Adeus Imperador! Sem ti, não teremos mais divertimento


No Totti, no Party! Parte um jogador que me acompanhou ao longo do meu crescimento enquanto ser humano. Vi-o pela primeira vez em campo aos 8 anos. Vi-o pela última vez num momento em que estou a escassos dias de realizar 30. Pelo meio, vi 22 anos de maravilhas. Vi 22 anos de puro romantismo, carisma e de pura liderança em campo. Vi um dos grandes fenómenos do futebol, um daqueles futebolistas que irá perdurar para sempre no Olimpo da modalidade. Um daqueles capazes de realizar façanhas que nos levarão daqui a uns anos a contar aos nossos netos: sim, vi este jogador jogar várias centenas de vezes. Sempre bem. Direi sempre aos meus filhos e netos que jogou bem. Até mesmo não fazia um vistão, jamais poderíamos dizer que jogava mal.

Totti era um daqueles que tinha sempre uma palavra a dizer, uma presença que impunha respeito a qualquer adversário, um passe a colocar no momento certo, uma cartola cheio de truques de magia, um sinistro remate pronto a beijar as redes adversárias. 

A linha do Rei de Roma chegou ao fim! Foram 786 partidas de maglia Giallorossi vestida no corpo. 306 golos. O futebol, a AS Roma e a própria cidade de Roma ficam mais pobres. Não é todos os dias que vemos, no futebol moderno, partir alguém que dedicou 28 anos da sua vida a uma Instituição. Numa modalidade em que o dinheiro reduziu o amor a uma camisola a patacos, foi simplesmente admirável o que Francesco Totti fez ao longo de quase 3 décadas no clube Romano. Com várias oportunidades para sair do clube, porque, a bom da verdade, existiram vários momentos em que o jogador poderia ter saído da AS Roma para clubes que para além de projectos mais atractivos daqueles que eram oferecidos pelos Romanos (durante várias temporadas, o jogador teve que gramar com projectos muito medíocres, impossibilitando-o de colocar mais scudettos no seu enorme legado), poderiam efectivamente pagar-lhe mais, Totti recusou-se a deixar o grande amor da sua vida. Não era e nunca foi uma questão de dinheiro, era sim, uma questão de Paixão de um homem por um clube. No futebol diz-se muitas vezes, a propósito da importância das instituições que os nomes passam mas as instituições ficam. Neste caso concreto, o nome fica e a Instituição vai sendo passada de mão em mão. A importância de Totti na construção da Roma moderna é por demais evidente e importante, fundindo-se em várias páginas de história.

Carta especial da colecção Calcio 2001 (edições Mundicromo) – uma das várias cartas icónicas do meu espólio pessoal de coleccionador.

Vários são os momentos que poderia reproduzir aqui para enaltecer as várias metamorfoses do camaleão posicional. De Trequartista a Finto Nuove, Totti foi um dos jogadores mais completos que vi jogar: elegante, rápido, inteligente a pensar o jogo, inteligente a medir os tempos de jogo, acelerando-o quando via na aceleração uma vantagem sobre o adversário, travando-o quando necessário, capaz de segurar a bola como ninguém, possante quando tinha que o ser e frio na hora de assistir ou de finalizar. O seu remate em potência era efectivamente qualquer coisa do outro mundo. Era um jogador que não pedia licença para rematar de qualquer canto e esquina.

Durante a sua longa carreira, foram vários os momentos de magia. Poderia aqui destacar a conquista do campeonato do mundo, auge da carreira de qualquer jogador de futebol. Destaco o que a meu ver sempre me pareceu o maior: o dia em que o jogador conquistou o seu primeiro e único scudetto na temporada 2000\2001 num ano em que Francesco Totti foi a peça de engrenagem de um Roma de Ouro com Gabriel Omar Batistuta, Cafu, Aldair, Walter Samuel, Cristiano Zanetti, Marcos Assunção, Eusébio Di Francesco, Emerson, Nakata, Damiano Tommasi, Vincenzo Montella, Abel Balbo e Marco Delvecchio. Lembro-me perfeitamente como se tivesse sido hoje aquela tarde de 17 de Junho de 2001:

Posso-me considerar de certa forma um sortudo. O meu pai sempre trabalhou arduamente para que eu pudesse ter aquilo que ainda hoje se considera um luxo em muitos lares deste país: Sporttv. A Sporttv era na altura uma das raras janelas que possuíamos neste país para o Mundo do Futebol. Ver um grande jogo da Liga Italiana transportava-me para um cenário admirável de fantasia, de sonhos. O meu maior sonho na altura era ser rico o suficiente para poder andar de estádio em estádio a ver os grandes do futebol mundial.

Naquela tarde de Junho de 2001 eu tinha acabado de fazer 14 anos. Não sendo especialmente um entusiasta da Roma (a minha preferência na liga italiana sempre foi a Fiorentina com um travo de gosto pelos clubes de Milão pela chuva de estrelas que possuíam nos seus planteis) lembro-me perfeitamente que assim que Totti inaugurou o marcador, também eu dei um pulo do sofá para festejar o golo dos romanos, tomando a efusiva festa que se fez pelo Olímpico de Roma como minha. A Roma vivia naquele dia o que eu acabara também de viver 1 ano antes com o Sporting: a vitória num scudetto após um longo período de travessia no deserto que durou 18 anos. 18 longos anos. Os mesmos que o Sporting demorou para conquistar um título de campeão nacional. Nesse dia pensei: tal como eu havia sentido 1 ano antes com a histórica vitória dos Leões, havia milhares de miúdos da minha idade que por um dia sentir-se-iam os donos do Mundo. Havia quem naquele dia haveria de esquecer 18 anos de tristeza para chorar de alegria. E só Deus sabe o quanto sofremos pelo nosso clube durante anos a fio quando este anda arredado das vitórias. Só Deus sabe o que nos leva a ser de um clube nesses ciclos. Só Deus sabe o orgulho que continuamos a guardar no coração.

A partida da 2ª mão dos oitavos-de-final da Liga Europa frente ao Lyon foi efectivamente a última em que pude ver a entrada do Rei em directo. A Roma precisava de um golo para eliminar os franceses quando Luciano Spalletti colocou o jogador em campo. Torci para que fosse ele a marcar o golo da passagem à eliminatória seguinte. Totti merecia sair pela porta grande. Foi um dos melhores da nossa era. Eternizar-se-à nos nossos corações. Adeus Imperador! Foi um prazer!

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