Bloco de Notas da História #22 – O dia em que a Croácia gelou Wembley


21 de Novembro de 2007. A selecção inglesa de Steve McClaren, treinador que se tinha destacado nos anos anteriores ao serviço do Middlesbrough, do Manchester United (treinador de campo de Alex Ferguson entre 1999 e 2001), recebia em Wembley a já apurada selecção croata num jogo decisivo para as contas da Old Albion no grupo E de uma “fase de qualificação desastrosa” para o Euro 2008. Numa qualificação em que a Inglaterra somou dois empates comprometedores frente à Macedónia em casa e frente a Israel fora, e duas derrotas nos jogos realizados na Rússia e na Croácia (quem não se lembra da monumental fífia concedida pelo então guarda-redes do Tottenham, no jogo de Zagreb?), o jogo de Wembley frente aos croatas revestia-se de especial importância para uma selecção que nos últimos 24 anos só tinha falhado em 2 ocasiões o apuramento para as grandes competições internacionais por selecções. A selecção inglesa estava obrigada a vencer para poder terminar no 2º lugar do grupo à frente da Rússia, selecção que naquele dia tinha a vida bastante mais facilitada em Andorra no jogo que iria disputar frente à frágil selecção local.

O reinado de Steve McClaren foi um dos momentos mais confusos da selecção Inglesa. O credenciado técnico que tinha conduzido à vitória na Taça da Liga Inglesa em 2004 numa equipa que contava com nomes como Juninho Paulista, Boudewijn Zenden, Gaizka Mendieta, Michael Richards ou Danny Mills, tratou de afastar David Beckham da selecção logo que assumiu os seus destinos a seguir ao Mundial da Alemanha, decisão que lhe viria a custar imediatamente alguma impopularidade junto do povo britânico e do lote de jogadores com quem pretendia trabalhar. A equipa sentiu que McClaren lhes tinha tirado o seu líder natural, ou seja, um daqueles jogadores cuja presença acrescenta, indiferentemente do seu rendimento em campo, confiança a toda a equipa. O pior estava para vir para aquele que tinha sido qualificado por todos os especialistas como um treinador que tinha um pensamento e uma panóplia de métodos inovadores (de trabalho) muito avançados para o seu tempo.

McClaren alterou radicalmente o sistema táctico apresentado pela selecção inglesa para um “estranho” 3x5x2 que não encaixava na mentalidade e na parca “cultura táctica” dos jogadores ingleses, apesar de, se ter verificado uma enorme abertura destes às inovações e ao conhecimento introduzido por treinadores estrangeiros como Arsène Wenger, José Mourinho, Claudio Ranieri ou Gerard Houllier nos últimos 10 anos em questão. No entanto, ao longo do ano e meio em que orientou a selecção inglesa, o treinador nunca conseguiu atinar com a fórmula correcta para conseguir criar um bom grupo de trabalho, facto que o levou a utilizar 42 jogadores (42!!) ao longo do seu ciclo. Para termos uma noção do desatino em que se encontrou McClaren, o treinador foi obrigado a utilizar 4 guarda-redes (Scott Carson, Ben Foster, Paul Robinson e Chris Kirkland) diferentes porque nenhum dos convocados conseguiu afirmar-se numa posição anteriormente ocupada por um guardião (David James) que era sistematicamente alvo de críticas por parte dos analistas da comunicação social inglesa. Com toda a razão. James era efectivamente um guardião muito limitado se o compararmos por exemplo com o tigre que era David Seaman. No entanto, dois Seamans não faziam um Andreas Isaksson ou um Edwin Van der Saar.

A falha de Robinson em Zagreb foi somente uma das crassas situações de desespero com que McClaren teve de lidar. No aperto, o treinador foi obrigado a dar a mão à palmatória quando se sentiu forçado a ir resgatar David Bechkam ao seu “caixote do lixo” pessoal para as últimas partidas de qualificação. Tarde de mais. Contra a Croácia, num dos mais sensacionais jogos de qualificação que pude assistir, a selecção inglesa voltou a ruir por culpa da fraca prestação do seu guarda-redes, frente a uma Croácia cínica que capitalizava todas as falhas do seu adversário. Numa falha inadmissível, Scott Carson haveria de arrepiar caminho para a vitória croata em Wembley com uma péssima abordagem a um remate inofensivo de Niko Kranjcar, num jogo em que Joe Cole fez provavelmente uma das melhores exibições da carreira.

Luka Modric – O semi desconhecido que se tornou Deus do Futebol

No meio de uma selecção composta por um misto de jogadores no auge ou no pré-auge das suas carreiras ( Eduardo da Silva, Ivica Olic, Josip Simunic, Robert Kovac, Niko Kovac, Ivan Klasnic, Mladen Petric, Daniel Pranjic, Darijo Srna, Dario Simic) encontravam-se uma série de jogadores que iriam fazer escola no futuro do futebol croata. Jogadores jovens como Vedran Corluka, Ivan Rakitic, Nikola Kalinic Niko Kranjcar ou Luka Modric davam em 2007 os seus primeiros passos na selecção croata naquele jogo em que Wembley gelou com o futebol pragmático exibido pela selecção eslava.

Luka Modric não era na altura um total desconhecido no futebol europeu. Apesar de não ter acesso à informação detalhada que actualmente temos à nossa disposição sobre qualquer jogador, eu sabia que no Dínamo de Zagreb havia um jogador que seria uma das verdadeiras máquinas da sala do meio-campo do futebol mundial. A curiosidade levava-me na altura a pesquisar tudo o que a internet oferecia sobre o jogador que estava na altura a ser disputado por todas as equipas de Londres, em especial, pelo renovado Tottenham Hotspurs. Naquele jogo pude finalmente saber que espécie de jogador era o médio de 22 anos que viria a custar uma nota do outro mundo (16,5 milhões de libras) ao clube presidido com pulso de ferro pela Enic International de Daniel Levy. Modric era efectivamente um médio de bradar aos céus pela forma elegante em como tratava a bola por tu acima de qualquer outra característica, pela sua entrega ao jogo, pela sua rapidez de pensamento, decisão e execução nas transições para o ataque, características que eram aliadas a uma eficácia de passe tremenda que gerava sempre progressão à equipa. Para além de todas estas características, o jogador demonstrava uma especial acutilância nos momentos de pressão, recuperando uma pazada de bolas por jogo. Senti imediatamente nesse jogo que estava defronte de um dos médios mais qualificados para marcar uma geração do futebol. Não estava enganado. O maestro ainda hoje faz escola no futebol mundial.

O oportunista Ivica Olic

A 21 de Novembro de 2007, o então avançado do Hamburgo era conjuntamente com os irmãos Kovac, com Dario Simic, Eduardo da Silva (antes da lesão que quase lhe arruinou com uma carreira iniciado a pulso no Croácia Zagreb aos 16 anos) e com Mladen Petric uma das grandes, senão a maior figura de proa desta selecção croata. Olic era um autêntico all-in-one na frente de ataque. Dotado de um fantástico poder de arranque que lhe permitia fugir a alta velocidade para as costas dos centraisc quando a equipa o solicitava em profundidade, oportunista q.b nos lances de área (aqueles em que muitos avançados parecem perder por completo a noção da realidade) e finalizador, o avançado foi também um dos artistas que mais gostei ver ao longo da minha existência. Clínico, Olic era um daqueles jogadores talhados para resolver um jogo na primeira oportunidade que literalmente apanhasse a jeito para resolver.

Neste jogo frente à selecção inglesa, Olic viria a concluir uma inteligente lance desenhado no contra-ataque por Eduardo da Silva, correspondendo ao trabalho de fixação de 3 defesas do avançado naturalizado com uma desmarcação no limite do fora-de-jogo (completamente regular) para as costas da defesa inglesa no momento da assistência.

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