Ambições completamente surreais para a realidade do clube


O arraial foi montado no Calhabé. Com toda a pujança e irreverência coimbrã, um presidente à procura da sua sobrevivência política foi buscar um treinador (Ivo Vieira) com um currículo bastante engraçado nas últimas 3 temporadas. Uma passagem bastante razoável pelo seu clube do coração, o Marítimo, e uma subida à 1ª Liga pelo Desportivo das Aves na temporada que agora tem o seu fim, fizeram pular os corações de todos os adeptos da Briosa: “é para subir, vamos subir, porque nós temos de estar na 1ª liga” – não sei qual foi o projecto vendido ao treinador que, segundo as palavras do presidente, foi, em virtude do feito alcançado, foi o “mais cobiçado do defeso” (vide a notícia na edição de hoje do Diário de Coimbra) – mas sei que para já, existem uma série de condicionantes internas que devem ser observadas por quem tem o dever de papar a informação que nos é dada, para que não se gerem ambições e expectativas completamente surreais para a realidade da Académica. As mesmas que foram depositadas no ano passado aquando da contratação de Costinha.

ín Record Online

“Se não fosse para subir não estaria aqui de certeza. A grandeza deste clube reflecte-se no número de pessoas que aqui estão presentes. Visitei a academia, que tem as condições mais do que suficientes para fazermos um bom trabalho e conseguirmos os nossos objectivos. Um clube com estas condições não pode estar nesta divisão”

Esperemos que a visita ao estádio e ao Bolão tenha sido realmente profícua para perceber o lastimável estado das contas do clube à conta das pessoas que fazem do clube grande. Uma parte da inexistência de um projecto sólido reside precisamente aí. É que o clube é mesmo grande! Se considerarmos que neste momento a Académica têm, entre o estádio, Loja, e centro de estágios, 42 funcionários, aos quais acrescem 21 jogadores com contrato previsto para a próxima temporada e mais de 3 dezenas de treinadores devidamente inseridos no payroll do clube. Estamos a falar de uma folha de pagamento que inclui 100 pessoas! Para termos uma ideia, só em pessoal não-desportivo, os chamados “acantonados do Bolão e da Loja” a Académica gasta 700 mil euros por ano. Este número é interessante se compararmos com os 22 profissionais não-desportivos que possui o Desportivo das Aves, o clube que Vieira orientou no último. Sei de fonte segura que o Aves gasta cerca de 320 mil euros anuis com staff não-desportivo, e que os custos de manutenção das suas infraestruturas são inferiores em cerca de 600 mil euros por ano aos da Académica. Falamos portanto de uma diferença considerável de gastos operacionais na ordem dos 920\950 mil euros por ano, aquela diferença que permite a um clube poder ter os recursos financeiros necessários para poder ter a massa qualificada necessária para atacar uma subida de divisão. No caso da Académica, os 380 mil euros marginais que são esbanjados em empregados que passam o dia inteiro sem, queiram-me perdoar a expressão, fazer ponta de um chavelho, permitiriam desenvolverainda mais a formação, dotando-a de melhores técnicos (profissionalizando-os, de preferência) e de melhores equipamentos para a formação, factor que obviamente poderá consumar-se em ganhos desportivos e financeiros num futuro a médio prazo. Uma formação que trabalha melhor com matéria prima mais qualificada é uma formação que garante o futuro desportivo e financeiro de uma casa. Como sabemos, a Académica não tem conseguido facturar grandes vendas ao longo dos últimos anos. Nas últimas 10 temporadas, a Briosa facturou 9,13 milhões de euros (913 mil euros de média por ano), sendo que 2,15 milhões são respeitantes às últimas 5 temporadas. É urgente reverter esta situação para existir portanto, uma maior sustentabilidade.

Um plantel formado por jovens da formação e jogadores experientes – ajustes de 1 jogador por posição para colmatar eventuais necessidades. Tem o clube condições para formar um plantel competitivo, e sem investir em demasia para não agravar a sua pesada massa salarial?

Vamos analisar à lupa as situações contratuais dos jogadores que fazem parte da órbita do clube. Entre certezas e incertezas, a Académica tem neste momento 21 jogadores sob contrato para a próxima temporada.

Comecemos pela baliza: Ricardo Ribeiro e João Gomes são dois guarda-redes que garantiram a permanência no clube. Ricardo é um guarda-redes muito sólido, mas, João Gomes não é uma alternativa viável para segundo guarda-redes. Terá que ser acrescentado um bom suplente para ombrear competitivamente pela titularidade com Ricardo. José Costa tem o seu futuro indefinido, podendo vir a renovar.

Na defesa,  João Real, Nuno Esgueirão, Yuri Matias, João Correia, Alfaiate, João Simões, Hugo Ribeiro não dão garantias para uma subida de divisão. Alguns destes nomes, nem são equacionáveis para uma equipa que queira subir de divisão. Com Tripy fora da Académica (salário proibitivo) e 2 dispensas praticamente consumadas (Willian Gustavo e, Pedro Correia), a Académica precisará de ir procurar pelo menos 1 solução para a lateral direita e duas para a lateral esquerda, isto é, se Ivo Vieira não quiser ir buscar outro central tarimbado. Estamos perante um caso em que terão que ser contratados 3 laterais de valia e mais 1 central que poderá ser de média ou média\alta qualidade para o contexto de 2ª liga, se o treinador assim o entender.

No meio-campo, o panorama actual é caótico. Tom, Ki, Taborda e Fernando Alexandre são os únicos jogadores com contrato para a próxima temporada, mas duvido que o trinco queira voltar a Coimbra, preferindo portanto, voltar a procurar uma solução de 1ª liga para o seu futuro. O seu salário também é proibitivo para os cofres da Académica. Sem futuro definido estão jogadores como Kaka, Nuno Piloto, Leandro Silva, Jimmy, Diogo Castro, Lagoa e Henrique Gonçalves – se Piloto e Leandro Silva continuarem, o problema poderá ficar resolvido. Os restantes deverão ser naturalmente dispensados. Mesmo assim, para arriscar uma subida de divisão, Ivo Vieira precisará de contratar mais dois jogadores, dependendo do esquema táctico que poderá vir a trabalhar. Se trabalhar num 4x4x2 com duplo pivot, as renovações de Nuno Piloto e Leandro Silva (se um novo empréstimo ou cedência em definitivo for desbloqueada) poderão ajudar a não ter que ir ao mercado buscar 2 jogadores ao mercado mas pelo menos 1. Se alinhar num esquema táctico diferente, Ivo Vieira poderá ter que pedir um bom médio defensivo e\ou um bom médio ofensivo, mantendo-se coeteris paribus as situações das renovações de Nuno Piloto e Leandro.

A frente de ataque é um dos menores problemas do treinador. Marinho, Rui Miguel, Traquina, Diogo Ribeiro, Leandro Cardoso, Vidigal, Dany Marques estão sob contrato. Não ficarão todos porque nem todos tem qualidade para pertencer neste momento a um clube com as aspirações declaradas, mas Marinho, Rui Miguel, Traquina, Leandro e Vidigal dão todas as garantias necessárias para se formar uma interessante frente de ataque. No lote dos equacionáveis estão Nuno Santos, Ernest, Ni Plange, Tozé Marreco – o extremo de 36 anos não deverá renovar. Ernest deverá regressar a Moreira de Cónegos – Ni Plange e Tozé poderão ficar desde que baixem os seus respectivos ordenados, cenário que na minha óptica não deverá acontecer porque são jogadores com algum mercado na 1ª e na 2ª liga. Em todo o caso, a equipa necessitará pelo menos de mais 2 avançados.

Na minha modesta opinião, Ivo Vieira precisará obrigatoriamente de ir recrutar 8 a 10 jogadores. É portanto nesta parte que entra a questão do dinheiro. Se a Académica parte com uma média de 1 milhão de euros de gastos operacionais em relação aos adversários, sem contar com os gastos com a sua pesada folha salarial ao nível de agentes desportivos, e tomando em conta as suas parcas receitas (pelo menos saberemos que o clube poderá neste capítulo ajustar-se visto que no ano passado padeceu da natural quebra de receitas verificada em virtude da descida de divisão),  pergunta-se onde é que o clube que teve que vender a sua própria sede, terá possibilidades de ir buscar a “experiência” que o treinador pede? É que a experiência, na 2ª Liga, não se paga com um ordenado de 750 euros mas sim com um ordenado não inferior a 2500 euros. Essa é portanto, outra das questões de fundo que me faz crer que o discurso evidenciado durante o dia de ontem pelo presidente e pelo treinador não passa de um redondo folclore para entreter e chamar pessoas ao estádio, vendendo a banha da cobra.

Poderá a Académica endividar-se ou deverá ser adoptada durante esta ano uma postura de contenção, para atacar a subida no próximo ano?

Eu creio que a direcção deveria pensar numa postura de contenção. Vem aí uma fornada de talentos da formação, fornada que precisa de rodar por empréstimo no CNS para fazer a devida transição do escalão júnior para o escalão sénior. A direcção ganha um ano para dispensar colaboradores de forma a diminuir os gastos operacionais. Pede-se portanto que Pedro Roxo tenha a capacidade de negociar a rescisão de funcionários por mútuo acordo. O clube poderá tentar dispensar toda a “dead wood” que aufere acima de 2500 euros para poder respirar mais um pouco, procurando não comprometer para já a manutenção. Outro trabalho de fundo tem que ser efectivamente prolongado. O clube precisa de se voltar a ligar à universidade. A universidade tem 20 mil potenciais clientes. O estabelecimento de uma modalidade de associado exclusiva para estudantes não é um desrespeito por todos os sócios que pagam as pesadas quotas que o clube oferece, é uma oportunidade de negócio que poderá render entre 250 mil a 1,2 milhões de euros anuais se por exemplo seja vendido um pacote de temporada (constituição de novo sócio + bilhete de temporada) na ordem dos 60 euros. Convenhamos: os preços praticados pelo clube ainda são proibitivos para muitas bolsas. A Loja deverá ser encerrada ou diminuída nas suas valências, abrindo só em dias de jogo. Os corporates tem que ser rentabilizados. Os acessos à zona vip diminuídos. A verdade é esta: quem quiser ir comer à pala para a zona vip vai.

E

O clube precisa obrigatoriamente de repensar o seu projecto de gestão. A constituição de uma SAD não é uma necessidade, é uma obrigatoriedade do futebol moderno. O clube precisa de um parceiro capaz de injectar um conjunto de mais-valias que não passam apenas por capital para fazer face às necessidades. O clube precisa de alguém que perceba (ou que disponha de posses para ir buscar esse know how) de gestão desportiva. Isso implica obviamente a contratação de um bom gestor com provas dadas e de um director desportivo capaz de trabalhar num vasto conjunto de estratégias a médio e longo prazo. O clube não tem actualmente dois profissionais deste calibre, sendo constantemente ocupado por dummies armados ao pingarelho que de bola percebem muito pouco, não sabendo por vezes distinguir um 4-4-2 tradicional de um 4-4-2 em losango.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s