Giro de Itália – Etapa 17 – Pierre Rolland ataca para uma vitória histórica; Rui Costa volta a fazer 2º


No antigo império romano, um dos jogos mais jogados pelos antepassados do povo italiano era o jogo dos dados. Jogando a sua sorte ou azar no lançamento de um ou vários poliedros com inscrições numéricas, os vencedores acreditavam que a sua sorte se devia grosso modo à sua devoção a Fortuna, a deusa da sorte, do acaso, do destino e da esperança.

Na etapa que ligou Tirano a Canazei (Val di Fassa) na distância de 219 km, a UAE de Rui Costa jogou os seus dados vezes sem conta na esperança de vencer a etapa através de um dos quatro representantes colocados na participada fuga do dia. A jogar essencialmente para Rui Costa numa etapa que estava ao nível das suas potencialidades e características fruto da “ondulação” no terreno (em subida constante a partir do quilómetro 137), a estratégia da Team UAE pecou por excesso. A UAE controlou a fuga, trabalhou para que esta alcançasse uma diferença assinalável, atacou várias vezes por Valério Conti (a certo ponto não percebi a intenção estratégica da equipa) mas no final foi Pierre Rolland quem fez a festa. Com um ataque a 8 km da meta, o francês da Cannondale conseguiu finalmente a vitória pela qual tem trabalhado nos últimos dias, voltando aos triunfos 2 anos depois de ter vencido a sua última etapa, e 5 anos depois de ter conseguido a sua última vitória em grandes voltas.

Uma fuga que se veio a revelar um caso bicudo para os homens da geral

Com duas 2ªas categorias no início do percurso (Aprica e Passo del Tonale) nos primeiros quilómetros do traçado e uma 3ª categoria a meio da etapa no Goivo, a etapa prometia a saída de uma fuga constituída por vários corredores porque as oportunidades de vencer uma etapa estão a escassear para várias equipas. Na presente edição da prova, AG2R, Astana, Bardiani, CCC, Française des Jeux, Gazprom, Katusha, Lotto-Jumbo, Sky, Trek e Selle Italia ainda sonham com a conquista de uma tirada, podendo efectivamente esse triunfo marcar como positivo o desempenho da equipa na prova mesmo se outros objectivos traçados não sejam alcançados. O que o pelotão não esperava de certeza era uma fuga constituída por 40 elementos.

Um primeiro grupo constituído por Pierre Rolland (Cannondale), Matteo Mohoric (UAE) e o líder dos sprints intermédios Pavel Brutt (poderia cimentar a sua liderança nos 2 sprints previstos ao longo da tirada) saíram do pelotão logo nos primeiros quilómetros. Ao trio seguir-se-ia um grupo constituído por 40 unidades onde se destacou o nosso Rui Costa, o seu colega de equipa Jan Polanc e o belga da Lotto-Soudal Maxime Monfort na companhia de Valerio Agnoli (Bahrain-Merida), Ben Gastauer e Quentin Jaurégui (Ag2r La Mondiale), Jesper Hansen (Astana), Enrico Barbin e Lorenzo Rota (Bardiani), Tejay van Garderen, Manuel Senni, e Francisco Ventoso (BMC Racing), Jan Barta  e Jose Mendes (Bora-hansgrohe), Felix Grosschartner, Lukasz Owsian, Branislau Samoilau e Michal Schelgel (CCC Sprandi Polkowice), Michael Woods (Cannondale-Drapac), Jérémy Roy (FDJ), Maxime Monfort (Lotto Soudal), Gorka Izagirre e Rory Sutherland (Movistar), Christopher Juul-Jensen (Orica), Laurens De Plus e Dries Devenyns (Quickstep), Natnael Berhane, Omar Fraile, Jacques Janse Van Rensburg, Kristian Sbaragli, e Daniel Teklehaimanot (Dimension Data), Martijn Keizer (LottoNL-Jumbo), Salvatore Puccio (Team Sky), Simon Geschke (Team Sunweb), Peter Stetina e Julien Bernard (Trek-Segafredo), Rui Costa, Valerio Conti e Jan Polanc (UAE Team Emirates), Julen Amezqueta, Matteo Busato e Ilya Koshevoy (Wilier-Selle Italia), e Sergey Firsanov (Gazprom-Rusvelo) . Estando os dois últimos nos 15 primeiros da geral, quando a fuga chegou a um máximo de 13 minutos, Polanc e Monfort colocaram em perigo os 2º e 3º lugares na geral de Nairo Quintana (Movistar) e Vincenzo Nibali. Por momentos, assim que fui seguindo o cenário de corrida, pensei que esta fuga pudesse ser a repetição da longa fuga outrora executada por Oscar Pereiro na 13ª etapa do Tour de 2006 quando o galego conseguiu, numa fuga muito consentida pela Phonak, recuperar vários minutos (27 se não estou em erro) de atraso na geral para Floyd Landis.

A Sunweb e a Quickstep de Bob Jungels não autorizaram tamanha situação de corrida nociva aos interesses dos seus líderes. No caso da formação belga, o que estava em disputa era o lugar de Jungels bem como a sua liderança no Prémio da Juventude. As duas equipas foram as que mais trabalharam na frente do pelotão para anular os 13 minutos adquiridos pelo grupo da frente, grupo que ia perdendo unidades ao longo da corrida. Na frente mantinham-se porém os candidatos à vitória. Rui Costa, Tejay Van Garderen, Gorka Izaguirre (vencedor de uma etapa na presente edição), Maxime Monfort, Jan Polanc, Julien Bernard, Pierre Rolland, Enrico Barbin e Omar Fraile cohabitavam algo fraternamente num grupo que era puxado a todo o vapor pelos pedais de Mohoric e Valerio Conti da UAE.

A estratégia da formação do ciclista português passava por tentar colocar um ritmo alto que dissuadisse qualquer ciclista de esticar o grupo. Omar Fraile tratou de arrumar a harmonia num canto quando abriu as hostilidades. Entre ataques, respostas e contra-ataques imediatos (Enrico Barbin, Valerio Conti em duas ocasiões, Gorka Izaguirre), Rui Costa ia respondendo como podia para acalentar a esperança de poder chegar na frente à parte final, de preferência em condições de disputar a vitória ao sprint visto que com boas pernas e muita poupança de energia, tinha a certeza (como veio a confirmar no sprint que “ganhou” para fechar na 2ª posição) que era o homem com a ponta final mais rápida do grupo. A corrida estava, como dizem os brasileiros, “boa demais” – teríamos espectáculo nos últimos quilómetros.

O português fez sempre uma boa leitura táctica da corrida até ao momento em que por excesso (Valerio Conti abriu novamente a corrida com um ataque quando deveria ter serenado os ânimos existentes em prol do trabalho para o qual foram encomendados os seus serviços: a vitória de Rui Costa) Pierre Rolland esperou pelo momento certo (a 8km da meta) para executar um fortíssimo ataque (chegou aos 800 watts de potência nos primeiros 300 metros) que lhe granjeou imediatamente uma vantagem para o grupo perseguidor na casa dos 25 segundos.

Na frente, o francês gozou da existência de um clima propício no grupo perseguidor, tendo em conta as suas aspirações. Os homens do grupo de Rui Costa (inclusive o português) acabariam por adoptar a estratégia errada quando ao invés de se unirem para perseguir o forte andamento evidenciado pelo francês, decidiram brincar ao gato e ao rato no terrível jogos das marcações, dos esticões e das provocações. O corolário do comportamento exibido haveria de ser o aumento da vantagem do trepador da Cannondale e a sua vitória na linha de chegada.

Rui Costa haveria de fechar na 2ª posição depois de bater toda a concorrência no “sprint dos derrotados”. O pelotão haveria de chegar com 7 minutos e 54 segundos de atraso, situação que levou a ligeiras modificações na geral individual

Classificação da etapa

Em Alta

Pierre Roland – Já diz o ditado que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” – o francês tem-se batido como um leão neste giro. Os constantes ataques realizados na montanha não foram bem sucedidos mas, a entrada na fuga durante esta etapa haveria de ser coroada com a vitória que o trepador francês tanto procurou. O ataque protagonizado pelo ciclista da Cannondale foi soberbo ao nível de potência (800 watts), não dando qualquer chance de resposta aos companheiros de fuga e os dados cardíacos (188 pulsações por minuto) que a televisão italiana cedeu aos telespectadores sensivelmente a 3 km da meta revelavam que o francês estava a dar tudo o que tinha para vencer a etapa.

Jan Polanc – Beneficiário directo da jogada táctica protagonizada pela Team UAE. Os 5 minutos e 40 acumulados pelo esloveno em relação a todos os ciclistas que compunham à partida o top 10 da geral, conduziu o esloveno ao 10º lugar da geral, relegando Adam Yates para fora do top10 no dia em que a Orica não mexeu uma palha na frente do pelotão para anular a diferença registada. No entanto, veremos se o esforço realizado pelo esloveno durante o dia de ontem não lhe sai caro já na terrível etapa de amanhã.

Classificação geral

Outras classificações – com a classificação da regularidade já entregue matematicamente a Fernando Gavíria

Montanha – Mikel Landa (Sky) continua a liderar o Prémio da Montanha. O espanhol tem 125 pontos contra os 108 de Luis León Sanchez da Astana e os 89 de Omar Fraile. O ciclista da Dimension Data marcou 4 pontos durante a etapa de hoje.

Sprints intermédios – Pavel Brutt (Gazprom) continua a liderar com 54 pontos. O russo pode obter 10 no primeiro sprint intermédio do dia. Daniel Teklehaimanot marcou 10 pontos no segundo. O eritreu tem agora 49 pontos.

Combatividade – Fernando Gaviria (Quickstep) continua a liderar com 57 pontos. Pavel Brutt (Gazprom) é 2º com 34. Jasper Stuyven da Trek é 3º com 33.

Prémio da Juventude – Bob Jungels perdeu muito tempo para Jan Polanc. O luxemburgês da Quickstep tem agora 1:58m de avanço para o ciclista da UAE, 2:25 para Adam Yates e 2:42 para Davide Formolo da Cannondale.

Por equipas – A Movistar continua a liderar confortavelmente com 34 minutos de avanço para a UAE e 51 para a Bahrain-Mérida

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