Projectos desportivos alicerçados em pés de barro; estruturas familiares; ambições que comprometem


Nas últimas duas décadas, a história provou como cíclica a descida à 2ª Liga de equipas que nesse mesmo ano disputaram ou estiveram em vias de disputar as competições europeias, como foi o caso do Arouca na presente temporada. Quando alguns adeptos de clubes pequenos me apontam que a sua equipa deveria ter um bocado mais de ambição para poder lutar pelos lugares europeus, respondo quase sempre com recurso a um leque de perguntas: a estrutura directiva é coesa e organizada? Existe algum planeamento desportivo a médio e longo prazo, capaz de promover uma ascensão salutar dentro de moldes sustentáveis? O clube tem um nível interessante de sustentabilidade financeira e é bem gerido? O treinador e o seu staff oferecem garantias de poder vir a realizar um bom trabalho? O clube têm uma formação devidamente estruturada, com bons treinadores, com equipas competitivas e é capaz de prover a equipa sénior todos os anos? Antes de se fazerem à estrada, alguns dirigentes devem ponderar necessariamente este parâmetros para aferir se os seus clubes têm efectivamente condições para poderem lutar por objectivos deste nível.

Não consigo precisar quando é que esta aventura em Arouca começou. Talvez tenha sido quando Jorge Gabriel foi convidado a assumir o cargo de treinador-adjunto da equipa sénior do clube. Na altura, em 2006\2007 o clube ainda militava nas distritais de Aveiro mas já se falava que o seu novo presidente Carlos Pinho (bem como outros empresários ligados ao ramo da construção civil, segundo as suposições da época) tinham um mega projecto de subidas de visão que visava colocar o Arouca nas divisões profissionais do futebol português. Assente em pés de barro, o projecto que viria a comprovar-se como uma obra de um só homem (coadjuvado nos primeiros tempos por um ou outro empresário ligado ao clube; quando o assunto passou para o profissionalismo, a coisa superou as carteiras de grande parte dos empresários da região) acabou por vingar ano após ano, subida após subida, colocando pela primeira vez, no mapa de Portugal, a modesta vila estacionada no sopé da Serra da Freita. A suada e celebrada subida ao primeiro escalão em 2012\2013 foi intensamente narrada por todos como um dos maiores feitos desportivos nacionais realizados desde o início do século XXI.

A subida à 1ª liga colocou desde cedo um facto que indicava que o clube não estava devidamente preparado para dar tamanho passo de gigante: a condição tenebrosa das suas infraestruturas. Já não falo da formação porque como se diz aqui na gíria, a formação do emblema do distrito de aveiro nunca “valeu um charuto” – que me lembre, até ao ano de 2013 nunca vi uma equipa de formação do Arouca a disputar um campeonato nacional de futebol. Sei que entretanto, a visibilidade obtida pelo clube em virtude dos seus feitos começou a torná-lo mais apelativo para os jovens talentos da região (onde, a bom da verdade só existem meia dúzia de clubes de aldeola de 2ª divisão distrital) voltando-lhes a dar razões para ficarem no clube da terra em detrimento da escolha pela oferta (de maior qualidade, com melhores condições e com maior projecção) dada pelos maiores emblemas dos concelhos vizinhos (Sanjoanense, Oliveirense e Feirense). A pouco e pouco, o Arouca, clube dirigido por um construtor civil de larga escala na região, foi resolvendo os seus problemas infraestruturais.

Carlos Pinho conseguiu nos primeiros 3 anos do sonho “liguesco” ser apelativo a bons treinadores. O combativo Pedro Emanuel foi uma excelente escolha para um primeiro assalto à liga. Comandando um conjunto de poucos recursos apesar da experiência de 1ª liga acumulada por várias unidades (onde se incluiam jogadores como Luis Tinoco, Diego Galo, David Simão, Pintassilgo, Bruno Amaro, Rui Sampaio, Nuno Coelho, André Claro, Paulo Sérgio, Hugo Monteiro, Roberto; e os espanhóis Ivan Balliu e Ceballos, duas das grandes revelações da temporada) a equipa fez uma temporada tranquila apesar de todos os problemas que afectaram o início de temporada (tiveram que andar com a casa às costas). Nesse ano, recordo-me que o Arouca possuía uma equipa muito bem organizada defensivamente, muito musculada a meio-campo e fantástica no desenvolvimento e finalização das jogadas de contra-ataque.

No ano seguinte, a direcção do clube decidiu agir com alguma inteligência. Pedro Emanuel manteve-se no comando técnico do clube (algo raro nos dias que correm nos ditos “pequenos” em virtude da falta de paciência dos dirigentes quando os resultados ambicionados não são os mais desejados) e a estrutura do plantel não foi alterada na sua espinha dorsal, sendo acrescentada por jogadores capazes de conduzir o clube a mais uma época tranquila. As entradas de jogadores como Nildo, Hugo Basto, Artur, Joris Kayembe (por empréstimo do Porto) e Iuri Medeiros (por empréstimo do Sporting). A época não seria a melhor (16º lugar) mas, a equipa conseguiu evitar novamente a despromoção, solidificando de certa forma a presença do clube na 1ª divisão.

A escolha para 2015\2016 (Lito Vidigal) também acabou por ser acertada. O técnico angolano já tinha dado provas de ser capaz de formar equipas muito competitivas quando conseguiu levar o Belenenses à Liga Europa. Numa temporada em que a direcção do Arouca esperava eventualmente uma temporada ainda mais tranquila do que tinham sido as anteriores, a aposta (entraram em 2015 jogadores como Rafael Bracalli, Sema Velásquez, Lucas Lima, Gegé, Jaílson, Tomás Dabo, Nuno Valente, Mateus, Walter Gonzalez, Ivo Rodrigues, Zequinha) num treinador polémico mas competente, e num plantel recheado de jogadores que sabiam efectivamente o que era andar a lutar pelas competições europeias, formaram um plantel muito aguerrido (fortíssimo em casa) que acabou por resvalar para uma histórica qualificação para as competições europeias. A qualificação para a Liga Europa acabou por ser o maior mal deste clube.

Ao nível de estrutura directiva, o Arouca foi ao longo de 3 anos uma equipa familiar dirigida pela família Pinho. Os dois homens fortes do futebol, pai e filho (Carlos Pinho e Joel Pinho), respectivamente, presidente e director desportivo, foram fortemente toldados por uma ambição europeia irreal para as condições apresentadas pelo clube. Apesar de em teoria, o clube ter sido bem gerido até ao momento, não se registando suspeitas que tenha alguma vez incorrido em situação de atrasos no pagamento das suas responsabilidades para com jogadores e funcionários, creio que ambos percebem muito pouco de futebol e foram ao longo dos anos privilegiados pela condução dos excelentes treinadores que contrataram. Em 3 anos na 1ª Liga, o Arouca ainda não tinha solidificado sequer uma posição na primeira metade da tabela e, financeiramente, sabendo de antemão que é um clube com poucos associados, com poucos adeptos no estádio, com parcos apoios do tecido empresarial da região, sem um grande parceiro do plano económico (nos primórdios da sua chegada à liga, o principal parceiro indirecto até tinha sido a Câmara Municipal de Arouca) sem receitas de maior ao nível televisivo e publicitário, também não tinha facturado o suficiente em vendas para poder investir à larga – até à época passada, o clube facturou 2,8 milhões com a venda de 4 jogadores (Mauro Goicochea, Rodney Wallace, Lucas Lima e Jorge Intima). Um clube que factura 2,8 milhões de euros em 4 temporadas não pode de facto combater contra orçamentos como os de Vitória de Guimarães e Marítimo.

O próprio presidente do clube foi ao longo de vários meses queimando as pontes na relação com alguns clubes. Com o Sporting, clube que ajudou a solidificar a presença do clube da 1ª liga com o empréstimo de vários jogadores, a relação que terminaria naquele patético, infantil e lamentável episódio ocorrido em Novembro nos corredores do Estádio José de Alvalade com o seu presidente, as pontes começaram a ser cortadas pelo presidente do Arouca quando este afirmou que o Sporting ainda lhe devia dinheiro por causa de umas trocas e baldrocas relacionadas com um empréstimo de um jogador e com uns bilhetes para o jogo entre as duas equipas. Com o Porto, o presidente do Arouca sempre teve boas relações. Com o Benfica, o também lamentável episódio ocorrido em Setembro de 2016 no jogo entre as duas equipas que envolveu Rui Costa e a dupla Carlos e Joel Pinho, acabou por fechar as portas do clube encarnado a eventuais empréstimos no inverno, apesar de Carlos Pinho ter declarado recentemente a sua admiração por Luís Filipe Vieira, considerando-o “um senhor do futebol português”. Estes seriam contudo alguns dos episódios de uma lista infindável de problemas criados pela família Pinho em cada deslocação realizada pela equipa.

Uma época que parecia prometedora, terminou num enorme calvário

A participação da formação nos playoffs da Liga Europa culminou com uma eliminação algo injusta frente ao campeão grego, o Olympiacos. Obrigados a começar a temporada mais cedo em virtude dos compromissos europeus, num cenário novo em que entraram 16 reforços para colmatar as 16 saídas existentes (de jogadores basilares nos feitos anteriormente registados como Lucas Lima, Pintassilgo, David Simão, Zequinha, Gegé, Roberto, Tomás Dabo), Lito Vidigal, teve que acelerar o ritmo de preparação para a nova temporada. A participação destes clubes nas pré-eliminatórias das competições europeias tem os seus custos futuros associados, custos que se podem tornar nocivos no final da temporada. Os clubes são obrigados a acelerar a preparação física dos jogadores, podendo correr o risco destes estoirarem no último terço da temporada, há menos tempo para o treinador promover a adaptação de reforços e construir os seus processos de jogo, e, em caso de disputa das fases de grupos destas competições, o valor monetário dos prémios europeus (para os grandes podem constituir-se como trocos, mas para os pequenos são somas que pagam temporadas) faz com que as equipas se capacitem mais para os jogos europeus do que para os jogos da liga interna. Os próprios jogadores tem outro tipo de rendimento nesse jogos visto que a visibilidade que adquirem para eventualmente dar o salto para outras realidades é efectivamente muito maior nesses jogos.

Enquanto Lito Vidigal comandou os destinos da formação, até Fevereiro deste ano, altura em que decidiu sair para enfrentar um novo desafio na sua carreira no Maccabi Haifa de Israel, o clube foi andando na rota dos lugares europeus. À 21ª jornada, o angolano, deixou a formação no 10º lugar. Carlos Pinho na altura referiu que uma eventual saída do treinador não iria ser uma grande perda para o clube, revelando alguma sobranceria quando referiu que o “clube tinha todas as condições para continuar no futuro”. O presidente confiou portanto que o caso para aquela temporada estava praticamente arrumado, devendo a equipa fazer mais ponto menos ponto para assegurar a manutenção. A saída do angolano viria a ser uma “machadada de má gestão” na época do clube. Qualquer dirigente jamais poderá deixar um treinador que garantia estabilidade na 2ª metade da temporada, sem ter a manutenção garantida. Mesmo naqueles casos em que um treinador tem cartel num clube de maior dimensão e está a forçar a saída, o clube só deverá fazê-lo de preferência antes da paragem para o Natal porque a seguir a esta pausa segue-se um período em que o trânsito competitivo (taças) pode permitir uma rápida adaptação do novo técnico à nova realidade e uma fase passível deste vir a realizar uma certa dose de experimentalismo que possa ser benéfica na abordagem à 2ª volta do campeonato. Seguiu-se a contratação do experiente Manuel Machado.

Machado é um treinador complexo. É um treinador com um grau elevadíssimo de metodologia e é um bom estratega, dominando por completo o plano táctico do jogo. Contudo, o treinador natural de Guimarães é um daqueles treinadores que gosta de ter um plantel à la carte, na qual ele escolhe todas as unidades com as quais pretende trabalhar. Em Arouca, o técnico veio a confessar, após ter sido despedido as razões pelas quais não conseguiu colocar novamente a equipa na rota das vitórias: “Encontrei um conjunto que começou a trabalhar mais cedo por força das eliminatórias da Liga Europa e uma equipa que vinha com um ciclo de calendário muito difícil. Encontrou o Benfica, o FC Porto e o Sporting neste período. Vinha a perder e continua a perder. Encontrou o SC Braga fora, o Desportivo Chaves e o Marítimo fora, equipas que estão bem acima na tabela e que são complicados de defrontar no seu terreno”.

O ciclo de derrotas provocou portanto um dos normais actos de fúria no presidente do Arouca. A cabeça de Machado rolou e o “adjunto” Jorge Leitão subiu ao comando técnico de uma equipa mentalmente arrasada que nunca mais se recuperou, descendo durante o dia de ontem à 2ª Liga, creio, pela pancada financeira que irá levar, para decerto nunca mais regressar.

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