Breve análise – Letónia 0-3 Portugal


Descer à terra. A fantasia (perdão, a sorte) do Euro acabou. É preciso jogar mais. Muito mais.

O golo de André Silva disse muito sobre o adversário que a selecção portuguesa encontrou esta noite em Riga: um adversário fraquinho, de péssima qualidade técnica, com alguma qualidade táctica nos processos defensivos, em especial na intensidade que é colocada a meio-campo por Juris Laizans, o jogador mais credenciado desta selecção (esta Letónia já tinha vendido muito cara a derrota na Suiça mas dificil era não fazer pior contra uma equipa que apresentou muita falta de criatividade para além dos problemas revelados no capítulo da construção ofensiva) e com dois ou três processos de jogo ofensivos devidamente ensaiados que nos dificultaram a vida nos primeiros 10 minutos porque as nossas primeiras linhas de pressão falharam como as notas de mil. Só não ganha a esta Letónia quem não quer. A qualquer momento, a selecção letã perde por completo a compostura como já havia perdido no 2º tempo da partida realizada contra a Suiça. Há sempre um central que falha um corte ou que sai a jogar a partir de trás “com toda a confiança” pelo sítio onde 99% dos treinadores vão à loucura quando existe um erro transformado em golo, ou um lateral que cede perante a maior velocidade de um extremo. Difícil é não ganhar. Portugal demonstrou-o com o seu futebol estático e medíocre digno dos anos 80. 

A ressaca da conquista no Europeu – um futebol pobre, sem intensidade na pressão, sem criatividade e sem mobilidade – voltámos aos anos 80.

Com “um processo de jogo” na transição para o contra-ataque, a selecção da casa, formação que recentemente mudou de técnico face à evidência dos resultados negativos averbados pelo seu cavernoso futebol, teve o condão de baralhar uma partida em que à priori todos pensávamos poder ser dominada pelo onze (tosco, face ao que Pizzi e Adrien mostraram no jogo de sábado contra Chipre) escalonado por Fernando Santos. Com linhas recuadas numa mutação táctica estranha (e até pouco ortodoxa para um colectivo de qualidade muito duvidosa como) entre fases (um 5x3x2 defensivo desdobrado num 4x4x2 ofensivo) os homens da casa conseguiram aproveitar, com alguma ratice, o desacerto de intensidade realizada na pressão durante toda a partida. Com movimentos de antecipação aos centrais portugueses, o médio ofensivo Valerijs Sabala e o ponta-de-lança Davis Ikaunieks conseguiram, nos primeiros minutos, colher alguns passes de Laizins que furavam por completo o corredor central, sector do terreno em que Moutinho e William estiveram francamente miseráveis. Nem pressionaram, nem destruíram nem construíram. Os dois, foram, a meu ver, uma perfeita nulidade porque se limitaram literalmente a lateralizar bolas para o extenso lote de cruzamentos que caíram na área letã. No entanto, por outro lado, tanto o médio ofensivo como o avançado do FC Visocina Jihlava não conseguiram criar grandes situações de perigo por pura falta de engenho na hora de atacar a baliza defendida por Rui Patrício e por algum acerto nas abordagens de José Fonte.

A formação lusa conseguiu instalar-se no meio-campo letão aos 15 minutos. O futebol evidenciado foi de um pobreza franciscana exasperante. Sem qualquer criatividade, apesar da constante dinâmica de apoio oferecida por Ronaldo durante o primeiro tempo, na primeira fase de construção, em situações em que o avançado descia ao meio-campo para vir buscar o esférico aos médios, a equipa de Fernando Santos limitou-se a bombear literalmente a bola para a área à procura de qualquer coisa que aparecesse a cabecear face à colocação de 3 homens por parte da turma da casa. Na maior parte dos lances, os centrais da Letónia sentiram-se como peixes na água, devolvendo a bola ao meio-campo para novo cruzamento, situação que até resultou no lance do primeiro golo. Até aos 40 minutos, altura em que Ronaldo aproveitou o caprichoso ressalto do poste a cabeceamento de José Fonte, o futebol da turma das quinas foi um futebol sem ideias. Não vimos um tabela, não vimos uma triangulação, não vimos uma única ideia de Gelson Martins a não ser as tentativas de incursão com bola para o meio, faltando-lhe linhas de passe para tentar eventualmente uma combinação que lhe permitisse entrar pelas costas da defesa para receber na área, não vimos muita actividade no flanco esquerdo (porque André Gomes funcionou novamente como um 3º médio, deixando Raphael Guerreiro sem uma única linha de passe exterior para poder estender o jogo e quiçá entrar por dentro; na única situação em que o jogador do Barcelona foi ao flanco esquerdo, tirou dois adversários do caminho e sacou o cartão amarelo a Kluskins) e não vimos grandes jogadas de rasgo individual: o lance em que Ronaldo conseguiu desfazer-se de Laizans para preparar o seu portentoso remate à entrada da área (para uma excelente defesa de Andris Vanins) foi provavelmente a única jogada de maior gabarito que vimos no primeiro tempo.

Sem melhorias nos primeiros 10 minutos do 2º tempo, antes pelo contrário (assistimos a uma fase da partida em que a formação letã até poderia facilmente ter entrado na discussão pela partida através dos venenosos contra-ataques que eram lançados na mais pura das passividades de William Carvalho; Patrício ainda foi obrigado a ter que se esticar para travar aquela charutada enfiada do meio da rua na cobrança de uma falta cometida por Gelson, o primeiro a chegar ao portador numa acção de contra-ataque em que o meio-campo voltou a ficar nas covas) Fernando Santos apercebeu-se que tinha de lançar mais criatividade na partida para tentar segurar o jogo. Ricardo Quaresma veio efectivamente dar outra dinâmica ao flanco direito. Do ciganito de ouro vimos a sua enorme capacidade de estender jogo no lance do 2º golo. A situação de overlaping criada pelo extremo por dentro para dar linha de passe a Cedric foi outro dos momentos do jogo. A falida loja do mestre Fernando parecia estar encerrada para balanço. E estava mesmo!

O 3º golo foi obtido numa daquelas asneiras colossais que deixa qualquer treinador à beira de um ataque de nervos. Para finalizar, havia que engrossar a lista de feitos de Cristiano Ronaldo através de solicitações em profundidade para as arrancadas do avançado para as costas dos extenuados e desalinhados centrais Kaspars Gorkss e Nikita Kolesovs. Em duas ocasiões, CR7 poderia ter feito o seu merecido hat-trick (3 enormes defesas do guardião do Sion a 3 remates de meia distância do madeirense) quando conseguiu “isolar-se” na cara de Vanins. A fraca pontaria impediu o jogador do Real Madrid de estender a contagem no marcador, polvilhando com amargura uma exibição muito pobre da turma das quinas.

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