Jorge Mendes pode não mandar mas decide


Ainda há bem pouco tempo, o antigo director desportivo do Valência Roberto Ayala fez umas declarações bastante pertinentes sobre este assunto. Nestas declarações, o antigo futebolista argentino, agente que foi incumbido de ser o director desportivo do clube ché na viragem para a “gerência” do singapurenho Peter Lim, contou-nos o esquema que Jorge Mendes “monta” nos clubes com os quais tem boas relações:

“De repente vi que havia coisas que não estavam bem. Havia um triângulo perigoso entre o dono [Peter Lim], o treinador [Nuno Espírito Santo] e Mendes, o agente. Um triângulo que não ia ajudar o clube. O plano inicial era perfeito: uma secretaria técnica que avaliava todo o mercado à procura do que melhor se adaptava ao clube, o corpo técnico para potencial o jogador e o representante mais hábil do mundo para depois negociar esse produto. Mas não entenderam assim. Compraram com preços altos e eu não podia compartilhar esse tipo de gestão”

Roberto Ayala a 13 de Fevereiro de 2017

Eis o esquema com que Mendes fez escola no futebol mundial.No futebol moderno, existe um factor determinante para o sucesso dos clubes-sociedade: a existência de um agente (interno ou externo ao clube; director desportivo ou agente de jogadores) capaz de possuir e movimentar uma série de valências e factores fundamentais para o sucesso desportivo e financeiro dos clubes-sociedades. Estas valências e factores são: capacidade de descobrir talento, experiência de gestão desportiva, conhecimentos no mundo do futebol e conhecimentos na área financeira. Quando um clube tem um profissional com estas valências, pode-se dizer que o seu futuro, financeiro e desportivo está assegurado. Ou seja, este profissional terá que ser um connaisseur de talento futebolístico (terá obrigatoriamente de saber identificar o talento; o que não quer dizer que não possa ter um ou dois profissionais dedicados a esta missão, recomendando-lhe talento) que possa ser adquirido “para render desportivamente e financeiramente” ao mais baixo custo possível na sua aquisição (gestão desportiva) com recurso preferencial ao investimento de um terceiro que tenha capital para investir, podendo este último ser um investidor ou um mero parceiro financeiro do clube. Não o podemos negar: Mendes é um desses agentes. Para além da enorme máquina que tem a trabalhar para si nas suas empresas, o empresário possui um vastíssimo leque de conhecimentos no mundo do futebol e no mundo do Grande Capital. No entanto, as vendas que são intermediadas por Jorge Mendes são por norma realizadas por preços muito inflaccionados. Por ora, não vou abordar essa questão remetendo-a para uma explicação que farei mais abaixo.

Mendes é portanto mais que um intermediário na compra e venda de jogadores, é mais que um gestor de activos. Jorge Mendes é um agente que identifica soluções para os seus parceiros da alta finança, colocando nessas mesmas soluções as estruturas técnicas que possui na sua carteira de activos, para que estas possam (devidamente orquestradas pelo diapasão do empresário) aconselhar aos proprietários, à contratação sistemática dos jogadores que o empresário possui em carteira, mediante o pagamento de comissões cujo destino ainda é, por ora, vago, apesar de existirem alguns palpites. O interesse de Mendes não é, por outro lado, ajudar os “amigos” a contratar talento pelo custo mais baixo possível. A ideia de Mendes é conduzir os seus amigos ao alvo pretendido, enchendo-os de sonhos. Os sonhos de determinados dirigentes fazem disparar o jogo da procura e da oferta. Para ter, é preciso portanto subir a parada sobre um eventual concorrente. Para o efeito, o empresário usa e abusa da imprensa, explicando-se portanto o porquê dos seus jogadores estarem tantas vezes nas primeiras páginas dos jornais europeus. Não é para menos: o super empresário têm efectivamente meia imprensa portuguesa e espanhola no seu payroll. Estamos portanto a falar de um universo de uma centena de jornalistas que são pagos para escrever bem dos seus activos e para abafar escândalos que esses activos possam fazer emergir. A mediatização dos seus jogadores é um dos métodos com que o empresário vende sonhos a vários dirigentes, obrigando-os a licitar entre si os seus activos. Claro que está que a rede de suporte da sua comissão está no clube vendedor: quanto mais alto for o valor, mais recebe o empresário de comissão.

Mendes só precisa portanto de controlar a fundo os dirigentes dos clubes vendedores e de ter os conhecimentos necessários para poder influenciar a decisão dos dirigentes dos compradores. Nessa rede encontramos várias equipas de dimensão europeia média\alta (Benfica, Olympiacos, Porto, Valência, Zenit, Mónaco) e os tubarões do futebol europeu.

Paralelamente, fora da órbita das grandes vendas, o empresário domina uma série de proprietários e\ou dirigentes de uma série de clubes pequenos que lhe dão um bom dinheiro a ganhar. Falamos do Rio Ave, do Braga, do Wolverhampton, do Saragoça, do Deportivo, entre outros clubes em que o empresário tem a sua quota parte na gestão. Esses são os clubes que servem um vasto sistema de rotação de activos  (alguns misteriosamente, sem terem realizado muitos jogos pelo clube em causa) que pulam de clube em clube até ao dia que possam gerar uma razoável venda e por conseguinte um razoável encaixe financeiro para o empresário. Fabinho, Wallace, Sílvio, Ivan Cavaleiro, Hélder Costa, Sidnei, Felipe Augusto, Bebé, Hélder Postiga, Alípio, Ezequiel Garay, Bruno Gama, Nélson Oliveira, e Danilo são alguns dos exemplos de jogadores que tem sido sistematicamente rodados entre os seus clubes afiliados controlados pelo empresário. Não quero porém com isto não referir, que o empresário não vá buscar o seu quinhão nas comissões de intermediação destes negócios, porque vai. Mendes é portanto uma máquina que lucra com todo ou qualquer negócio em que se mete. Para o efeito, até nestes clubes, o empresário português trabalha da mesma forma: identifica os clubes que precisam de capital, escolhe o amigo que vai investir na sua aquisição ou no indispensável reforço financeiro, faz a intermediação do negócio de aquisição, coloca lá um treinador “amigo” e voilà: o treinador amigo vai escolher todos os activos que estejam disponíveis na carteira da Gestifute para Mendes lucrar as respectivas comissões respeitantes ao processo de intermediação e ao processo de assinatura do jogador.

O Wolverhampton é portanto um dos clubes que faz parte deste esquema do empresário. O proprietário do clube Jeff Shi é amigo do empresário português e tem capital para investir. O novo treinador é um agenciado. Os jogadores que o treinador pretende são agenciados. Como o proprietário do clube inglês tem capital, o empresário receberá a sua quota parte do negócio.

Este é o esquema óbvio que muita gente conhece mas tem dificuldade em expor. O único que o fez até hoje, de peito aberto, foi o meu amigo Pippo Russo, no livro que sairá para o prelo no próximo dia 7 de Junho.

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