Análise – Campeonato da Europa de sub-21 – Portugal 1-3 Espanha – Milagres? Não há Sr. Rui Jorge


No sábado, contra os sérvios, relatei aqui um jogo no qual foi feito tudo para dar errado e tudo acabou estranhamente por dar certo. Da entrada que nos foi servida por Rui Jorge, comi só pela metade porque naquele momento tive o bom senso de guardar o meu estômago para as provas do prato principal frente aos espanhóis. No jogo frente à selecção espanhola queria perceber se a estreia dos sub-21 portugueses frente aos sérvios tinha sido um mero e normal momento de nervosismo inerente a estes momentos ou um sintoma avançado de um grupo extremamente desequilibrado e mal trabalhado.

Frente aos espanhóis fiquei com a sensação que o actual elenco que o seleccionador levou à Polónia é um elenco que reparte entre si um bocado de tudo: de desequilíbrio, de falta de qualidade e de falta de trabalho. A repetição de processos de jogo é exasperante, a falta de intensidade do meio-campo é exasperante. A incapacidade de Rúben Neves em organizar devidamente o jogo é gritante. A falta de uma referência de área é exasperante. Aquele lateral esquerdo que fomos importar à Real Sociedad é das coisas mais fracas que vi a jogar numa selecção portuguesa. Os maus cruzamentos do Cancelo levam-nos à loucura (ainda para mais quando não existia uma referência de área) e na melhor parte do pano, aquela fífia cavalar do Rúben Semedo estragou uma boa exibição do central na abordagem a 90% dos lances em que foi chamado a intervir. Para vencer por 3-1, os espanhóis nem tiveram que forçar o andamento. Tiveram apenas que ser mais competentes e eficazes nos momentos chave da partida.

No meio disto tudo acabaram por se salvar as exibições de Bruma, de Daniel Podence, de João Carvalho (a espaços) e de João Cancelo. Daniel Podence foi de longe o elemento mais desequilibrador frente à turma espanhola mas, na cabeça do seleccionador, as 3 ou 4 situações de golo que criou não foram suficientes. Outros jogadores com Rúben Neves ou Renato Sanches continuam a receber carta branca para se arrastar em campo. Quando assim é, não podem existir milagres Sr. Rui Jorge. 

Principio basilar do futebol: Um flanco dinâmico e agressivo começa na dinâmica, no arreganho e na agressividade de um bom lateral. Se uma determinada equipa tem nos seus laterais dois entes acanhados que não pedem para entrar no jogo durante 90 minutos, a situação que irá acontecer com mais probabilidade é uma atitude de massacre do adversário sobre esses jogadores. Um lateral ofensivo não ajuda apenas a equipa nos momentos ofensivos. Um lateral ofensivo retira imediatamente o extremo contrário de circulação, obrigando-o a passar mais tempo atrás da linha do meio-campo do que no seu último terço.

Os prometedores 20 minutos iniciais da nossa selecção no Gydnia Stadium deram-me a sensação que poderia ter sido apanhado na curva em relação ao que escrevi no sábado no jogo contra os sérvios. A formação de Rui Jorge entrou com ganas de tentar lutar pela vitória para resolver a questão do apuramento frente à fortíssima e competente selecção espanhola, em virtude do empate prévio obtido entre sérvios e macedónios durante esta tarde. Sem subestimar o adversário de enorme valia técnica e táctica que tínhamos à nossa frente, a inexistência na frente de ataque de um jogador que funcionasse como referência de área (contra os sérvios, o seleccionador português já tinha optado pela colocação de Daniel Podence junto aos centrais) acabou por ser fatal dado o caudal ofensivo que conseguimos criar. Com um flanco direito muito dinâmico (constantes 1×2 entre João Carvalho e João Cancelo; o lateral do Valência dava a devida largura necessária aos esforços de distribuição do médio que o Benfica emprestou na 2ª metade da temporada ao Setúbal; Carvalho esforçava-se por cortar para a linha assim que Cancelo recebia a bola com o intuito de aproveitar as facilidades concedidas por Johnny Castro; mais colado aos centrais; e por Marco Asensio, jogador que não conseguiu fechar convenientemente a linha de passe de Carvalho para as subidas de Cancelo nas suas costas) mas nada funcional (hão-de-contar as transições em que Rúben Neves fez um esforço para pegar no jogo) fomos criando algumas jogadas dignas de registo, pese embora o facto de todas investidas terem acabado quase sempre da mesma forma: com um cruzamento de Cancelo para as mãos do Guardião do Athletic de Bilbao Kepa Arrizabalaga. A cada cruzamento de Cancelo sentiu-se obviamente a falta de uma referência de área. A adopção desta estratégia foi obviamente questionável. Apesar de Rui Jorge ter pedido aos seus extremos (Podence e Gonçalo Guedes) para se juntar a Bruno Fernandes na área quando Cancelo conseguia receber a bola com êxito na direita, para um lateral, uma coisa é servir um avançado que sabe o que faz dentro da área. Outra coisa é chegar a uma situação de cruzamento sem saber onde meter a bola porque quem está dentro da área não faz a mínima ideia para onde deve ir.

O irrequieto Podence – Com um fantástico trabalho sobre um adversário à entrada da área seguido de um remate rasteiro, Daniel Podence poderia ter inaugurado o marcador logo aos 10″. A bola haveria de bater caprichosamente no poste esquerdo da baliza de Kepa.

Aos 20″ tudo mudou de figura. Os espanhóis colocaram o seu virtuoso meio-campo a funcionar quando subiram linhas, aproveitaram a falta de intensidade demonstrada pelos médios portugueses nas situações em que Saúl Niguez, Marcos Llorente e Daniel Ceballos faziam circular a bola com alguma facilidade entre flancos e o flanco direito da formação orientada por Albert Celades começou a carburar. Sem optar excessivamente pela colocação de cruzamentos por alto para a área porque os espanhóis também jogaram com um jogador na frente que não é uma referência de área embora finalize bastante bem, a ideia de jogo da formação espanhola residia na exploração dos flancos para servir bem pelo chão as entradas do jogador do Malága em zona de finalização. Os processos que iriam render o 2º golo aos espanhóis num lance em que o nosso meio-campo ficou completamente a dormir na transição.

Os slaloms do Saúl

Habituado a ser campeão olímpico dos slaloms com bola no Atlético, Ñiguez aproveitou aos 21″ uma bola dividida com Bruno Fernandes para inaugurar o marcador num lance em que, para além da sorte que o jogador espanhol teve no lance (a bola desvia em Ié), Rúben Neves e Kevin Rodrigues fizeram autêntica figuras de palhaço. Neves não foi rápido a chegar ao jogador para o desarmar e não quis meter o pé (não podia fazer falta para não ser expulso por acumulação) enquanto o lateral esquerdo da Real Sociedad não teve, pura e simplesmente, engenho para fazer falta numa situação clássica cuja experiência já o deveria ter aconselhado. Quando tem este tipo de situações nos pés, o médio do Atlético raramente não cria perigo à baliza adversária.

Portugal tentou responder de imediato. Edgar Ié lançou uma bola longa à procura de Gonçalo Guedes na área. Rodeado pela defesa adversária, o jogador do Benfica rodou com estilo mas atirou ao lado. À falta de um flanco esquerdo (Renato Sanches promoveu duas ou três acelerações na saída para o contragolpe, sendo derrubado em falta pelos inteligentes jogadores espanhóis; de resto, pouco ou nada voltámos a ver do médio do Bayern) ia funcionando bem o direito até chegar à área.

Aí vêm as Sevillanas

Cheirar, cheirar, cheirar. Contra os espanhóis, cheirar cheirar. O momento em que Rui Jorge tira o seu melhor jogador da partida.

Rui Jorge deu ordens para intensificar a pressão alta que Portugal estava a querer colocar no jogo desde o minuto inicial, na abertura das hostilidades na 2ª parte. Num erro comprometedor cometido por Gerard Deulofeu num lance em que o extremo do Everton tentou devolver a bola aos centrais perante a proximidade de Daniel Podence, o extremo do Sporting interceptou o passe, fixou 2 defesas na sua acção e abriu para um remate cheio de efeito de Bruno Fernandes que causou muitas dificuldades a Kepa. Noutro lance, aos 50″, o jogador do Sporting foi incomodar o central Mère junto à linha lateral numa situação em que o central do Sporting de Gijón deu como garantida a saída do esférico pela lateral. Rápido que nem uma flecha, o português chegou primeiro, levou a bola para a área em velocidade e rematou cruzado ao lado. Como recompensa pela sua irreverência, Rui Jorge decidiu tirá-lo para colocar Bruma. O amorfo Gonçalo Guedes e o destemperado Bruno Fernandes (4 remates sem nexo e 1 remate com nexo) ficariam em campo a secar mais uns minutos… Se lhes juntarmos Renato Sanches…

Os espanhóis responderam em velocidade na transição. Num lance desenhado pela direita por Deulofeu e Bellerin (corte por dentro para a entrada na área) o extremo colocou a bola à mercê da finalização do lateral. O jogador do Arsenal fez-se esquisito e tentou servir Sandro Ramirez. João Cancelo cortou contra Semedo e a bola foi parar nos pés do até aí “mediano” Marco Asensio. O jogador do Real só não marcou porque Edgar Ié cortou junto à linha de golo.

As transições para o contragolpe haveriam de dar o seu devido efeito no lance do 2º golo, num lance em que os espanhóis já estavam mais interessados, à boa maneira do Barça de Guardiola, em fazer “cheirar, cheirar” os portugueses com o seu jogo de contenção.

Qual é a função de Ruben Neves em campo se não distribui nem serve de tampão às investidas contrárias no contragolpe? Onde é que estava o lateral esquerdo? Como cantava o Eros Ramazotti foram cosas della vita…

Mas Bruma lá tentou reabrir o jogo com aquele monumental golaço que deverá ser um dos melhores senão o melhor do torneio e com um par de dribles sobre os adversários enquanto Gonçalo Paciência, foi visto a ser admoestado com um cartão amarelo. Já Ricardo Horta trouxe alguma dinâmica ali à estrada da área, mas, o jogo já pendia severamente para o lado dos espanhóis.

E Ruben Semedo estragou por completo uma boa exibição onde em 90% dos lances em que foi chamado a intervir, foi imperial. No lance do 3º golo dos espanhóis, o central cometeu uma borrada de todo o tamanho frente ao Lucky Luke Inaki Williams. Quem dá um salvo conduto desta espécie a um jogador tão rápido como o avançado do Athletic de Bilbao.

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1 thought on “Análise – Campeonato da Europa de sub-21 – Portugal 1-3 Espanha – Milagres? Não há Sr. Rui Jorge”

  1. Não me revejo muito na análise. Portugal é claramente mais equipa que os espanhóis, mas estes têm valores individuais mais fortes, e por isso acabaram o jogo com 3 golos em 4 ou 5 remates à baliza. De notar, que contra a Macedónia, foi igual. Não estavam a ter a bola, mas nas poucas vezes que foram à baliza, faturaram. Talento é isto.

    E se quisermos ser práticos na análise, no primeiro golo do Saul, a bola ressalta, primeiro, no Bruno Fernandes, e depois no Edgar Lê; O terceiro golo é outro erro individual, que daria pena a qualquer central duma 2 divisão.
    A filosofia de jogo do Rui Jorge, encanta-me, mas há jogadores que não estão na posição onde são mais fortes: João Carvalho fica-se pelo competente, e Podence, apesar de bem naquilo que pode dar ao jogo, não é nunca o avançado que a seleção precisa num estilo de jogo de dois avançados rápidos, incisivos e de dois toques; O seu jogo interior foi quase nulo, até pela sua compleição física, obrigando-se o mesmo, a ter que procurar espaços sempre longe da área, sobretudo no flanco esquerdo onde o Kevin serve apenas para dar solidez defensiva. Isto fazia com que Portugal não tivesse jogadores a procurar movimentos de ruptura entre os centrais espanhóis, fazendo apenas movimentações entre o central e o lateral, exteriorizando muito o seu jogo, não tendo, depois, ninguém na área, para o golpe final. Em suma, Podence tem características para ser fundamental em posições à volta da área, porque é ágil, rápido e esguio, e tem imaginação. Jogando num 4-4-2 como avançado, faz Portugal perder presença na área porque é um jogador que tende sempre a procurar outros espaços.

    Um meio com Neves, Podence na esquerda, Fernandes na direita, e Sanches no meio, seria a minha escolha. Bruma ou Jota, mais Guedes. Seria o 4-4-2 mais complementar desta seleção.

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