jogadas. Nuno Penha e Costa também começou a explorar o jogo ao pé e os belgas começaram a recuar no terreno. Numa das situações provocadas pelo jogador do CDUL, Alan Williams tremeu e passou por calafrios quando, saiu a jogar da sua área de validação perante a pressão de 2 jogadores portugueses. A situação haveria de ser salva pela prontidão com que os seus companheiros se voluntariaram a safar a bola no ruck, perdendo-se a plataforma quando um belga aliviou ao pé contra um jogador português.

Ao intervalo, o resultado espelhava o equilíbrio dominante na 1ª parte.

Um mau arranque de 2ª parte. Uma oportunidade desperdiçada

A 2ª parte arrancou a papel químico da primeira. Com os belgas a praticarem o seu forte jogo de avançados, tentámos ser mais fortes nos momentos iniciais (mais variações à ponta coroadas com falhas de transmissão na hora h) mas os belgas furaram mais vezes a linha de vantagem. Aos 44″ uma acção em pick and go dentro dos 22 portugueses haveria de redundar num ensaio em que Francisco Pinto Magalhães não conseguiu a intercepção por sorte, acabando a jogar por terminar numa combinação entre Debaty e Dienst, respectivamente, o pilar direito e o talonador dos belgas. Bruno Medeiros ainda tentou travar a jogada mas o offload do pilar criou a situação de ensaio. 21-15 no marcador.

A resposta portuguesa foi pronta. Estabelecemos novamente o jogo no meio-campo dos belgas. Fizemos duas ou três penentrações fantásticas sobre a linha defensiva mas, no intervalo entre linhas, faltava o apoio sempre que o penetrador se via envolto num mar de belgas. Mesmo assim, numa falta dos belgas numa formação ordenada, Vasco Fragoso Mendes entrou bem na área de validação na cobrança rápida da infracção. Sem perceber se o 8 fez o toque ou não, porque o lance gerou-me muitas dúvidas e o jogo não teve recurso ao videoárbitro (uma falha crassa da Rugby Europe para uma partida que foi transmitida pela televisão estatal belga) este acabou por não validar o ensaio, apitando para nova formação ordenada a 5 metros. Com uma tremenda hipótese para voltar para a frente do marcador, os lusitanos desperdiçaram uma janela de oportunidade de ouro.

Que os belgas capitalizaram quando puderam

Lance capital que ajudou a decidir a partida (devido claro está ao poderio do pack avançado belga) foi o amarelo mostrado a Vasco Fragoso Mendes aos 61″ por suposta placagem alta praticada pelo 3ª linha português neste lance, na disputa de um ruck. Sinceramente, não me pareceu na repetição que o jogador português tenha “limpo” o belga com recurso a uma pescoçada mas, em todo o caso, o 8 do Direito deveria ter tido outro tipo de abordagem porque decerto que os seus treinadores não lhe ensinaram a limpar um ruck de cima para baixo.

O que não conseguimos perceber na decisão do irlandês Murphy foi a razão que o levou a deixar a selecção portuguesa jogar (na sequência do ruck) chegando até, na referida jogada, Adérito Esteves a ter uma janela para correr para o ensaio, para depois voltar atrás para sancionar a situação em questão em conjunto com um dos auxiliares. A situação não fez portanto o mínimo sentido.

Se os belgas já estavam a ser superiores ao nível de avançados, foi a inferioridade numérica que explicou o consumar da vitória da formação da casa. O ensaio decisivo dos belgas viria precisamente na sequência de uma formação ordenada, na qual os belgas, empurraram os portugueses, saindo a oval na posse do formação Kevin Williams pelo lado fechado. A bola haveria de chegar ao letal ponta Reynaert. 26-18. Apesar da conversão não ter sido sucedida, a 10 minutos do fim, a recuperação (um ensaio convertido e uma penalidade para passar para a frente; um ensaio não convertido e uma penalidade para empatar) tornava-se assim espinhosa. Passados poucos minutos, uma penalidade convertida haveria de sentenciar a excelente campanha protagonizada pelos Lobos, que, assim, em virtude deste resultado, voltarão a ter que jogar o Grupo C da Rugby Europe na próxima temporada.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s