Bloco de Notas da História #19 – Decorridos 50 anos sobre a vitória do Celtic na Taça dos Campeões Europeus


25 de Maio de 1967. Estádio Nacional do Jamor. O Portugal da ditadura do Estado Novo, regime que era cada vez mais acossado (e isolado) pela comunidade internacional devido à manutenção da injusta e sangrenta guerra em África, recebe pela primeira um grande espectáculo internacional de futebol.

Em confronto, para a final da Taça dos Campeões Europeus da temporada 1966\1967 encontram-se o poderoso Inter do “catenaccio” de Helenio Herrera e o underdog Celtic de Jock Stein. Os escoceses são, de forma surpreendente, num espaço de 12 anos, a primeira equipa britânica a chegar à final da competição. Apesar do futebol britânico ter recuperado algum do seu prestígio poucos meses antes com a vitória da Inglaterra no Mundial por si organizado, e de algumas equipas ingleses possuírem desde há largos anos as melhores equipas mundiais (caso do Manchester United), são os comandados de Jock Stein que chegam pela primeira vez à final da maior competição futebolística do futebol europeu, surpreendendo tudo e todos no estádio situado no coração do concelho de Oeiras.

A diferença de poderio entre as duas equipas é abismal. Frente a frente colocaram-se dois sistemas e duas filosofias de jogo completamente distintos(as): na formação italiana, um sistema de jogo ultradefensivo (catenaccio; tradução para português: o ferrolho) inventado pelo austríaco Karl Rappan tinha sido optimizado por Herrera na equipa italiana desde 1962, com os resultados que eram na época conhecidos: 2 vitórias nas Taças dos Campeões Europeus (1964 frente ao Real Madrid; 1965 frente ao Benfica) e 3 títulos italianos. A filosofia de jogo implementada por Herrera (o tal que um dia veio buscar o primeiro português a internacionalizar-se: o “académico” Jorge Humberto) obrigava os jogadores a serem rigidos tacticamente: a equipa tinha que defender toda dentro dos 30 metros, fechando os caminhos para a sua baliza. Ofensivamente, a formação italiana era uma formação cínica que capitalizava o erro do adversário. Qualquer perda de bola do adversário no meio-campo italiano dava azo imediato à saída para o contra-ataque, mecanismo em que Mazzola era de facto um Rei. A formação italiana era uma equipa talhada para ser eficaz, não desperdiçando muitas oportunidades para ser feliz. A brilhante ocupação de espaços, a intensidade na pressão dos seus médios e a agressividade dos seus defesas nos duelos individuais (pelo chão ou pelo ar), conservariam as diferenças estabelecidas. O Inter nos últimos 3 anos só tinha perdido 1 jogo para as competições europeias frente ao Real Madrid. Do outro lado, na formação de Jock Stein, vingava o WM 4X2X4 britânico, altamente dinâmico, sistema que privilegiava essencialmente a construção de futebol através da utilização massiva dos corredores com a valência de ter médios capazes de realizar bons remates de meia distância. A este facto acresce outro: podia-se dizer que todo o plantel do Celtic era composto por jogadores da zona de Glasgow. No plantel do Celtic não havia quem tivesse nascido a mais de 30 km da cidade.

Tendo perdido o histórico avançado Luis Suarez (jogador que não tem qualquer ligação familiar com o seu homónimo uruguaio, actual jogador do Barça), a equipa do Inter era muito mais rica ao nível de individualidades que a formação escocesa. Armando Picchi, Tarcísio Burgnich, Aristide Guarnieri e o gigante “ala” esquerdo Giaccinto Facchetti eram provavelmente 4 dos melhores senão o melhor quarteto defensivo dos anos 60, apesar do desaire obtido no Mundial de 66, prova em que os italianos foram eliminados de forma assustadora pela fortíssima selecção norte-coreana. Facchetti era o verdadeiro patrão do Inter, sendo um ala de fino recorte técnico apesar da sua altura (1,91m), sendo o responsável pelo “carregamento” de jogo para o meio-campo contrário. Sandro Mazzola era evidentemente outro dos grandes patrões da equipa, constituindo-se como um médio ofensivo cerebral no lançamento dos contra-ataques. A equipa de Jock Stein não tinha à primeira vista um conjunto tão grande de individualidades. O fortíssimo central Billy McNeill, o médio centro Bertie Auld e o extremo direito Jimmy Johnston (3 dos hall of famers actuais do desporto escocês) seriam provavelmente as maiores individualidades que o lendário “treinador provocador” escocês teria naquele plantel à sua disposição.

Stein teve o condão de provocar Herrera. Ao sentar-se no banco que os italianos teriam alegadamente escolhido, o treinador é vítima da fúria do argentino. Agigantando-se ao treinador adversário, Stein passa sem dirigir uma palavra ao histórico treinador do Inter. Na entrada para o terreno de jogo, consta-se que Stein terá dito aos seus jogadores para amedrontarem o adversário com o cântico do hino do clube. Os italianos ficariam deveras impressionados com o acto, mas…

… o Inter marca primeiro. Ouro sobre azul. Literalmente. Aos 7 minutos, o avançado Capellini é derrubado dentro da área. Sandro Mazzolla pega no esférico e dá-lhe uns conselhos antes de atirar para o fundo da baliza defendida pelo veterano de 37 anos Ronnie Simpson. Estava portanto montado o cenário ideal para os italianos poderem remeter-se à defesa durante o resto do jogo, intervalando os momentos de maior aperto (e aqui se vê a graciosidade da contribuição de Herrera para o futebol dos nossos dias) com os seus célebres momentos de anti-jogo no qual perdiam minutos a bater faltas, pontapés de baliza, lançamentos laterais, ou com as suas habituações acções de troca de bola entre unidades no meio-campo contrário, acções que visavam exclusivamente adormecer (dar claros sinais de impotência) o adversário, retirando-lhe ímpeto e até alguma clarividência nos momentos de recuperação de bola. Quando uma equipa está vários minutos a cheirar a bola, é natural que o jogador que a recupere tencione individualizar mais as acções.

O que se seguiu foi um autêntico massacre por parte dos Lisbon Lions, alcunha pela qual ficaram conhecidos os 11 vencedores de Lisboa. Os remanescentes 83 minutos de jogo proporcionaram um ataque sem fim à baliza do Inter. Em 42 remates, existiu um pouco de tudo: remates desviados, remates ao lado, remates por cima, grandes defesas do guardião Giuliano Sarti, e 2 bolas aos postes. O massacre foi de tal ordem que as unidades do sector defensivo italiano chegaram a um estado de autêntica loucura dentro do campo. Mais tarde, em entrevista, Tarcisio Burgnich haveria de declarar que ouviu o seu capitão Armando Picchi declarar a final como perdida:

“Lembro-me que, a certa altura, Picchi virou-se para o nosso guarda-redes e disse: «Giuliano, deixa estar, deixar estar. Mais cedo ou mais tarde vão marcar o golo da vitória.» Nunca imaginei ouvir aquelas palavras. Nunca imaginei que o meu capitão dissesse ao nosso guarda-redes para deixar cair a toalha ao chão. Mas aquilo apenas mostra o quanto estávamos destruídos naquele momento. É como se não quiséssemos prolongar a agonia.”

O público português agiganta-se. Torce pelo Celtic. É claro que para muitos dos milhares de portugueses presentes, o Celtic é uma espécie de “Novo Sporting” – como o emblema escocês partilha as mesmas cores dos leões de Alvalade (Lisbon Lions) e é o underdog na contenda, o fervoroso público português pede o 2º golo dos escoceses assim que Thomas Gemmell faz o empate aos 63″ com um remate fora da área. Aos 85″, Steve Chalmers faz o golo que garante aos escoceses o direito ao trono do futebol europeu por uma época.

50 anos passaram. Alguns dos intervenientes ainda são vivos. Para comemorar a efeméride, 1000 adeptos do Celtic vieram com alguns dos jogadores consagrados a Lisboa, mais concretamente ao Estádio Nacional para celebrar o 50º aniversário da sua maior conquista:

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s