Análise – Final da Taça de Portugal feminina – Sporting 2-1 Sporting de Braga


A dobradinha! No Estádio Nacional do Jamor, a equipa feminina de futebol do Sporting culminou o ano de relançamento da modalidade no clube de Alvalade com chave de ouro, batendo novamente a formação do Sporting de Braga por 2-1, num jogo que a meu ver foi mais um fantástico momento de divulgação da modalidade em Portugal. A FPF ganhou claramente a aposta que tem vindo a realizar desde o verão passado. A inclusão de alguns dos maiores emblemas do sector masculino no Campeonato Nacional feminino, a transmissão de alguns jogos e a transmissão em sinal aberto da final da Taça foram esforços\apostas ganhas que rapidamente se poderão traduzir num aumento significativo de visibilidade que se poderá reproduzir no aumento do número de atletas federadas nos vários escalões, ganhando para o efeito o futebol feminino e o desporto português! Para além de todos esses factores, o público presente no Jamor voltou a quebrar o recorde de assistências a um jogo de futebol feminino em Portugal.

Antes de passar a uma crónica do jogo e ao indispensável elogio às jogadoras e treinadores da formação vencedora do encontro, quero também manifestar uma palavra de ânimo à equipa que foi derrotada no Jamor. A formação do Sporting de Braga foi uma digna (muito digna) derrotada quer no Campeonato Nacional quer na Taça. O emblema bracarense, clube que também apostou do zero na modalidade no início da temporada, demonstrou ao longo da época que agora termina, a construção de um projecto muito sólido e muito bem estruturado que poderá dar os seus frutos doravante. Com um projecto alicerçado num treinador muito competente e numa equipa recheada de enormes talentos individuais, com uma fantástica identidade de jogo, posso dizer que a conquista de campeonato e taça também assentava que nem uma luva ao esforço abnegado que as bracarenses deixaram dentro de campo. A equipa feminina do Sporting Clube de Braga terá que continuar a trabalhar para poder atingir os seus objectivos. Estou certo que mais dia menos dia, Braga poderá finalmente festejar um título no futebol feminino porque a sua equipa tem efectivamente muita qualidade.

Diana Silva e Ana Borges, as peças de um colectivo coeso formado pelo experiente Nuno Cristóvão. As principais obreiras da reviravolta que permitiu ao Sporting Clube de Portugal adicionar mais um troféu ao Museu Sporting. 

Um osso muito duro de roer para as leoas

A formação de Nuno Cristóvão sabia de antemão as dificuldades que teria que ultrapassar para bater a fortíssima formação de João Marques na partida que se realizou durante a tarde de hoje no Jamor. Após dois duelos épicos em Braga e em Alvalade para o Campeonato Nacional, duelos nos quais as jogadoras do emblema de Alvalade puderam fazer a curta diferença face ao avassalador campeonato realizado pela formação minhota, as leoas sabiam que não poderiam adormecer à sombra do título conquistado há duas semanas atrás no terreno do Boavista. Frente a um colectivo muito bem orientado e arrumado dentro das 4 linhas, com unidades muito desequilibradoras na frente de ataque, um meio campo muito musculado e um sector defensivo muito assertivo, a equipa do Sporting teve muitas dificuldades para impor-se na partida, acabando por só conseguir fazê-lo após o golo do empate.

João Marques tem uma excelente equipa. É um facto inegável. Construída de trás para a frente com um sector defensivo muito sólido (Géssica, Sílvia Rebelo, Andrea Mirón e Ana Barrinha) apoiado por um meio-campo onde sobressai o poderio físico das médias Pauleta e Melissa (a primeira com características mais defensivas, sendo uma autêntica destruidora de jogo adversário; a segunda uma jogadora mais completa, capaz de exercer uma pressão intensa sobre as adversárias no momento de recuperação da posse, aliando o seu cariz possante a uma técnica individual que também faz dela uma extraordinária construtora de jogo) e um ataque extremamente dinâmico, veloz e técnico onde sobressaem claramente o poderio físico de Vanessa Marques, e a velocidade e técnica individual de Jéssica Silva e Andreia Norton, a equipa do Braga dominou praticamente por completo a partida até aos 56 minutos.

Com um sistema de pressão alta, o técnico bracarense colocou a nu algumas das fragilidades da formação de Nuno Cristóvão nos primeiros minutos. A defensiva leonina entrou num certo nervosismo quando era chamada a sair a partir de trás e o meio-campo das leoas, excessivamente recuado, não permitia uma normal construção de jogo ofensivo. Com processos de jogo bem enraizados, principalmente nas acções em contra-ataque, a equipa do Braga iniciou a partida a provocar calafrios na defensiva leonina.

Com uma interligação fantástica entre sectores, Barrinha conseguia com alguma profundidade nos seus passes apanhar as fantásticas desmarcações de Jéssica Silva para as costas da lateral direita leonina Rita Fontemanha (aos 5″ ficou na cara de Patrícia Morais depois de ter despachado em velocidade a central “na dobra” Matilde Figueiras; aos 8 minutos voltou a criar perigo a partir da esquerda, pecando apenas no último passe para o coração da área). No flanco direito, Andreia Norton também demonstrou algumas acções interessantes sobre Joana Marchão. Algo nervosa nos momentos iniciais da partida, a canhota acabaria por cometer o primeiro grande erro do jogo aos 11″ quando derrubou a poderosa Melissa na área num lance extremamente confuso em que Melissa e Andreia Norton caíram na grande área da turma de Alvalade num lance em que a jogador do Sporting poderia ter tido outro discernimento visto que o lance estava aparentemente controlado por uma colega que vinha no enfiamento da jogada. Sandra Bastos viu a entrada sem bola da lateral leonina sobre a sua adversária, assinalando prontamente uma justa grande penalidade contra a formação de Alvalade.
Da marca dos onze metros, frente a Patrícia Morais, a ponta-de-lança Vanessa Marques, poderosa striker que foi um poço de energia e de soluções de circulação ao longo dos 120 minutos, inaugurou o marcador para as bracarenses.

O inicio de jogo prometia. Muito recuada, a equipa de Alvalade tentou por em prática o seu futebol. Nas alas, Ana Borges via-se encaixada pela polivalente Barrinha. Conhecendo a velocidade que a internacional portuguesa coloca no seu drible, a brasileira não deu um palmo de terreno à sua adversária directa no primeiro tempo. Na outra ala, a tecnicista Solange Carvalhas era vigiada de perto por Géssica, com a ajuda pontual de Andreia Norton e Cristiana Garcia, para evitar que a jogadora pudesse colocar em marcha as suas fortes incursões em drible para o meio do terreno, movimentos onde a jogador do Sporting é de facto um enorme portento de criação de desequilíbrios. Em último caso, apareciam as centrais bracarenses. Silvia Rebelo esteve exemplar nas dobras que teve que fazer às suas laterais, sendo expedita e prática a acorrer aos fogos provocados nas alas pelas jogadoras leoninas.

Na frente foram incontáveis as vezes em que Diana Silva teve que vir atrás buscar o primeiro passe nas transições para tentar desbloquear as alas com os seus venenosos passes para as costas das laterais adversárias, tentando explorar a velocidade de Ana Borges e Solange. Como a incansável avançada não conseguia colocar jogo nas alas, teve muitas vezes que tentar segurar o esférico de forma a “pedir a subida do trio do meio-campo”, trio que na primeira parte acabou por ter um comportamento algo receoso (ao não avançarem no terreno, as médias das leões nunca quiseram comprometer o equilíbrio defensivo da equipa face à capacidade demontrada pelas arsenalistas nas acções de contra-ataque) que custou a inexistência de uma única oportunidade clara de golo para a formação sportinguista no primeiro tempo, a contrastar com as 4 criadas pela formação minhota.

Aos 40″, numa altura em que Andrea Norton já tinha trocado de posição com Cristiana Garcia, alinhando agora no corredor central como se de uma 10 se tratasse, a internacional portuguesa obrigou Patricia Morais à defesa da tarde quando, à entrada da área, aproveitou uma aberta da defesa leonina para disferir um poderoso remate ao qual correspondeu em voo a segura guardiã da baliza leonina.

Um verdadeiro game changer

Na 2ª parte, uma perda de bola em zona proibida à saída da área de Andrea Mirón para Ana Borges (fantástico momento de recuperação de bola) permitiu à jogadora do Sporting apanhar em falso a defensiva bracarense. A internacional portuguesa foi rápida a ganhar a linha e a assistir o fantástico trabalho específico de Diana Silva sobre um adversária. A avançada rodou sobre a adversária de forma conseguir finalizar com classe na cara de Rute Costa.

A equipa leonina galvanizou-se com o golo. O meio-campo finalmente subiu e Fátima Pinto pode finalmente imprimir uma velocidade estonteante aos processos de circulação da equipa. Sara Granja e Tatiana Pinto apareceram finalmente destacadas nas suas posições de médio interior, interligando o jogo com os flancos e com Diana Silva. A avançada pode finalmente ter as suas companheiras mais perto. O futebol da equipa cresceu e Diana teve aos 60 e 61 duas oportunidades claras de golo: a primeira quando viu um remate desviado por Sílvia Rebelo para canto e a segunda na sequência desse canto quando, totalmente livre de marcação, atirou de cabeça por cima. Na melhor fase da partida das leoas, pouco depois, aos 62″, Ana Borges interceptou um passe de uma adversária ainda no seu meio-campo, galgou até à área adversária em velocidade, e numa situação de 3×1 tirou Silva Rebelo do caminho com um passe para a área para Diana Silva, que, vendo a entrada de Fátima Pinto pela esquerda deixou a bola seguir o seu caminho para os pés da centrocampista. Na cara de Rute Costa, a jogadora não conseguiu facturar o golo que permitiria a reviravolta.

O Braga haveria de recuperar do seu mau momento no jogo. A equipa bracarense voltou a estabilizar e voltou ao meio-campo do Sporting. Fazendo subir ligeiramente as suas laterais no terreno, a equipa bracarense reconheceu claramente que teria que travar o ímpeto gerado nas atletas do clube de Alvalade através da subida do seu bloco.

O segundo game changer

Durante os primeiros minutos do prolongamento, a formação bracarense parecia estar melhor do ponto de vista físico. Apesar da equipa não ter construído mais oportunidades claras a partir do 40″, algumas unidades da formação minhota ainda tinham muito para dar ao jogo. Numa acção de contra-ataque Jéssica Silva poderia ter feito pender a balança para a formação bracarense. Com um arranque fortíssimo no corredor central, a jogador fez uma vistosa tabela com Vanessa Marques que lhe poderia ter granjeado um novo frente-a-frente com Patrícia Morais, não fosse o soberbo corte na hora h da central Matilde Figueiras (cresceu muito ao longo do jogo, terminando-o em alta) a negar a acção à sua companheira de selecção. No último minuto do prolongamento, numa das únicas acções do Sporting no último terço bracarense, numa altura em que me pareceu até que as leoas queriam preservar a bola no meio-campo adversário para não terem que lidar novamente com a velocidade das bracarenses, a sorte haveria de pender para a formação leonina num lance em que a defesa bracarense ficou a ver navios: na sequência de um lançamento lateral executado pela energética Rita Fontemanha (também foi melhorando imenso o seu rendimento ao longo da partida) Ana Borges executou um cruzamento para a área à procura de Ana Capeta (entretanto entrada na 2ª parte para o lugar de Solange Carvalhas). Com um movimento interior de antecipação, a arma secreta que ao longo da temporada saiu várias vezes do banco para resolver partidas, haveria de deixar pregadas ao relvado 3 adversárias, antes de rematar com êxito para a baliza de Rute Costa.

Nervosismo final no assalto à baliza leonina

A reacção das bracarenses foi melhor do que aquela que se esperava devido ao adiantar da hora. Aos 107″ Joana Marchão cometeu um erro que permitiu uma oportunidade de remate (ao lado) a Vanessa Marques. Aos 13″ numa atrapalhação infantil da defensiva leonina na área resultaria num mau alívio que foi rechaçado para o interior da mesma. Com uma diagonal rápida, Adriana Gomes conseguiu chegar à bola (ligeiramente descaída para o flanco direito) de forma a executar um remate cruzado que foi cortado em cima da linha com o peito por Matilde Figueiras. A mesma Adriana Gomes teve aos 117″ uma oportunidade de ouro para levar o jogo para as grandes penalidades. Ganhando as costas às centrais leoninas (Matilde e Catarina Lopes) a jogadora que entrou no 2º tempo podia ter facturado o golo do empate num cabeceamento que saiu ligeiramente ao lado da baliza de Patrícia Morais.

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