Um despedimento injusto


Em Abril deste ano, Petit substituiu Augusto Inácio no comando técnico do Moreirense. Tendo sido incumbido da enorme responsabilidade de tentar salvar o clube da descida de divisão nas 8 jornadas finais da Liga, feito semelhante ao que tinha alcançado (com um maior grau de dificuldade e com menos recursos do que os que possuía na equipa de Tondela, é certo) na temporada anterior quando salvou miraculosamente o Tondela da descida, o treinador deparou-se com um autêntico estado da calamidade no clube de Moreira de Cónegos.

Na ressaca da histórica conquista da Taça da Liga, a perda de dois jogadores influentes (talvez os mais influentes da equipa; Geraldes e Podence), culminou com um ciclo de 7 jogos sem vencer com Inácio. Apesar da situação não ser tão dramática (a turma de Moreira de Cónegos estava com uma vantagem de 4 pontos sobre Tondela e Nacional) como a que tinha encontrado em Tondela, à entrada para a 26ª jornada, os Cónegos tinham o seu plantel “mutilado” (é sempre difícil alterar rotinas construídas durante meses com a presença de determinados jogadores) e psicologicamente destroçado. O calendário também não ajudava. Nas 8 jornadas remanescentes para o final do campeonato, a formação de Moreira de Cónegos tinha que enfrentar Benfica, Porto e Braga em casa (em teoria 9 pontos perdidos) e dois rivais directos na luta pela manutenção fora de portas (Nacional e Arouca). 
Petit não viria a alterar drasticamente a situação. Iniciando a sua campanha com duas derrotas (Vitória de Setúbal fora e Benfica em casa), o técnico foi capaz de moralizar as tropas para as últimas 6 jornadas. A formação do concelho de Guimarães viria a conseguir 12 pontos em 6 jornadas, fruto de 3 vitórias (Porto e Braga em casa; Nacional fora) e de 3 empates contra o Chaves, Arouca e Belenenses. Os dois últimos acabariam por ser dramáticos com o Moreirense a ter que recuperar de uma desvantagem de 0-2 ao intervalo em Arouca e de 0-1 (com um jogador a menos) em Belém.

Na última jornada, a categórica vitória sobre o Porto selava final feliz que foi devidamente comemorado pelos jogadores quando carinhosamente despejaram um balde de água fria pela cabeça do seu treinador na sala de conferência de imprensa do Estádio Comendador Joaquim de Almeida Freitas. Sei de fonte segura, desde a passagem do técnico por Tondela, que nenhum jogador tem uma razão de queixa a apontar em relação ao treinador. Todos gostaram de trabalhar com o antigo internacional português. O técnico pode não ser o melhor ou até um dos melhores treinadores portugueses ao nível metodológico, pode não ser um expert no desenvolvimento técnico de um jogador ou na construção dos processos ofensivos das equipas que vai orientando. Mas tem duas ou três qualidades que o diferem de muitos treinadores: é comunicativo – sabe falar com os jogadores, ouvir os jogadores. É moralizador. Incute aquela garra que o caracterizou como jogador nas suas equipas. Pede aos seus atletas para jogarem no limite. E eles jogam. Em 3 anos, salvou 3 clubes da descida.

O feito alcançado não foi suficiente para a direcção da equipa de Moreira de Cónegos. Petit foi convidado a sair. Sem apelo nem agravo depois do que fez na recta final do campeonato. Não tendo grandes possibilidades para mais, vários são os dirigentes que colocam a carroça à frente dos bois. Olhe-se o exemplo que citei aqui neste blog a propósito de Carlos Pinho do Arouca. Os seus sonhos são muitas vezes transformados em ambições imcomportáveis para a realidade (financeira) dos clubes que dirigem. A contratação do tarimbado Manuel Machado revela acima de tudo um certo tipo de desejo que por norma termina em desgraça: a qualificação para as competições europeias. Petit seria a escolha mais acertada: desenvolveu rotinas com o actual plantel do Moreirense. Tem o trabalho de casa feito. Alcançou resultados. Conhece os pontos fortes dos jogadores que possui e sabe onde é que pode acrescentar valor com a entrada de reforços. O Moreirense abdicou portanto de um treinador que lhes dá garantias reais de manutenção em prol de um tiro no escuro. Machado tanto pode dar como pode resvalar, como pudemos assistir no Nacional e no Arouca, na descida de divisão.

Machado é um excelente treinador. É um treinador com uma metodologia de treino incrível. Há 10 anos atrás, quando orientava a Académica, confesso que era um habituée nos treinos abertos ao público da Briosa. Em várias ocasiões dei por mim a pensar o que é que seria de Manuel Machado se um dia pudesse orientar um grande do futebol português. Os seus exercícios e a forma em como corrigia os jogadores quando estes cometiam erros na execução dos exercícios, fazia-me acreditar que estava perante um agente 20 anos à frente do seu tempo. Mas, Manuel Machado é por outro lado um treinador a puxar para o carote. Só gosta de jogar com matéria prima digna de finesse, escolhida a dedo. O Moreirense não tem obviamente recursos financeiros para trazer jogadores “nível médio alto” – esses, preferem rumar a outras paragens (Braga, Guimarães, Marítimo, Rio Ave) porque são efectivamente mais bem pagos nesses clubes. Quando Machado trabalha com a matéria prima que lhe dão, o resultado por norma é negativo. As expectativas depositadas vão perdendo intensidade ao longo da temporada e as suas equipas acabam sempre a tremer. Isto é, se Machado não for imediatamente vítima das opções de quem o escolheu.

Parece-me evidente que o Moreirense poderá ter dado um passo atrás.

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