Criterium Dauphiné – Etapa 6 – Jakob Fuglsang acaba com o jejum da Astana; Aru apresenta-se; Porte é lider


Na primeira das 3 abordagens da prova à alta montanha, o fantástico Mont Du Chat (categoria especial com uma pendente média de 10% inserida nos 25 dos 140 km da tirada que terminou em Chambéry) deu-nos um dos mais interessantes espectáculos de ciclismo da temporada. Numa frenética subida recheada de ataques e movimentações tácticas por parte de diversos ciclistas, um quarteto formado por Fábio Aru, Jakob Fuglsang (Astana), Christopher Froome (Sky) e Richie Porte chegou em conjunto a Chambéry. No sprint final, Jakob Fuglsang colocou um ponto final no jejum de vitórias que tem vindo a afectar a equipa durante esta temporada de 2017, garantindo o 3º triunfo em etapas para a formação casaque.

Richie Porte é o novo líder da prova. Numa etapa que se antevia de passagem de testemunho (Thomas DeGent não seria capaz de resistir até ao fim junto dos principais favoritos), o australiano conseguiu evitar que a camisola amarela fosse parar ao corpo de Christopher Froome. Já Alejandro Valverde, Romain Bardet e Alberto Contador não conseguiram acompanhar os seus rivais na parte final da subida, acabando por acumular perdas significativas no final da tirada.

Deixemos a fuga do dia de lado pela importância com que se revestiram as várias movimentações a que pudemos assistir na ascensão ao Mont Du Chat. O último, duro, extenso e rigoroso teste à capacidade dos favoritos transformou a corrida num autêntico rock and roll de ciclismo que nos ajudou a compreender as sensações actuais de vários ciclistas. No exigente teste do Mont Du Chat, Fabio Aru passou com enorme distinção (o italiano confirmou que está num belíssimo pico de forma), Richie Porte voltou a demonstrar que está com vontade de vencer pela primeira vez o Dauphiné, Froome mostrou bons sinais durante a subida e tentou capitalizar sobre toda a concorrência na longa, sinuosa e técnica descida que se seguiu ao Mont Du Chat, Alejandro Valverde ainda tentou esboçar um ataque no início da subida, confirmando que também está a caminhar para um bom momento de forma, Romain Bardet também atacou mas o seu ataque viria a redundar noutro rombo para a geral, Daniel Martin foi combativo e Alberto Contador provou que ainda está à procura de melhores dias.

Com o grupo principal devidamente pré-seleccionado em cerca de 25 unidades, a subida ao Mont Du Chat foi atacada desde cedo pela Movistar. Voltando a realizar uma táctica que parece estar a fazer escola na actualidade da modalidade, Eusébio Unzué voltou a realizar com Alejandro Valverde a táctica que já tinha adoptado com Winner Anacona e Nairo Quintana em algumas etapas do Giro ao lançar Daniel Moreno à frente para bater caminho para o ataque que se seguiu por parte do murciano. A estratégia deste tipo de ataques é simples: o batedor que vai para a frente testa eventuais reacções no pelotão com o seu ataque, espera pela saída do seu líder e depois tem a missão de endurecer o ritmo durante  300 a 500 metros para tornar mais efectivo o andamento deste, retirando-se de seguida.

O ataque do murciano despoletou uma série de ataques no grupo dos favoritos. Assim que Jakob Fuglsang (Astana), Emmanuel Buchmann (que agradável surpresa; estaremos perante a nova coqueluche do ciclismo alemão? O ciclismo alemão já merece ter uma representação na elite dos trepadores!) Rafael Valls (outra agradável surpresa; já não viamos a Lotto-Soudal com representação nestes terrenos há muito tempo) e Esteban Chaves (Orica) saíram do grupo principal para se juntar a Valverde, Thomas de Gent, Warren Barguil (o francês está num péssimo estado de forma) e Janez Brajkovic (Bahrain-Mérida) diziam adeus à companhia dos favoritos. A investida do murciano durou 2 km.

Michal Kwiatkowski (Sky) foi o senhor que se seguiu. Com o seu ataque, o ex-campeão do mundo de estrada tentou perceber se o seu antigo companheiro de equipa Richie Porte estaria disposto a cobrir o seu ataque. A verificar-se tal situação de corrida, o rei do congo bongo Christopher Froome poderia autorizar a abertura total das hostilidades na luta pela vitória na geral. Como o australiano decidiu não ir ao choque, Kwiat contentou-se com a presença de Jakob Fuglsang e Fabio Aru (o dinamarquês, trepador de enorme qualidade que já fechou na 7ª posição da geral no Tour em 2013, teve pernas para tudo; o italiano teve muita liberdade para atacar, algo que não é de todo normal se consideramos que toda a gente conhece perfeitamente o seu grau de ameaça quando o deixam sair com tamanha gentileza), de Buchmann e de Valls. A aceleração de corrida promovida pelo polaco colocaria Simon Yates, Pierre Latour, e Andrew Talansky na corda bamba na cauda do grupo dos favoritos, grupo onde se gerou de imediato o famoso jogo de marcações cerradas entre Froome, Bardet, Porte, Contador e Valverde. Como Louis Mentjes (UAE) achou que não tinha nada a ver com o assunto que estava a ser lavrado pelos cavalheiros em questão, decidiu sair do grupo principal para tentar a sua sorte. O sul-africano despoletou uma reacção de Romain Bardet. O fininho trepador da AG2R lavrou um ataque eficaz que o fez ganhar algum terreno, reagrupar todos os escapados num só grupo e incentivar Alejandro Valverde a assumir a perseguição para fazer a junção entre grupos. As distâncias cavadas pelos ciclistas que trepavam na frente não eram porém significativas.

Num enorme jogo de avanços e recuos entre grupos, na frente Fabio Aru conseguia juntar-se a Jakob Fuglsang. Cá atrás, no grupo dos favoritos, Alejandro Valverde fartou-se do facto de não ter colaboração dos demais e decidiu sair. Porte respondeu de imediato enquanto Froome teve que se servir momentaneamente da ajuda de Kwiatkowski, com Contador na sua roda. O espanhol deu ali o seu primeiro sinal de fraqueza na etapa. Pelo meio ainda andava por ali Daniel Martin. O irlandês da Quickstep foi conseguindo levar a água ao seu moinho (fechou a etapa na 6ª posição) andando de roda em roda, até cair na roda de Valverde durante a descida. Apanhando ciclistas que vinham em posição intermédia (Valls, Buchmann, Bardet, Oliver Naesen) Valverde, Froome e Porte queriam mais. Froome e Porte trataram de descartar Valverde e Bardet para ir à procura dos dois trepadores da Astana.

Na passagem pela categoria especial a situação de corrida era a seguinte: Aru passava com mais 12 segundos de avanço sobre Fuglsang (o italiano decidiu a páginas tantas seguir em solitário, descartando o seu colega de equipa; a companhia de Fuglsang não lhe valeu de muito, é certo) Froome e Porte, enquanto, a sensivelmente 1:03m  passava um grupo constituído por Valverde, Contador e Bardet, imediatamente seguido por  Daniel Martin. Emmanuel Buchmann e Louis Mentjes. Os 12 segundos de diferença seriam de fácil alcance para a peugada de Froome na técnica e estreita descida que conduziria os ciclistas até à meta. Apesar de não ser uma daquelas descidas à medida da bizarra aerodinâmica de descida do britânico, Aru tinha a “sua liderança” na etapa a prazo…

O britânico arriscou na descida e chegou a dar a sensação que teria todas as capacidades para deixar o trio que o seguia para trás. Findo o esforço, numa altura em que Valverde e Bardet perdiam a companhia de Alberto Contador para verem reforçados os seus esforços de perseguição com a inclusão de Daniel Martin (Valverde conseguiu aproveitar a descida para anular 13 segundos para a frente da corrida), Jakob Fuglsang tentou atacar nos 2 km finais para assegurar a subida ao pódio da Astana. O dinamarquês teve que sofrer a bom sofreu nos metros finais para ver o seu esforço recompensado no sprint final tirado a photo finish. O grau de pressão envolto sobre a Astana deve estar ligeiramente desanuviado com a vitória do dinamarquês e com a excelente prestação de Aru na montanha, sendo previsível desde já a possibilidade deste voltar a atacar durante o dia de amanhã na selvagem etapa que termina no alto do Alpe D´Huez.

Chegamos ao Alpe D´Huez com tudo em aberto. Froome dista apenas a 39 segundos de Porte. O inglês deverá ter carta branca para arrebentar com as pernas e com a moral de Richie Porte na emblemática subida para finalmente lhe poder dizer quem é que manda na parada. Jakob Fuglsang e Fabio Aru estão à espreita. Alejandro Valverde poderá mexer com a corrida mas não acredito que seja capaz de ganhar tempo à concorrência directa. Ferido, Alberto Contador será menino para intentar agitar com a corrida sem qualquer tipo de pressão adicional. El Pistolero é um ciclista que recupera de dia para dia. Estou certo que amanhã irá aparecer mais forte. Daniel Martin e Romain Bardet são dois estrondosos jokers que andarão à solta numa etapa que termina em alto, situação que agrada aos dois corredores. Do ofensivo ciclista irlandês tudo podemos esperar porque este é um dos mais imprevisíveis do pelotão internacional. Do ciclista francês poderemos esperar um ataque. Bardet voltará ao ataque para tentar galgar posições.

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