Criterium Dauphine – Etapa 8 – Jakob Fuglsang vence a geral e abre um conjunto de equações para o Tour


Teremos finalmente no Tour a louca batalha multi disputada que temos vindo a desejar desde há vários anos a esta parte? Poderemos ter visto um sério teste de capacidades e uma séria apresentação de intenções nesta edição do Dauphiné? A interessante batalha que pudemos observar durante esta semana diz-me que poderemos estar diante do mais competitivo Tour desta década se o momento de forma de alguns ciclistas “menos candidatos” se mantiver nos próximos 15 dias e se a forma de alguns dos candidatos subir entretanto. Será muito positivo para a prova se ciclistas Jakob Fuglsang ou Daniel Martin puderem entrar no lote de favoritos e se ciclistas como Louis Mentjes, Emmanuel Buchmann, Tiesj Benoot, Rafael Valls se assumirem como candidatos a um lugar no top10 da prova francesa. A vitória de Jakob Fuglsang na geral individual abriu um conjunto de equações completamente inesperadas e aguçou o apetite dos responsáveis da famigerada Astana: a formação casaque terá ao que tudo indica duas lanças afiadas apontadas à geral do Tour. 

Antes de iniciar a crónica relativa à corrida disputada durante o dia de ontem, permitam-me a realização de um breve aparte sobre a prestação de Richie Porte durante o dia de hoje. No melhor do pano cai a nódoa. No post relativo à etapa de ontem referi que o australiano soube gerir muito bem a sua corrida. Na etapa relativa ao contra-relógio referi que o ciclista da BMC está neste momento em melhores condições físicas que os seus rivais. Durante todas as etapas também pudemos ver a sua equipa a trabalhar na máxima força, com muitas unidades na frente do pelotão. O que é que mudou de sábado para domingo na equipa BMC e na abordagem, do australiano à corrida? Richie Porte perdeu este Dauphiné porque foi deixado sozinho na penúltima subida do dia. A sua equipa desvaneceu-se por completo, deixando o australiano entregue à sua sorte quando este mais precisava desta para endurecer a corrida e de um bom apoio para poder fazer face à chuva de ataques aos quais não respondeu por manifesta falha na leitura de corrida. A acrescentar a este facto, o australiano preocupou-se em demasia com a ameaça Chris Froome (sabemos que Porte tem o desiderato de provar ao seu antigo líder que tem capacidades para o bater em qualquer terreno, mas a forma em como Porte se focou apenas no chefe-de-fila da Sky revelou sinais de obsessão que não são positivos) menosprezando todos os outros candidatos, em especial, todos aqueles que nos últimos dias estavam a dar indicações muito precisas na montanha. Falo de Aru, Fuglsang e Bardet.

Para o último dia da prova estavam assinaladas 2 contagens de especial dureza para os últimos 50 km: o Col du Colombière e o Plateau de Solaison. Com 11,3 km de extensão, as duas subidas apresentavam distintas percentagens de inclinação (o Solaison apresentava uma percentagem média de 9,3%) mas garantiam ambas a possibilidade de um enorme espectáculo no assalto final à liderança da prova. Foi precisamente isso que aconteceu no Colombière…

… quando Fabio Aru e Alejandro Valverde mexeram com a corrida. O espanhol foi o primeiro a sair, seguindo-se o italiano. Quem é que no seu perfeito juízo deixa sair duas unidades deste calibre com o tempo que Porte possuía à partida para a etapa (1:42 para Aru e 1:49 para Valverde) a cerca de 45 km da meta com subida e meia pela frente? Porte autorizou. Aru e Valverde lá foram. O espanhol acabou por pagar caro o esforço realizado na subida final mas até poderia ter ganho a prova nesta movimentação estratégica.

Sem qualquer BMC no grupo dos favoritos, o líder ficou à deriva. Com Roman Kreuziger a puxar no grupo dos favoritos (Simon Yates poderia estar a sentir uma fezada para a etapa) os dois da frente foram naturalmente ganhando tempo que poderia vir a ser importante. O italiano da Astana e o espanhol da Movistar não faziam a coisa por menos: com um excelente entendimento até ao momento em que foram apanhados por Christopher Froome na descida, ambos tentaram construir uma diferença que lhes permitisse discutir a vitória de etapa (e na geral) no alto do Plateau de Solaison.

As movimentações não ficaram por aqui

Com alguma inocência, Tony Gallopin (um dos Lotto presentes no grupo) achou-se com todo o direito de atacar a 40 km da meta numa fase de menor inclinação da subida. A presença do puncheur francês no grupo principal já era por si uma surpresa dadas as suas capacidades para a alta montanha. Com o ataque, Gallopin levou Fuglsang, Bardet (tinha Alexis Vuillermoz em posição intermédia em conjunto com Simon Clarke da Cannondale; fuga do dia) e Daniel Martin aproveitaram o momento para mexer novamente com a corrida. Porte ficou e tratou de fazer ele mesmo a perseguição. A permissividade do líder levou Rafael Valls a tentar a sua sorte logo a seguir. A corrida chegou a um ponto em que nenhum ciclista respeitou a presença do líder. Contador saiu com Valls e com um conjunto de ciclistas como Emmanuel Buchmann, Simon Yates e Roger Latour. Richie Porte ficou a olhar para perceber se Froome saíria. O inglês continuou na sua roda, fechando a porta ligeiramente mais à frente quando deixou Porte “sozinho” com dois ciclistas que não lhe valeram de muito, o belga Tiesj Benoot e Sam Oomen da Sunweb.

A situação de corrida à passagem pelo alto du Colombière era o seguinte: Na frente, Aru e Valverde tinham 30 segundos sobre o grupo de Bardet, Martin e Fuglsang. A 1 minuto vinha o grupo de Contador, Yates e Buchmann. A 1:19 passou Christopher Froome. A 1:30 passou Porte. A liderança virtual estava presa por arames.

E Froome tinha uma carta na manga: a descida

Remember Peyresourde, lads?

Pois. A acrobática forma de descida voltou! O inglês foi paulatinamente apanhando toda a gente na sua rede nos 20 km de descida previstos na ligação entre montanhas. Com um trago colheu o grupo de Contador. O espanhol até lhe indicou gentilmente a cabeça do grupo para tentar apanhar os 5 que iam na frente. O inglês viria a demorar poucos km para apanhar o grupo de Bardet, deixando (em conjunto com o seu gregário Michal Kwiatkowski, entretanto reaparecido depois de uma fase de menor fulgor na subida) a junção entretanto feita a 15 segundos do duo da frente na subida, com Porte a cerca de 58 porque o australiano desceu bem, utilizou 4 km de plano no final da descida para fazer um trabalho impecável de perseguição e entrou bem na subida, acelerando-a logo desde início para ver se continuava a preservar os segundos virtuais de vantagem na geral que possuía sobre os homens da frente.

Nos primeiros 3 dos 11 km da subida final, já sem Kwiat, Froome assumiu a perseguição ao duo da frente. Valverde e Aru estavam à vista do grupo e o inglês foi por momentos o líder virtual da prova. A situação interessava-lhe. O inglês tentou colocar um ritmo duro assim que o duo da frente foi apanhado para tentar condicionar os outros rivais (desencorajá-los a atacar; conseguiu descartar Valverde e Yates num instante; Valverde rebentou por completo) e para permitir que Porte continuasse a perder tempo lá atrás, facto que não viria a acontecer porque o australiano conseguiu recuperar mais 15 segundos… estando agora a 43 da frente. O facto de Valverde ter ficado em posição intermédia poderia dar um novo ânimo ao australiano.

Dan Martin – o ataque que ajudou Fuglsang

Presente no grupo principal, o energético irlandês da Quickstep queria mais. Face à quantidade medonha de rivais que tinha no grupo, o ciclista da formação belga sabia que não seria fácil recuperar recuperar tempo para a toda a concorrência. Para vencer a prova, o irlandês teria que recuperar 1m30 a Froome e 2:31 a Porte em 3 km de subida. No entanto, quando atacou, Martin sabia que poderia vencer a derradeira etapa da prova e quiçá tentar alcançar um lugar no pódio.

O seu ataque, seguido de imediato por uma resposta de Fuglsang acabou por ser o momento que deu a vitória na geral ao dinamarquês da Astana. Sem resposta imediata de nenhum dos outros contenders (Froome tratou de perseguir; Contador até veio a descolar; Bardet tentou estudar a situação) o duo seguiu até à meta. Bardet viria a atacar 2 km depois, levando consigo Emmanuel Buchmann da Bora e Louis Meintjes da UAE (dois ciclistas que saem valorizadíssimos do Dauphine) para ver se ainda conseguia vencer a etapa e fechar no pódio. Froome acabou por não responder, acabando por ser apanhado (estaca zero) pelo esforço gigantesco que Richie Porte desenvolveu na subida final para vencer a geral individual.

Na frente da corrida, Jakob Fuglsang conseguiu ver-se livre de Daniel Martin com relativa facilidade. A sua cadência metrónoma haveria de ser insuportável para Martin. O ciclista da Astana galgou para a vitória na etapa sendo recompensado com a bonificação que lhe permitiu a sua primeira vitória da carreira no Dauphiné (16ª da carreira; 7ª na geral individual) e um bilhete dourado para o próximo Tour, prova onde naturalmente estará desde agora incluído no lote de favoritos.

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