Giro de Itália – Etapa 18 – Tejay Van Garderen vence na chegada a Ortisei; Dumoulin, Quintana e Nibali concedem tempo na geral


Desenganem-se todos aqueles que ao longo dos últimos dias pensaram que a discussão pela vitória na 100ª edição do Giro está “fechada a 3 corredores” – qualquer descuido do trio da frente poderá incorrer a corrida na situação verificada durante esta tarde nos últimos km da subida para Ortisei (St Ulrich): a reentrada de Thibault Pinot (Française des Jeux), Ilnur Zakarin (Katusha) e Domenico Pozzovivo (AG2R) na luta pela vitória na prova. Se, no espaço de 3 km e uns pós, o trio, conseguiu sacar entre 58 segundos, no caso de Pinot e Pozzovivo, e 42 no caso do trepador russo da Katusha, ao trio que segue na frente da geral da prova (Dumoulin, Nairo Quintana e Vincenzo Nibali), se amanhã e sábado, persistir o clima de “marcação cerrada” e “diálogo” entre os 3 enquanto os outros ganham segundos na frente, poderemos ter um volte face surpresa na prova.

Noutra “corrida” completamente à parte, Tejay Van Garderen deu a 2ª vitória de etapa à sua BMC. O ciclista Norte-Americano tirou novamente o pão da boca ao chefe-de-fila da Sky Mikel Landa em cima da linha de meta (3ª derrota ao sprint para o espanhol na prova) num dia em que a Sky voltou “a dar tudo nas fugas” para conquistar a vitória na etapa.

Na região mais alemã da Itália (a província de Bolzano é uma região essencialmente montanhosa no Sul do Tirol onde cerca de 60% da população é de origem alemã e 30% falam o alemão como primeira língua; nos serviços públicos, a República Italiana autoriza que os cidadãos possam falar em alemão, italiano e no dialecto ladino dolomita), a organização decidiu desenhar uma etapa fantástica de elevada dureza com 5 contagens de montanha em apenas 137 km com um acumulado de altitude de 2871 metros. Um autêntico sobe e desce capaz de arrebentar com as pernas de todo o pelotão. Com 3 contagens (1 de 2ª categoria, 1 de 3ª e 1 de 1ª) nos últimos 60 km previa-se com relativa facilidade um cenário de corrida em grupo restrito para a segunda metade da etapa. Foi o que veio a acontecer quando Nairo Quintana mexeu com a corrida na passagem pela dolorosa 2ª categoria do Passo Gardena.

Tejay limpa a má imagem – Um final explosivo

Como seria também fácil de prever, a corrida iria ser atacada desde início pelos suspeitos do costume – os caça etapas que já não contam para a geral. O figurino do lote de fugitivos que se iria constituir na frente era à priori fácil de indicar. A etapa convidava a uma fuga constituída por nomes como Pierre Roland, Tejay Van Garderen, Mikel Landa, Dario Cataldo, Jan Hirt, Omar Fraile, talvez Rui Costa e um ou outro ciclista como Igor Anton ou Daniel Teklehaimanot, misturado com segundas linhas das equipas que tem corredores no top10 da geral. Não seria portanto de estranhar se vissemos ciclistas como Andrey Amador, Gorka Izaguirre ou Winner Anacona (Movistar), Robert Kiserslovki ou Giovanni Visconti (Bahrain-Mérida) ou Jeremy Roy (Française des Jeux) nas fugas – qualquer destes corredores poderia entrar na fuga com o intuito de fixar posição na frente para poder ajudar um eventual ataque do seu líder.

O figurino idealizado não andou muito longe do figurino efectivo da fuga do dia. Os primeiros a escapar ao pelotão logo nos primeiros 5 km da etapa foram Natnael Berhane (Dimension Data), Joey Rosskopf (BMC), Diego Rosa (Sky) e Manuele Boaro da Bahrain-Mérida. Passados alguns quilómetros, na abordagem para a subida a Passo Valparola juntar-se-iam um grupo de 14 ciclistas constituído por Mikel Landa e Phillip Deignan (Sky),  Joe Dombrowski e Davide Villella (Cannondale-Drapac), Rubén Plaza (Orica), Omar Fraile (Dimension Data), Jasper Stuyven e Mads Pedersen (Trek), Dario Cataldo (Astana), Kanstantsin Siutsou (Bahrain-Merida), Jan Hirt (CCC), Andrey Amador e Winner Anacona (Movistar) e Alexander Foliforov (Gazprom – Rusvelo). Mais uma vez, tanto a Orica como a Movistar fizeram questão de adiantar unidades que poderiam ser benéficas em caso de ataque dos seus líderes cá atrás no pelotão. Andrey Amador acabou por servir em certa parte os interesses do seu director desportivo Eusébio Unzué quando a páginas tantas, na 3ª montanha do dia, Nairo Quintana decidiu mexer com a corrida.

Numa situação de corrida palmilhada em grupo restrito com os ciclistas do top10, havendo uma ou outra presença de um gregário no grupo, o colombiano esticou a corrida bem cedo. Voltando a adoptar uma táctica muito utilizada pela Movistar (nas suas vitórias no Tirreno-Adriático, por exemplo), NairoMan tentou atacar de longe quando os ciclistas estavam a 54 km da meta na subida para a 2ª categoria de Passo Gardena. Gorka Izaguirre acelerou o passo no grupo principal e o colombiano não se fez rogado quando chegaram as rampas mais difíceis da subida. Andrey Amador desceu rapidamente para auxiliar o colombiano nos seus esforços, dando a impressão num primeiro momento que o ataque (sem qualquer resposta por parte de Nibali ou Dumoulin) poderia ser o momento chave da corrida. O colombiano chegou a ter 25 segundos de vantagem para o grupo perseguidor, situação de corrida que não agradou ao holandês da Sunweb. Nesse preciso momento, Tom Dumoulin pediu aos outros corredores presentes que o ajudassem na perseguição. Como resposta da parte de Vincenzo Nibali, o holandês recebeu um ataque que teve de seguir. O chefe-de-fila da Bahrein-Mérida fez um corte a fundo no grupo principal, mas, a pouco e pouco, todos os contenders acabaram por chegar a Nairo Quintana porque o ritmo imposto por Amador não foi de longe o melhor para as pretensões do colombiano. Arrisco-me a dizer que este poderia ter ganho facilmente um minuto se tivesse investido a solo.

Entre os vários ciclistas da fuga inicial que iam alcançados estava Ruben Plaza. O espanhol, gregário de luxo de Adam Yates na prova, acabaria por tentar encetar com o ciclista britânico uma descida sensacional para a 4ª dificuldade do dia, a subida de 4200 metros à 3ª categoria do Passo di Pinei. Enquanto lá na frente, Diego Rosa deixava o seu líder sozinho depois de ter trabalhado durante vários quilómetros numa situação de corrida mais reduzida com Landa, Berhane, Dumbrowski, Davide Villela, Van Garderen e Hirt, cá atrás, no grupo dos favoritos, Bob Jungels despedia-se das grandes decisões. O luxemburguês acabou por perder quase 4 minutos nesta etapa, resultado que conduziu Adam Yates à liderança do Prémio da Juventude. Nesse grupo, para além dos respectivos chefes-de-fila ainda estavam no grupo principal ciclistas como Sebastien Reichenbach (FDJ), Hubert Dupond (AG2R), Kanstantin Siutsou (Bahrain-Mérida), Winner Anacona e Andrey Amador e Robert Kiserslovski.

Chegou a haver ali um momento de etapa em que Mikel Landa, Tejay Van Garderen e Jan Hirt estiveram à mercê do grupo principal. A 20″ de diferença na descida para a última contagem de montanha, Landa teve que se mexer para levar a fuga até aos seus propósitos finais.
Iniciada a subida para Ortisei com o duo final de fugitivos na frente, foram várias as vezes que Tejay quis colocar Landa para trás. O espanhol conseguiu defender-se muito bem quando o chefe-de-fila da BMC conseguia cavar alguns metros de vantagem.

Lá atrás, a Movistar tomava conta das operações. Andrey Amador punha um ritmo aceitável no pelotão (nem muito lento nem muito rápido) que interessava a todos menos ao seu líder. Com um andamento mais solto a partir dos 7 km finais, a Movistar tinha a lição bem estudada visto que as rampas mais duras da subida final começavam precisamente nesse ponto. Com uma subida mudança de ritmo, Andrey Amador ganhou alguns metros ao grupo, facto que indiciava que o ataque de Nairo estava próximo. E estava mesmo.

O colombiano voltou a sair disparado do pelotão para apanhar a roda do seu companheiro. Nibali, Dumoulin, Pinot, Mollema, Kruiswijk, Yates e Zakarin e Pozzovivo prefiram novamente não ir ao choque, colocando um ritmo alto que permitiu alcançar o colombiano ligeiramente mais à frente. Com Sebastien Reichenbach presente no grupo seria de desconfiar a possibilidade de virmos a ter um ataque de Thibault Pinot. Desconfiados, todos os ciclistas começaram a abrir para o lado para “pressentir mais facilmente os ataques que viriam a surgir” – Nibali e Dumoulin tentaram dar os seus esticões. Com duas investidas muito fortes que efectivam revelaram “saúde” para dar e vender, o holandês brincou com os seus concorrentes – Nairo e Nibali não deram um palmo ao holandês. No meio deste jogo muito táctico, quem haveria de ver vantagens seria Thibault Pinot. Com um ataque forte, o francês arrastou consigo Domenico Pozzovivo, fazendo despoletar a resposta imediata dos ciclistas que se seguem nos lugares posteriores da geral. Com alguma facilidade, Zakarin, Mollema e Kruisjwijk também puderam sair de forma a tentar minorizar as perdas para os ciclistas das equipas francesas.

O que parecia ser um ataque para ganhar uns segundos de forma a fazer aproximar este grupo de ciclistas do 3º lugar de Vincenzo Nibali acabou por se tornar num caso sério. Cá atrás, enquanto os da frente ganhavam tempo, Tom Dumoulin iniciou um diálogo com Vincenzo Nibali e Nairo Quintana. Visivelmente irritado, o holandês fazia gestos a convidar os 2 adversários a passar para a frente do grupo. A brincadeira acabou por sair cara. Nibali e Quintana recusaram-se a passar para a frente (o cenário de corrida até acabava no fundo por ser bom porque ao fazer reentrar 3 ciclistas na discussão pela vitória na prova nas 2 etapas de montanha que restam, a Movistar e a Bahrain terão nas equipas de Pinot, Pozzovivo e Zakarin aliadas para os seus “interesses comuns”) e teve que ser o holandês a puxar para reduzir a diferença somada rapidamente por Pinot.

Na discussão pela etapa, Tejay Van Garderen haveria de ser mais rápido que Mikel Landa. A 7 segundos dos dois chegou Pinot com Pozzovivo. Se a subida tivesse mais 500 metros, teríamos decerto um final a 4.

Classificação da etapa

Em alta

Tom Dumoulin – Mais uma vez me pareceu que o holandês é o ciclista mais forte e em melhor forma deste Giro de Itália. Se o ciclista da Sunweb quisesse atacar a fundo, estou certo que deixaria Nairo e Nibali para trás. No entanto, como vão poder ver nas declarações em baixo, creio que a superioridade na estrada está a fazer subir alguma febre à cabeça do holandês.

via Cycling News

As diferenças actuais entre Dumoulin e toda a concorrência ainda não permitem ao ciclista da Sunweb cantar de galo. Se eventualmente amanhã tiver um dia mau à semelhança daquele que teve na terça-feira, o holandês poderá ficar matematicamente fora da corrida. Se continuar assim, ou até mesmo se perder 2 minutos\2 minutos e meio para a concorrência, creio que o holandês irá recuperar a Maglia Rosa no crono marcado para a última etapa. Mas Quintana quer rebentar Dumoulin. O colombiano tem excelentes intenções e está predisposto a atacar. As pernas é que não parecem estar no melhor estado.

Thibault Pinot – O francês tinha que fazer alguma coisa para poder ainda sonhar pelo menos com o pódio. Ataque forte e oportuno. A sua prestação durante o dia de amanhã será crucial.

Domenico Pozzovivo, Bauke Mollema, Ilnur Zakarin e Steven Kruisjwijk – Excelente resposta a Thibault Pinot. A Pozzovivo e Ilnur Zakarin ainda está aberta a possibilidade de lutar pela vitória. Mollema poderá eventualmente lutar por um lugar no top 5. Kruiswijk cimentou um lugar no top 10 no dia em que Bob Jungels, Adam Yates, David Formolo e Jan Polanc perderam tempo. O 8º lugar já não deverá escapar ao holandês da Lotto-Jumbo

Tejay Van Garderen – A maior desilusão da prova realizou o trabalho que lhe competia: vencer uma etapa de montanha.

Mikel Landa – Mais uma vez é de aplaudir o esforço do chefe da Sky. Está a ter muito azar.

Sebastien Reichenbach – Preciosa ajuda a Thibault Pinot durante a etapa de hoje.

Winner Anacona e Andrey Amador – Incansáveis na ajuda a Nairo Quintana. Merecem uma generosa fatia do bolo que a equipa amealhar em prémios monetários. Se o colombiano ganhar a prova, devia dividir os louros com os seus dois gregários.

Em baixa

Bob Jungels – O luxemburguês precisa de amadurecer ainda mais um bocado nas provas de 3 semanas para ser eventualmente um corredor capaz de lutar pela vitória na geral. Não sabe gerir o seu esforço, acabando por ser irregular. Perdeu o prémio da Juventude para Adam Yates. Terá que reagir amanhã.

Jan Polanc – Pagou o esforço de ontem, averbando tempo importante para os seus mais directos rivais no Prémio da Juventude. Está fora deste e da possibilidade de entrar no top10. A não ser que volte a escapar amanhã.

Classificação geral

Outras classificações – exceptuando a classificação dos pontos, classificação em que Fernando Gaviria já tem a vitória matematicamente garantida.

Montanha – Mikel Landa (Sky) poderá ter dado durante o dia de hoje um passo seguro para a vitória no Prémio da Montanha. O espanhol somou 50 pontos durante o dia de hoje. Omar Fraile somou 15. Luis Leon Sanchez (Astana) não somou qualquer ponto. Landa lidera com 189 pontos contra os 108 de Luis León Sanchez e 104 de Fraile. Nas próximas etapas está um máximo de 132 pontos em disputa, sendo que 105 estão em 1ªas categorias no fim das etapas. Assumindo que Landa marcará novamente presença nas fugas dos próximos dias porque quer finalmente vencer uma etapa, creio que temos esta classificação resolvida.

Sprints intermédios – Pavel Brutt (Gazprom) continua a liderar com 54 pontos, mais 5 que Daniel Teklehaimanot (Dimension Data) e mais 15 que Eugene Zhupa da Selle Italia. Restam 4 sprints intermédios em disputa. Quem quiser defender ou vencer esta categoria terá obrigatoriamente que entrar nas fugas durante o dia de amanhã.

Combatividade – Fernando Gaviria continua a liderar com 57 pontos, vendo a aproximação subita de Mikel Landa. O espanhol saltou para a 2ª posição com 50 pontos. Se entrar numa fuga amanhã, Landa confirmar-se-à decerto como vencedor do prémio para o ciclista que lutou mais durante a prova.

Juventude – Adam Yates assumiu a liderança. O ciclista britânico tem agora 28 segundos de vantagem para Bob Jungels. Davide Formolo está a 53 segundos. Tudo está em aberto. Jan Polanc está a mais de 5 minutos. Está fora.

Por equipas – A Movistar confirmou praticamente a sua vitória na geral colectiva. A 2ª classificada (Bahrain-Mérida) está a 57 minutos de diferença. A Cannondale subiu ao 3º posto a 58 minutos da formação espanhola. A última é a Bardiani a mais de 9 horas da liderança.

 

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