Análise – Taça das Confederações – Portugal 2-2 México


Ao longo dos 90 minutos, as bolas paradas foram um problema para a nossa selecção. Não quero com isto dizer que os mexicanos tenham criado perigo de maior neste departamento específico do jogo, porque não criaram, mas, a abordagem aos lances, não foi positiva. Vários foram os livres e cantos que não foram devidamente atacados. Aos 91″, num lance em que creio que Rui Patrício deveria ter sido o corajoso guarda-redes que é, José Fonte perdeu o duelo aéreo para o seu congénere mexicano Hector Moreno. A cabeçada do central que actualmente representa o PSV Eindhoven deu justiça ao resultado de uma partida medíocre em que pudemos ver dois estilos completamente diferentes na estética mais iguais ao nível de objectividade: zero. De um lado tivemos o tosco chutão em profundidade dos campeões europeus frente ao dinâmico teste que os mexicanos colocaram em campo ao treino analítico de circulação de bola que foi ministrado nos últimos meses pelo seleccionador mexicano Juan Carlos Osório

Comecemos pelo final. Na sequência deste post, façam uma verdadeira reflexão ao futebol praticado pela formação de Fernando Santos até aos 80 minutos, altura em que o treinador português deu finalmente mostras de querer ganhar a partida ao inserir André Silva. Nestes dois períodos temporais, quantifiquem as oportunidades de golo que fomos capazes de criar – 4 em 80 minutos (remate de Ronaldo à trave seguido do golo correctamente anulado pelo videoárbitro nomeado para a partida; lance do 1º golo, um remate de Quaresma numa acção de 1×2 com Ronaldo e um remate de Cedric na cara de Ochoa na mais bem conseguida jogada criada pelos portugueses ao longo dos 90 minutos) e as mesmas oportunidades de golo criadas com o avançado do Porto em campo em 10 minutos (3). Juntem-lhes os processos de jogo distintos que foram cozinhados: o jogo em profundidade medonho que praticámos durante 80 minutos (intervalados poruma ou outra aceleração de Ronaldo no contragolpe) vs a transição rápida nos últimos 10. Para apurar o sabor, adicionem a este cozinhado a quantidade de vezes que Ronaldo apareceu em zona de finalização nestes períodos distintos. Se André Silva não é a entrada apetecível para o prato principal, o génio de Ronaldo, e até se o avançado não serve com mais categoria que o sopeiro Nani (esteve em campo?) quando vem atrás apoiar a construção de jogo, creio que não me resta mais do que vos pedir para sair do meu restaurante sem pagar. O futebol da nossa selecção frente à selecção mexicana foi medonho…

… Porque acima de tudo, foi bem contrariado defensivamente pela selecção mexicana. A pressão alta dos mexicanos, estratégia que foi devidamente trabalhada pelo seu seleccionador para obrigar os centrais portugueses ao erro (José Fonte falhou seguramente mais de 20 passes; exibição desastrosa a todos os níveis; mesmo ao nível defensivo, o central saiu mal na dobra às investidas de Carlos Velaou para os obrigar a devolver a bola quando, à falta de linhas de passe seguras, tentaram jogar em profundidade, garantiu per se o domínio da posse de bola. Contudo, qualquer domínio ao nível da posse e ao nível de território não pode ser profícuo se a equipa ficar presa a um futebol dinâmico apoiado de pé para pé sem gerar progressão. Do ponto de vista estético, a circulação de jogo dos mexicanos foi linda. Qualquer pessoa gosta de ver um futebol de circulação dinâmico no meio-campo adversário, alas bem projectados no ataque. Qualquer pessoa gosta de ver a bola a rodar de pé para pé, de ver jogadores a sair das marcações instituídas para ir tabelar ou triangular com os colegas Do ponto de vista prático, foi estéril. Carlos Vela foi provavelmente um dos únicos jogadores que pensou fora da caixa quando tentou acrescentar imprevisibilidade com as suas velozes incursões pelo flanco direito. Pelo menos, o jogador da Real Sociedad, conseguiu, em vários momentos distintos, colocar em pânico Raphael Guerreiro.

Esta é a leitura mais básica a uma partida na qual a selecção portuguesa entrou muito mal. Defensivamente houve organização (alas bem preenchidas; jogadores comprometidos no esforço defensivo, capacidade de cobertura posicional apesar da intensidade da pressão dos médios não ter sido a melhor quando os médios mexicanos interligavam o jogo com Chicharito ou Jimenez) mas ofensivamente não houve ponta que se lhe pegue. No primeiro tempo, a formação orientada por Fernando Santos viveu dos fogachos de Cristiano Ronaldo e de Ricardo Quaresma, quando a bola lhe era endereçada em condições, facto que foi raro dada a quantidade de passes sem nexos que foram falhados. A sair a partir de trás, os centrais portugueses viram-se enfiados sempre num espartilho de 2×2 (ao qual os laterais, abertos, não foram capazes de ajudar porque também tinham as suas sombras por perto) e tanto Moutinho como William não foram capazes de vir atrás buscar o jogo com ideias claras do que fazer com o esférico. A selecção portuguesa precisou muito sinceramente de um jogador de capaz de pegar no jogo cá atrás de forma a chamar os companheiros um por um para empurrar a selecção mexicana até ao seu meio-campo.

Mesmo assim, sempre que pode, os dois jogadores tentaram fazer o que lhes era possível. Aos 16″ Quaresma rematou ao lado numa jogada individual (a bola chega ao extremo porque Ronaldo foi à esquerda criar um desequilíbrio ao fintar dois mexicanos) e aos 20″, o craque do Real Madrid estoirou com a barra no lance que veio, à posteriori, a resultar no golo que foi correctamente invalidado pelo videoárbitro nomeado pela FIFA para a partida por fora-de-jogo de várias unidades no decurso da jogada que foi finalizada por Pepe.

Os mexicanos respondiam de livre directo. Carlos Vela, o mais atiçado dos mexicanos, atirou ao lado na cobrança de um livre que castigou uma falta de André Gomes sobre um adversário à entrada da área.

Aos 28″ uma boa incursão de André Gomes (boa troca posicional quando foi para a direita, libertando Quaresma para o corredor central, actuando mais próximo de Ronaldo) ofereceu a Quaresma a possibilidade de servir a entrada de Cédric na área. Muito atento, Ochoa provou a razão pela qual é conhecido por ser um dos guarda-redes com menor velocidade de reacção da última década. Rápido a sair dos postes, o mexicano pode embelezar a sua agradável exibição com uma mancha a negar o golo ao lateral do Southampton. O guardião mexicano voltaria a exibir-se em estilo quando Moreno poderia ter feito um auto golo de belo efeito a um cruzamento (quase certeiro) de William à procura de Nani. Do desaparecido e inútil Nani.

O que o guarda-redes mexicano não conseguiu evitar foi o primeiro de Portugal na partida. Num lançamento em profundidade para as costas dos centrais mexicanos, Ronaldo colheu o esférico, caminhou para a área na presença de 3 jogadores e foi inteligente na forma como viu e serviu a entrada de Quaresma face à perda do seu próprio tempo de remate na situação em causa. O ciganito de ouro concluiu o trabalho com um drible mortífero louvável sobre Ochoa antes de empurrar para a baliza deserta.

Eis o cinismo habitual desta selecção.

Quaresma poderia ter oferecido o 2º 5 minutos depois naquele lance bem desenhado por Ronaldo (de calcanhar) no 1×2 com o extremo. Se o extremo do Besiktas tivesse passado a bola para a entrada de Raphael Guerreiro (naquela posição sem oposição seria golo pela certa) em detrimento do remate que veio a efectuar, a equipa poderia ter ganho outra tranquilidade na partida, tranquilidade que veio a ser abalada com o golo dos mexicanos na falha de Raphael Guerreiro aqui descrita ao intervalo. 

Os mexicanos poderiam ter feito o 2-1 num lance em que Vela passou de mota por 3 jogadores (André Gomes, Raphael e Fonte) pela direita, antes de servir a entrada por dentro de Jimenez na área. Com o desequilíbrio criado, o jogador do Benfica pode servir Chicharito, que, por sua vez, estragou um golo cantado com um péssimo remate por cima.

Eis que o intervalo pouco ou nada vieram rectificar. O único aspecto que o descanso veio modificar foi a disposição dos mexicanos em campo. A gasolina para pressionar alto terminou e a formação de Osório decidiu baixar ligeiramente as linhas. No ataque, os mexicanos pouco ou nada alteraram. O seu carrossel de trocas curtas continuou, pese embora a clara diminuição da velocidade de circulação (e do próprio ritmo de jogo em geral).

Juan Carlos Osório agudizou a situação quando tirou o seu jogador mais interventivo na partida (Carlos Vela) para colocar Giovanni dos Santos. O antigo jogador do Barça e Villareal, jogador que actualmente alinha nos americanos dos Los Angeles Galaxy não beneficiou tanto da presença de Carlos Salcedo mas teve a companhia (por perto do irmão). Viria a ter um momento de destaque na partida quando pode realizar uma inflexão da direita para o centro seguida de remate (para fora) num lance em que Raphael Guerreiro voltou a demonstrar muita intranquilidade na “abordagem à queima” ao passe de Jonathan dos Santos para o irmão.

Já Fernando Santos decidiu mudar o sistema táctico, passando-o para um aberto 4x3x3 com a entrada de Adrien e Gelson para os lugares de Moutinho e Nani, fazendo recuar André Gomes ao meio-campo. O 4x3x3 pleno abriu a defesa mexicana mas Portugal não retirou muitos proveitos da mudança porque existiu um distanciamento colossal entre unidades. O próprio médio do Sporting não foi tão lesto na distribuição como o seleccionador queria, apesar de ter dado mais combatividade ao meio-campo. Sempre que devia ser expedito ao nível de processos nas transições, Adrien perdeu-se em divididas escusadas contra Guardado.

Aos 62″, André Gomes perdeu uma boa oportunidade de finalização quando acresceu mais toques daqueles que deviam ter sido dados num fantástica incursão com bola até à área. Até aos 10 minutos finais, a qualidade do futebol caiu a pique de parte a parte. O único lance de destaque foi protagonizado por André Gomes quando, na transição, livrou-se de dois mexicanos antes de verticalizar o jogo para a entrada de Gelson no corredor central. O jogador do Sporting acelerou a jogada e distibuiu para o remate de Quaresma contra um adversário na esquerda.

Os treinadores decidiram lançar as suas cartadas. Osório lançou o combativo Peralta e Fernando Santos lançou André Silva, voltando portanto, à fórmula inicial. O avançado poderia ter marcado aos 84″ quando, no meio dos centrais mexicanos, teve todas as veleidades para cabecear para uma parada brilhante de Ochoa.

Com ou sem ajuda de CR7 William já tinha tentado em várias ocasiões estabelecer uma linha directa com o seu companheiro de clube Gelson Martins. No entanto, os passes em profundidade não estavam a sair correctamente ao trinco do Sporting. Na jogada do 2º golo, Ronaldo veio apoiar a interligação e Cedric (vejam o corte para dentro no momento do passe de Ronaldo para Gelson) foi feliz na decisão tomada, ao colher a 2ª bola vinda da má recepção que foi protagonizada por Hector Herrera. No entanto tenho que referir que esta jogada só decorre nestes moldes porque obviamente está André Silva na área. Ronaldo interliga sectores mas Gelson sabe que tem uma referência na área.

O que Gelson não soube foi matar o jogo no tempo correcto. Aos 86″, noutra incursão em profundidade na qual André Silva foi solicitado na esquerda, o avançado serviu bem a entrada do extremo do Sporting na zona de finalização, mas, depois de ter rodado bem sobre o seu adversário directo, Gelson atirou ao lado.

O resto da história já a conhecem. Os mexicanos foram lá à frente, conquistaram um livre. William cedeu canto e na sequência do canto, Moreno colocou alguma justiça no resultado pela estética que os mexicanos depositaram nas suas acções ofensivas e pela capacidade de pressão revelada no primeiro tempo. A

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