Análise – Campeonato da Europa de sub-21 – Portugal 2-0 Sérvia – A história de um jogo que tinha tudo para dar errado e deu certo


Uma estreia com o pé direito no grupo da morte deste Campeonato da Europa de sub-21. Uma estreia com o pé direito. Só. A selecção portuguesa fez em poucas oportunidades o que os estéticos sérvios não conseguiram fazer nas 6 ou 7 oportunidades de golo que tiveram ao longo dos 90″: marcar golos. Rui Jorge não é um gajo com estrelinha de campeão. Rui Jorge é um dos raros treinadores competentes nos quadros da Federação Portuguesa de Futebol. Contudo, não posso deixar de ressalvar que o futebol praticado pela selecção portuguesa foi qualitativamente inferior ao que foi praticado pelos talentosos jogadores sérvios, campeões do mundo de sub-20 há dois anos atrás, nos 90 minutos do jogo que terminou há minutos em Bydgoszcz na Polónia. Nem sempre ganha a selecção que pratica o melhor futebol. No entanto, por outro lado, a experiência dita-me que equipas que cometem os erros que foram cometidos pela formação nacional durante os 90″ muito dificilmente redundam numa vitória.

Poucos e felizardos deverão ter sido aqueles que compreenderam a mecânica de jogo ofensiva da turma de Rui Jorge durante a primeira parte. Sem escamotear as dificuldades acrescidas que os sérvios colocaram com a sua bem posicionada, bem organizada, bem articulada e pressionante defesa durante o primeiro tempo, a formação nacional teve muitas dificuldades para cumprir o plano de jogo traçado pelo seu seleccionador. Apesar de ter entrado melhor na partida (aos 4″, Rúben Neves enviou uma bola ao poste na sequência de um livre que sofreu um desvio de cabeça por parte de um jogador à entrada da área, desmarcando por completo o médio do Porto na cara do guarda-redes; o livre foi muito bem “cavado” por Gonçalo Guedes numa acção individual) e de tentado imperar a sua vontade na partida através de transições apoiadas (preferencialmente pelo flanco direito, usando e abusando de combinações e triangulações entre João Cancelo, João Carvalho e Gonçalo Guedes), a formação lusa demonstrou muitas dificuldades para ultrapassar o intenso, pressionante e bem organizado bloco sérvio. Uma das razões que ajudou a explicar em certa medida a nulidadade do futebol ofensivo que foi praticado pela turma das quinas no primeiro tempo foi a marcação individual feita pelo nº10 Mijat Gacinovic a Rúben Neves. Quando o médio pode aproveitar a ausência d0 10 sérvio, a turma de Rui Jorge cresceu no jogo e Neves pode ser o cérebro que é no capítulo da distribuição. Curiosamente, a sérvia abandonou a marcação individual ao médio do Porto 2 ou 3 minutos antes do primeiro golo.

Os sérvios foram muito inteligentes na cobertura de espaços a meio-campo. Fazendo descer um dos avançados ao meio-campo nos momentos defensivos quando não iniciam a pressão ao adversário em terrenos adiantados, a formação orientada por Nenad Lalatovic conseguiu formar 4 linhas de pressão no seu meio-campo para evitar que Portugal pudesse furar o seu bloco através da colocação de jogadores entre linhas. A primeira linha era formada por Aleksandr Curcic,a, a 3ª pelos médios Grujic, Zivkovic e Gacinovic com o apoio do avançado Djurdjevic e por último junto aos centrais, à entrada da área posicionava-se o talentoso Nemanja Maksimovic, ciente de que Daniel Podence, Gonçalo Guedes, Diogo Jota ou Bruno Fernandes, poderiam sair das posições instituídas para tentar criar o desequilíbrio no meio. A entrada de Podence na zona entre o meio-campo e a defesa foi uma das razões que explicou o ascendente de Portugal nos últimos 10 minutos do primeiro tempo. Para além de ter furado o bloco sérvio, o avançado permitiu que o flanco esquerdo entrasse mais em jogo.

Mais mecanizada ao nível de processos num futebol vistoso e eficaz a sair de trás, os sérvios conseguiram explanar todo o seu futebol. Maksimovic foi muitas vezes visto a ir buscar a bola aos centrais para amenizar os efeitos da 1ª linha de pressão dos portugueses, de forma a encaminhá-la para o médio do Liverpool Grujic. Por sua vez Grujic procurou sempre dar sentido à construção de jogo da sua equipa. Percebendo que os 3 da frente de Portugal não desciam (em especial os dois extremos) e que os médios  portugueses estavam a dar muito espaço nas suas costas, o médio do Liverpool só teve que optar pela constante procura através de passes verticais da principal referência da equipa na fase de criação (Andrija Zivkovic) ou lateral o jogo para as subidas dos laterais Gajic e Antonov. Qualquer um destes processos foi eficaz. Aos 10″, numa jogada em que os sérvios realizaram uma excelente variação de jogo da esquerda para a direita em poucos toques, frente a Kevin Rodrigues, Zivkovic abriu espaço para a entrada do lateral Gajic. Com um cruzamento rasteiro para a área, o lateral sérvio ofereceu o golo a um companheiro de equipa. Rúben Neves foi expedito a cortar o remate realizado, evitando na hora h um autêntico golo cantado que saiu dos pés de Gacinovic. Várias perdas de bola por parte dos jogadores portugueses dentro do seu meio campo permitiram ao jogador do Benfica ficar em situações altamente favoráveis nas quais tentou desequilibrar através de passes de ruptura para as diagonais dos avançados e cortes para dentro seguidos de tabela. Exemplo disso foi o lance construído pelo jogador do Benfica aos 26″ – com um passe de ruptura para a diagonal de Uros Djurdevic sobre os centrais portugueses, o extremo sérvio colocou o seu ponta-de-lança na cara de Bruno Varela. A finalização do jogador do Partizan acabaria por ser bastante infeliz.

Pouco depois foi Djurdevic quem tentou lançar em profundidade Curcic para as costas dos centrais. O passe do avançado foi bem medido mas Bruno Varela estava atento. O guardião do Vitória do Setúbal foi rápido a sair dos postes para anular a investida sérvia à entrada da área.

Até ao lance do golo pode dizer-se que a equipa portuguesa desapareceu do ataque. Com uma circulação de jogo incipiente face à pressão sérvia, o jogadores colocados entre as linhas sérvias e uma circulação que não privilegiava a rotação de bola entre flancos, o flanco esquerdo português parecia estar adormecido. No entanto, haveriam de ser os jogadores desse mesmo flanco a construir o lance do golo. Num lance fantástico em que Diogo Jota foi a um zona interior receber um passe de Bruno Fernandes (algo lento na primeira parte a contrastar com a velocidade a que se exibiu no 2º tempo) Daniel Podence desmontou por completo a defesa sérvia com um corte para as costas da defesa sobre as costas de Maksimovic. O extremo do Atlético de Madrid que esteve emprestado Porto na temporada 16\17 colocou a bola na área para a entrada do avançado do Sporting. Sem ângulo para o remate Podence acabou por ser feliz quando tentou servir a entrada em zona de finalização de Gonçalo Guedes. O guardião sérvio Milinkovic Savic foi mais rápido a chegar ao esférico mas cometeu uma enorme fífia quando o colocou na cabeça do jogador do PSG. Portugal vencia sem justificar.

O golo libertou a formação de Rui Jorge e teve o dom de enervar os sérvios. O intervalo por sua vez serviu para que o seleccionador português mudasse a estratégia de abordagem ao jogo. Para além de baixar as linhas até ao seu meio-campo, o seleccionador português aproveitou o descanso para emendar alguns dos erros posicionais cometidos durante o primeiro tempo colocar Bruma em campo no lugar de Diogo Jota, escolha que fez algum sentido na minha modesta opinião. A pressão sérvia não se desintensificou mas o trio do meio campo foi mais dinâmico na forma em como tentou aproveitar cada recuperação de bola a meio-campo para lançar em profundidade o contra-ataque. Bruno Fernandes cresceu imenso no jogo quando se pode aproximar da área sérvia e Bruma sempre deu para o desgaste. Não sendo objectivo, o jogador que se transferiu durante a presente semana do Galatasaray para os alemães do Leipzig pode criar algumas situações de perigo através do seu portentoso e veloz drible pelo flanco esquerdo.

No entanto, os sérvios voltaram a ficar por cima da partida. Aos 57″, em nova jogada construída por Zivkovic na direita, o jogador do Benfica ofereceu o golo a Grujic. No meio dos centrais portugueses (bastante trémulos nas divididas; Ruben Semedo arriscou imenso em diversos lances), sem marcação, o médio do Liverpool cabeceou ao lado. Rui Jorge sentiu a necessidade de colocar Renato Sanches em campo para acrescentar mais músculo ao meio-campo e mais velocidade na transição. De positivo, do médio do Bayern, só se viu a assistência para o lance do golo. E mesmo assim, creio que o jogador foi feliz na assistência porque na jogada em questão se denotou que ele ficou ali 10 segundos sem saber o que fazer com a bola. Quem viu a exibição do médio viu um jogador que passa mal, pouco esclarecido, mal posicionado em maior parte dos lances em que foi chamado intervir, langão, pouco intenso nos momentos de perda da bola e algo lento a descer.

Aos 68″, Lalatovic mexeu na sua equipa. Para o lugar de Marko Grujic, o seleccionador sérvio fez entrar o estonteante Nemanja Radonjic. A substituição levou o seleccionador sérvio a colocar uma linha de 3 criativos à frente de Maksimovic. Radonjic teve um fantástico momento na partida assim que entrou num lance em que depois de conseguir tirar João Cancelo com um corte para dentro, preparou um remate de pé direito que saiu por cima da baliza de Varela.

Rui Jorge respondeu no mesmo minuto com a entrada de Iuri Medeiros. Numa altura em que a equipa portuguesa estava a conseguir sair para o ataque com mais pragmatismo nas acções de contragolpe (Ruben Neves cresceu muito nesta fase da partida), o extremo que o Sporting emprestou na temporada 16\17 ao Boavista podia ter arrumado com a partida quando, depois de receber na esquerda frente a frente ao lateral Antonov, entrou na área, tirou o lateral do caminho e rematou em arco ao lado. A honra de fechar o resultado pertenceria a Bruno Fernandes 3 minutos depois. Num lance em que Renato Sanches cometeu uma pequena hesitação à entrada da área depois de ter passado a patacos um jogador sérvio com o drible, o jogador do Bayern viu o corte de Bruno Fernandes para as costas dos centrais sérvios e colocou lá bola.

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