Opinião reduzida a pura idiotice romântica


“Ronaldo é o Michael Jordan do futebol, porque CR7 transformou um jogo coletivo num jogo individual tal como o MJ fez nos Bulls. Os colegas também sabiam que quando a coisa apertava, a solução era pôr a bola nas mãos de Michael; hoje, a malta do Real Madrid sabe que quando o jogo está complicado, Cristiano descomplica-o porque ele próprio descomplicou o seu jogo.”

Pedro Candeias em Tribuna Expresso

Confesso que ao ler este enorme monte de bajulação, cujo romantismo compreendo pela óptica comercial da coisa (já dizia o ditado que “Em Roma, sê Romano”) mas cujo conteúdo estranho, ainda para mais quando é vindo de um dos raros gajos que escreve bem sobre futebol neste país, fiquei notoriamente apreensivo. Melhor, perturbado. Deveras perturbado. Desperdicei vários anos de vida a tentar compreender algo que é assim… tão fácil!

O texto não é mau até chegarmos à parte que está devidamente transcrita no epílogo. Deverá ter rendido milhares de visualizações, milhares de comentários de Ronaldo-fanáticos, milhares de comentários de uma nova classe social entre a qual não me incluo porque, apesar de admirar o futebol de CR7 e de lhe reconhecer toda a grandeza e todos os frutos do seu trabalho (porque como dizia Torga, Ronaldo “de nenhum fruto quis apenas uma metade”), acima de qualquer jogador, treinador, dirigente, adoro futebol. Factos são factos e não poderemos nunca ignorá-los. As estatísticas não mentem assim como a tecnologia existente não permite desmentir: a imagética moderna guardará para sempre os golos, os dribles, as mudanças de velocidade, os espantosos overlapings com os laterais, as movimentações entre linhas, o salto que deu a vitória sobre o País de Gales, o hat-trick à Hungria, as rabetas nos tipos do Manchester United, a loucura daquela cabeçada à Roma na Champions 07\08, os assobios e as críticas dos adeptos e as críticas feitas dentro das 4 linhas a Carlos Queirós no Mundial da África do Sul. Mas há um ponto em que este texto roça a parvalheira total: reduzir o futebol e o basquetebol enquanto modalidades colectivas a um individualismo exacerbado não será uma grande falácia? Claro que é uma grande falácia! 
Como seria o futebol se não existisse ninguém para assistir Cristiano Ronaldo nos momentos de aperto? Que expressão à escala global teria por exemplo um jogo em que o único objectivo fosse ver um gajo a chutar a uma baliza protegida por outro gajo? Porque é que perdemos tanto tempo a esmiuçar a técnica de determinado jogador, os seus movimentos com e sem bola, a sua intensidade na pressão, a sua agressividade, o seu rigor posicional, o rigor posicional das equipas nos momentos defensivos, as combinações entre jogadores, os processos de jogo de determinada equipa para conseguir invadir o espaço adversário, a inteligência e a criatividade de certos jogadores? Que sentido faria portanto neste jogo uma triangulação, um 1×2, uma tabela, uma variação de flanco, uma exploração do corredor central, a cedência de um apoio, uma incursão em diagonal ou até mesmo um passe em diagonal em profundidade para a entrada do ponta-de-lança ou até do defesa esquerdo (veio-me o Jordi Alba à cabeça) nas costas dos centrais? Porque é que perdemos tanto tempo das nossas vidas a tentar perceber a ciência de um complexo e multi diversificado jogo colectivo?

Porque é que andámos durante anos enganados? Porque é que andámos anos a crer que o Michael Jordan só conseguiu ganhar troféus em Chicago quando lhe deram um Pippen capaz de pontuar quando ele descansava e de o assistir quando ele mais precisava, e de um Rodman que era uma verdadeira besta (defensiva) no jogo interior? Isto sem falar no Ron Harper, no Luc Longley. No Toni Kukoc. No Steve Kerr. Nessa gente que é considerada por todos os experts da modalidade como os homens que dão consistência e química a uma equipa. Não era tão mais prático individualizar o basquetebol a uma jogatana 1×1 do Jordan contra o Magic ou contra o Karl Malone? Estou certo que tal ideia pouparia uns cobres a todos os grandes magnatas da imprensa desportiva e uns largos milhões aos proprietários. Não seriam precisos tantos jornalistas. Não seriam precisos planteis caríssimos. Não seriam precisos os vários treinadores que compõem o staff de uma equipa. No fundo, o Jordan até poderia facilmente treinar numa tabela de bairro.

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Um pensamento em “Opinião reduzida a pura idiotice romântica”

  1. Em todo o desporto, há sempre um que se distingue dos demais. O facto do jogo ser colectivo, não invalida que Maradona, Messi, Cruyff, CR7 sejam figuras principais. O Real Madrid poderia ter uma organização colectiva do melhor que há, que sem Ronaldo, dificilmente estaria na final. É o talento que faz a diferença, muitas das vezes, entre a nossa definição de tática bem implementada ou mal.

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