O impensável aconteceu


“The only people who are saying that Scotland aren’t up to it is the Scottish media. You keep putting yourself down and maybe it’s so you can get up for the game. We think Scotland are a top team. We never said anything about that, you guys say it and then you perpetuate the story back through us somehow. I don’t see our media saying that. ” – Esta foi a afirmação que o seleccionador australiano utilizou, perdoem-me o termo na sequência do flagelo que tem vindo a afectar o nosso país nos últimos dias, para apagar o fogo que foi a conferência de imprensa a seguir à derrota da Austrália contra a selecção escocesa. Antes de criticar a prestação dos seus jogadores, Cheika decidiu “elevar” a selecção B do adversário até a um expoente nunca antes visto naquele país. À imagem e semelhança daquilo que tem feito os principais dirigentes da Australian Rugby Union, o seleccionador nacional Michael Cheika tem vindo a empurrar com a barriga os principais problemas que tem vindo a afectar o presente do rugby australiano.

Ao contrário do que muitos tem dito nos últimos dias, a culpa da derrota da selecção australiana não foi da dupla de médios Bernard Foley e Will Genia, porque este tipo de erros podem acontecer a qualquer um (quem diria que Genia, um belíssimo chutador iria falhar naquele lance do ensaio escocês precisamente no momento em que Bernard Foley, um jogador que raramente é sancionado do ponto de vista disciplinar estava no sin bin?) nem residiu na falta de atitude defensiva da equipa (o melhor ainda voltou a ser novamente o “novato” Karmichael Hunt, embora o centro não se tenha exibido com tanta agressividade com que se exibiu no seu jogo de estreia pelos Wallabies) ou na lentidão com que os jogadores chegaram às disputas nas formações espontâneas. Tests são tests. No desporto não se podem almejar grandes resultados quando o trabalho de fundo que é realizado não se coaduna minimamente com os resultados que se pretendem alcançar.

Os problemas actuais do rugby australiano residem numa série de factores que para além de estarem a tornar o rugby australiano cada vez mais insustentável do ponto de vista financeiro, estão a aumentar o gap existente em relação às outras grandes nações da modalidade.

O primeiro dos problemas (financeiros e desportivos) reside no facto de todos os jogadores australianos serem pagos pelas suas respectivas selecções provinciais (actualmente em sistema de franchises no Super Rugby) ao invés do sistema de contratação centralizada que é utilizada pelos Kiwis. Na Nova Zelândia todos os jogadores que actuam na Super Rugby assinam um contrato profissional com a federasção Ao assinarem um contrato com todos elegíveis a curto e médio prazo para a sua selecção, a Federação neozelandesa incute no seu rugby a ideia que todos devem trabalhar para a prossecução de um objectivo comum indiferente à rivalidade existente entre selecções provinciais na principal prova do rugby austral: a melhoria da selecção neozelandesa de rugby e do próprio rugby neozelandês. Na Austrália, os elegíveis para a selecção australiana ainda estão presos num sistema de contratação que pouco ou nada acrescenta às selecções – todos os jogadores adoram jogar pela selecção e são capazes de dar o litro pelos Wallabies, mas no fundo, interessa-lhes muito mais realizar uma boa campanha no Super Rugby para terem acesso a uma melhoria contratual no final do respectivo contrato com a selecção provincial (franchise) que representam ou com outra que se chegue à frente com o cheque para pagar mais. A selecção não ganha absolutamente nada com isto. Para determinados jogadores só as exibições no Super Rugby é que contam porque são as únicas que os podem conduzir a rendimentos superiores.

Na óptica dos franchises, a estratégia que tem vindo a ser seguida nos últimos anos está a tornar-se insustentável. Todos os franchises querem ter os melhores jogadores do país a jogar nas suas equipas. Como os bons jogadores começam a escassear no país, os franchises são obrigados a licitar entre si jogadores por valores astronómicos. Aqui entra obviamente a lei da procura e da oferta: sempre que a procura é muita e a oferta é escassa, o “preço do bem” dispara. Em sentido contrário a este fenómeno correm obviamente as receitas que são obtidas pelo franchises. Como as equipas australianas não estão a conseguir obter resultados de maior e o seu nível exibicional tem sido cada vez mais nivelado por baixo, as pessoas deixam obviamente de consumir o espectáculo. As receitas de bilheteira diminuem e os franchises começam a não ter capacidade para pagar os altíssimos ordenados que pagam às suas principais estrelas. Outra das razões que explicam o estado de bancarrota a que chegaram alguns franchises australianos reside no facto dos jogos não serem transmitidos em sinal aberto, ao contrário dos jogos das competições de outras modalidades (desportos-rei de espectro nacional) como o Aussie Rules ou o Cricket. O sistema por subscrição não é obviamente tão apelativo ao consumidor quanto o sistema de transmissão em sinal aberto. Soma-se a isso o facto do Rugby Union não ser uma modalidade com uma abrangência nacional. Se exceptuarmos os estados de Queensland e New South Wales, os restantes estados australianos não querem saber de Rugby Union para nada. O exemplo mais paradigmático é o Estado de Victoria. A abertura de um novo franchise (Rebels) em Melbourne está a conseguir inverter a realidade de um estado em que até há bem pouco tempo só 7% dos atletas federados praticavam Rugby Union e em que, de todos os convocados para as selecções australianas de idade júnior ou sénior, apenas 2% eram naturais do estado. Como as subscrições diminuem, o valor relativo às receitas oriundas da cedência de direitos televisivos a distribuir pelos franchises é menor a cada ano que passa.

Outro dos grandes problemas que não foi atempadamente resolvido pela ARU residiu no facto de se ter chegado à conclusão que os treinadores australianos de primeira linha tem um défice qualitativo saliente. Ou como quem diz: estão atrasados em relação à generalidade dos técnicos de outros países. Para o efeito, a Federação Australiana sentiu necessidade de ir ao terreno analisar esta questão para desenvolver um conjunto de estratégias que visem dar soluções ao problema. Uma das soluções que foi avançada nos últimos meses redundou na criação de um Painel Nacional de Treinadores prontos a auxiliar o desenvolvimento de um conjunto alargado de treinadores nos diferentes níveis de desenvolvimento da modalidade no país.

Mais grave que isso foi a queda ao nível do número de praticantes. Nos últimos 2 anos cerca de 7000 jogadores (uma redução de cerca de 7,6% do total de jogadores federados na ARU) abandonou a modalidade. Nos últimos 5 anos, a modalidade perdeu cerca de 12 mil atletas (na sua maioria jovens entre os 14 e os 18 anos) para outras modalidades como o voleibol, basquetebol, futebol, andebol, netball, cricket e Aussie Rules. O AusKick, programa nacional criado e desenvolvido pela ARU nos últimos anos para realizar a introdução das crianças entre os 5 e os 8 anos à modalidade tem sido pouco eficiente: para além de ter abrangido menos escolas nos últimos 3 anos do que aquelas que eram abrangidas há 10 anos atrás por outros programas, o número de novos federados tem vindo a diminuir drasticamente. Nos dois principais estados australianos em que (historicamente) o Rugby sempre foi a modalidade mais praticada (Queensland e New South Wales), modalidades como o futebol, basquetebol e voleibol tem reduzido o “desporto” a números que começam ser reveladores de alguma “insignificância”. Algo deveras problemático…

Para finalizar, por mais incrível que possa soar este tipo de discussão a um adepto português da modalidade, porque, pela experiência que tenho do rugby nacional, este ainda parece ser um aspecto tabu aqui em Portugal, na Austrália há uma questão que tem sido discutida com afinco nos últimos anos: o facto do Rugby Union ser um desporto considerado por larga maioria da população como elitista. Curioso não é? Um país que apesar dos seus problemas actuais ainda tem milhares de praticantes, levanta este tipo de questões. Um país que tem meia dúzia de gatos pingados a praticar a modalidade em 3 ou 4 pólos, continua interessado em manter a modalidade sob um estranho manto “socialóide” – para além de estarmos a passar por uma realidade bem distinta ao nível de clubes daquela que tínhamos por exemplo há 10 anos com o chamado boom do mundial (antes do Mundial creio que tínhamos muitos mais afiliados dos que os temos actualmente) existem forças no rugby português que não permitem nem tão pouco apoiam a criação de novos clubes na província. Acreditem no que eu digo: existem por aí pessoas competentes com ideias muito válidas que devem ser apoiadas. Pode não existir na FPR dinheiro para as apoiar (e em alguns casos nem é preciso muito dinheiro mas sim apoio ao nível de material de treino, ajuda na criação de projectos para os contratos-programas das câmaras municipais, formação de técnicos, etc) mas também não tem existindo muita vontade por parte dos seus responsáveis na detecção desses mesmos projectos. Eu próprio já fui vítima dessa crassa falta de atenção quando tentei alavancar o rugby na cidade de Viseu.

Voltemos ao Rugby Australiano depois deste humilde desabafo. Quando o Rugby Union Australiano se profissionalizou em 1995, os agentes desportivos da modalidade tentaram vender a modalidade às classes médias e baixas como “único” pelos seus valores e espectacularidade. No entanto, tal estratégia de aliciamento veio a ser escassa porque no fundo “foi só de boca” – a malta da Aussie Rules foi mais longe quando iniciou um conjunto de campanhas (no terreno) de encorajamento à participação na modalidade dos grupos étnicos minoritários (indigenas, emigrantes). O resultado foi óbvio. A Austrália é actualmente um país com 24 milhões de habitantes, sendo que cerca de 10 desses 24 milhões são representados por imigrantes não-nacionais, 2ªas e 3ªas gerações  e não-nacionais ou com direito à nacionalidade. 28% da população residente no país (cerca de 6,7 milhões) nasceram fora da Austrália. O Rugby Union está a dar-se ao luxo de “perder” 1\4 da população para outras modalidades que vindo a desenvolver projectos bem mais apelativos junto das classes imigrantes. Um desses projectos, desenvolvidos pela AFL (Aussie Rules) leva a modalidade a todas as escolas públicas. A ARU continua a desenvolver grande parte dos seus projectos de iniciação à modalidade nas escolas privadas, em particular, nas instituições que são tuteladas pela Igreja Católica ou pela Igreja Anglicana.

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