Giro de Itália – Etapa 16 – Vincenzo Nibali ganha em Bormio e reduz diferenças; Tom Dumourin segura a rosa por um triz num dia de muito sofrimento na etapa raínha do Giro


Ao 19º dia do Giro, veio finalmente uma vitória italiana. O herói e esperança de todos os italianos à vitória na geral, Vincenzo Nibali, pode vencer a etapa rainha da prova.

Passado o último dia de descanso que a organização traçou para a prova, os ciclistas partiram para a fase decisiva da prova nos últimos 6 dias de corrida. Na última semana foram traçadas 5 etapas de montanha (a primeira delas, a etapa rainha) e um contra-relógio final que ligará o autódromo de Monza a Milão. Na primeira das 5 batalhas épicas que esperamos ver na alta montanha, pode-se dizer que tivemos um espectáculo emocionante devido a várias condicionantes particulares. Nos duros 222 km da ligação entre Rovetta e Bormio, os ciclistas teriam que ultrapassar 3 montanhas de altíssima exigência: o Passo di Mortirolo (1ª categoria), o Passo di Stelvio (a 2700 metros de altitude, o Stelvio é a única montanha categorizada como categoria especial da prova) e o Umbrailpass (1ª categoria) antes de descerem para a conhecida estância de inverno.

Num dia em que o líder Tom Dumoulin passou mal devido a uma diarreia que o obrigou a interromper a marcha na aproximação à subida final, Vincenzo Nibali e Nairo Quintana atacaram com vigor no Umbrailpass. Trilhando distâncias para os mais directos concorrentes, Nibali fez uma descida soberba que lhe permitiu alcançar o último fugitivo do dia (Mikel Landa da Sky) e bater o espanhol em cima da linha de meta.

Os dias de descanso nas provas de 3 semanas são historicamente, momentos ambíguos para alguns corredores Se para alguns ciclistas, aqueles que se encontram mais fatigados, os dias de descanso cumprem o seu propósito, ajudando-os a ganhar energias para enfrentar as etapas seguintes, para outros, corredores que tem vindo a ganhar ritmo e ímpeto nas etapas que os antecedem, os dias de descanso podem ser bastante prejudiciais porque lhes interrompem uma certa ascensão no plano físico e mental sobre os adversários. Se para Nibali e Nairo Quintana, o dia de descanso acabou por fazer muito bem porque os restabeleceu ao nível de forças, para Tom Dumoulin, o dia de descanso foi altamente prejudicial. A etapa veio a tornar-se uma autêntica tormenta para o holandês da Sunweb. Afectado por uma forte diarreia, o holandês teve que se retrair e foi inclusive obrigado a parar para ter que defecar na berma da estrada na aproximação à subida final, facto que o obrigou a perder cerca de 2 minutos para os seus rivais e que o obrigou também a ter que despender esforços extraordinários para continuar a manter a Maglia Rosa.

O combativo Mikel Landa

Totalmente arredado da geral, o espanhol da Sky voltou a tentar a sua sorte. Landa quer mesmo dar uma grande alegria à sua equipa.
A acção começou logo na aproximação à primeira dificuldade do dia na subida ao Mortirolo. A Movistar colocou imediatamente Andrey Amador (10º à geral) na frente em conjunto com o colombiano Winner Anacona. A investida de Andrey Amadou coroou aquilo que fui escrevendo ao longo dos dias: a presença do costa-riquenho na frente é o corolário de uma estratégia de Eusébio Unzué que visa ameaçar os candidatos à geral com duas unidades, servindo o bem posicionado (na geral) costa-riquenho como batedor que serve para obrigar as equipas com interesses à geral a ter que desgastar-se na perseguição. Kenny Elissonde, Phillip Deignan e Mikel Landa (Team Sky) também alinharam imediatamente. Luis León Sanchez (Astana), Igor Anton e Omar Fraile (Dimension Data), Steven Kruisjwijk (Lotto-Jumbo-NL), Jan Hirt (CCC Polsat) e o nosso Rui Costa também tentaram sair do pelotão para encetar uma fuga que não viria a resultar nestes moldes. Finda a iniciativa, na aproximação ao Passo Dello Stelvio, o grupo que ficaria na frente continha Landa e o seu colega de equipa Phillip Deignan, os dois movistar, Steven Kruiswijk, Igor Anton e Jan Hirt.

Com 3 minutos de vantagem sobre o pelotão, o dia foi trazendo alguns sinais que indicavam alguma anormalidade. Ao contrário do que se tem passado nos últimos dias, a equipa do líder e o próprio líder foram correndo na cauda do grupo que era sistematicamente reduzido ao nível de unidades em virtude do trabalho que era desenvolvido na frente por um corredor da Orica. A cerca de 45 km da meta, quando os ciclistas já tinham ultrapassado os 2700 metros do Stelvio e se preparam para enfrentar a ascensão a Umbraillpass, Tom Dumoulin foi 3 vezes ao seu carro de apoio falar com o director desportivo da equipa, gerando obviamente alguma apreensão em relação ao seu estado físico. Passados alguns quilómetros, o holandês teve mesmo que parar junto à berma para tirar rapidamente o seu equipamento de forma a poder defecar. Estava resolvido o mistério: o líder estava a passar mal com um problema intestinal. O director desportivo da Sunweb acabou por prejudicar o seu corredor visto que o primeiro apelo deste junto ao carro tinha-se verificado 13km antes. Se tivesse parado naquela altura, o holandês até poderia ter voltado tranquilamente ao seio do restrito grupo de todas as decisões.

Enquanto lá na frente a fuga desmanchava-se num trio em virtude de uma aceleração promovida pelo chefe-de-fila da Lotto-Jumbo acompanhada por Mikel Landa com alguma tranquilidade e a custo por Jan Hirt, no pelotão, assim que se soube que Tom Dumoulin tinha parado, Ilnur Zakarin tentou encetar um ataque à “má fila”. A Movistar tratou imediatamente de pôr o chefe-de-fila da Katusha na linha, decidindo, em conjunto com os homens da Bahrain-Mérida de Nibali, colocar o andamento em águas bacalhau por alguns minutos, para que Tom Dumoulin não fosse prejudicado em virtude dos seus problemas. A formação espanhol pode assim devolver “parte” da bondade tida pela Sunweb quando Nairo caiu na etapa 15, mas, a meu ver, a atitude da formação orientada por Eusébio Unzué foi um meio-gesto quando comparado com a total desaceleração promovida pela Sunweb na etapa de Domingo, visto que apenas deixaram que Dumoulin recuperasse 30 segundos dos 2 minutos perdidos. No domingo, Nairoman pode reentrar no grupo principal porque a formação alemã desacelerou a marcha até à chegada do colombiano. O justo seria portanto esperar totalmente pelo holandês para que a corrida pudesse prosseguir em condições iguais para todos os ciclistas.

Com 1 minuto e meio de vantagem para o pelotão e sensivelmente 3 minutos e meio para Tom Dumoulin (entretanto apareceu Laurens Ten Dam para o ajudar a tentar minimizar as perdas; o trepador holandês acabou por não ser uma grande ajuda para o seu líder, que, infelizmente, teve que se fazer sozinho à estrada; mesmo assim, conseguiu alimentar-se bem e acabou por não perder mais tempo, facto que lhe permitiu manter a camisola rosa) a corrida pode prosseguir. A Bahrain-Mérida passou para a frente do grupo principal (extremamente reduzido no qual ia todo o top10 à excepção de Amador, colocado numa posição intermédia mais à frente, e um ou outro corredor de top20\gregários como era o caso de David Formolo ou do gregário de Pinot Sebastian Reichenbach) antecipando um eventual ataque de Nibali. Com um ataque de Landa na frente, o tubarão de Messina decidiu atacar cá atrás. O ataque de Nibali teve o condão de quebrar as águas: Nairo Quintana, Domenico Pozzovivo (AG2R) e Ilnur Zakarin responderam imediatamente enquanto para trás ficou um grupo composto por Thibault Pinot (Française des Jeux), Bob Jungels (Quickstep), Bauke Mollema (Trek) e David Formolo (Cannondale), grupo onde mais à frente se juntariam Jan Hirt e Steven Kruisjwijk assim que alcançados pelos homens da frente.

No alto de Umbrailpass, corridos que foram alguns dos quilómetros da subida final no lado suiço, Mikel Landa pode amealhar os 35 pontos relativos à 1ª categoria que lhe permitiram no final do dia de hoje ascender à liderança do prémio da montanha. Com cerca de 11 segundos de diferença para o quarteto que ia na sua perseguição, diferença que foi reduzida em virtude dos constantes ataques protagonizados ora por Quintana ora por Nibali (cruzaram a contagem lado a lado porque o colombiano sabia perfeitamente que o italiano pretendia amealhar segundos nos quilómetros finais da subida e na extensa descida que se seguiu, mantendo Zakarin e Pozzovivo na sua perseguição;), o espanhol teria que defender a sua posição com unhas e dentes contra o “melhor descedor do ciclismo mundial numa descida longuíssima de 18 km, altamente técnica, e repleta de poços de água. Com uma fantástica técnica de descida, Nibali haveria de arriscar imenso, facto que lhe permitiu alcançar Landa e cravar uma diferença para Nairo Quintana. A 2:12 dos dois na passagem pela contagem de montanha, a descida era crucial para os interesses de Dumoulin: o holandês teria pelo menos que aguentar essa diferença para poder manter a liderança da prova.

A corrida haveria de ser lançada a dois para a parte final. Nibali acabou por ser mais forte que Landa. O murro dado pelo espanhol na bicicleta revelou toda a sua frustração: o espanhol morreu mais uma vez na praia mas é de expectar que volte às fugas nas próximas etapas.
A 12 segundos de diferença chegou Nairo Quintana enquanto a 24 chegou Pozzovivo. O italiano da AG2R continua na luta por um lugar no pódio.

Declarações à chegada

Classificação da etapa

Em Alta

Vincenzo Nibali – O italiano voltou a evidenciar que o seu pico de forma é planeada e preparado para a semana de todas as decisões. O italiano passou ao ataque e espera-se que intensifique esses mesmos ataques nas próximas etapas. A vitória na etapa deu-lhe um aumento de moral significativo e o facto de ter ganho 2 minutos a Tom Dumoulin e de ter reduzido a diferença para Nairo Quintana, foi literalmente mel para a psique do italiano.

Domenico Pozzovivo – O trepador da AG2R fez uma etapa fantástica. Para além de ter conseguido responder a quase todos os ataques da dupla Quintana\Nibali, ainda teve a coragem, a meio do Umbrail de ir para a frente do grupo controlar os acontecimentos e por alguma água na fervura. Haveria de não resistir ao último ataque, acabando no entanto por fazer uma etapa que não o descarta da eventualidade de fechar no pódio da prova.

Ilnur Zakarin – Idem. Tem um enorme defeito que tem que corrigir rapidamente para poder ser um dos melhores all-rounders do mundo: o russo não arrisca nas descidas. Tem que melhorar num futuro próximo.

Mikel Landa – O espanhol não viu a sua combatividade recompensada por uma vitória em etapa e sinceramente ainda a pode conseguir, mas, já serve de contentamento para si e para a sua azarada formação, a liderança provisória do prémio da montanha. Será um objectivo a manter nas próximas etapas.

Jan Hirt – O chefe-de-fila da CCC tem vindo a crescer de dia para dia e poderá muito bem ter conseguido aqui um passaporte para um fantástico top15. O checo é um ciclista muito promissor.

Steven Kruisjwijk – Apesar de não ter conseguido alcançar os seus objectivos (vitória na etapa e segundos que lhe permitissem a ascensão na tabela), o holandês foi finalmente um ciclista ofensivo. A estratégia de sair na fuga foi arriscada mas como o holandês já não tem nada a perder, deve continuar a arriscar.

Em Baixa

Thibault Pinot e Bauke Mollema – Atados, atadinhos. Os chefes-de-fila da FDJ e Trek dizem adeus à possibilidade de conquistar o Giro. O minuto e meio perdido para a concorrência directa, será muito difícil de recuperar se ambos mantiverem uma postura defensiva, acanhada e se não conseguirem pelo menos defender-se dos ataques.

Classificação geral

Será Tom Dumoulin capaz de recuperar atempadamente do problema que o afectou no dia de hoje para conseguir rechaçar as investidas de Nairo Quintana e Vincenzo Nibali? O holandês tem 24 horas para voltar à sua máxima força.

A luta pelo 4º lugar está ao rubro assim como a luta pelo top10.

Outras classificações

Pontos\Regularidade –  Fernando Gaviria alcançou hoje matematicamente a vitória na classificação dos pontos. Mesmo que Jasper Stuyven marque todos os pontos em disputa nos sprints intermédios e no final das etapas, algo francamente impossível visto que Stuyven não é de todo um ciclista com características para etapas de montanha, os pontos amealhados não serão suficientes para destronar o ciclista de 22 anos da Quickstep. Ao colombiano basta portanto terminar a corrida para vencer este prémio.

Montanha – Mikel Landa e Luis Leon Sanchez intrometeram-se na luta pela vitória. O espanhol tem agora 124 pontos, mais 16 que o seu compatriota da Astana. Omar Fraile (Dimension Data) é terceiro com 85. Nairo Quintana tem 62 enquanto Igor Anton tem 56.

Sprints intermédios – Pavel Brutt (Gazprom) continua a liderar com 44 pontos, mais 5 que Daniel Teklehaimanot (Dimension Data) e Eugene Zhupa da Selle Italia.

Combatividade – Fernando Gaviria continua a liderar com 57 pontos. Jasper Stuyven é 2º com 33, mais um que Mikel Landa.

Juventude – Bob Jungels continua a ter 2:25m de diferença para Adam Yates e 2:42 para David Formolo.

Por equipas – A Movistar pulverizou toda a concorrência. A Astana saiu da 2ª posição (desistência de Tanel Kangert e perdas de Dario Cataldo na etapa), entrando a Bahrein-Merida para o 2º posto a 36 minutos. A UAE é 3ª a 39 minutos.

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