Quem nunca treinou, nunca passou por isto


Naquela semana que passámos a treinar dois ou três aspectos não consolidados pela equipa até ao mais ínfimo pormenor para que a equipa no geral ou determinados jogadores não cometessem o mesmo erro cometido nas últimas 2 semanas no jogo seguinte. Naquela semana em que fomos dotados de suficiente paciência para demonstrar ao(aos) atletas aquilo que queremos. À milésima tentativa fracassada no exercício, voltamos a demonstrar paciência quando pegamos carinhosamente o atleta pelo braço para lhe dizer pela milésima primeira vez “é ali, aquilo. Ali. Daquela forma. Vai tu consegues, pá!” – No teste nº2346 o atleta lá consegue realizar o que pretendemos. Soltam-se os fogos. “É agora que isto vai para a frente” – vamos para casa satisfeitos: conseguimos ganhar, com muito esforço, um ponto importante. Afinal de contas, os treinos acabavam mas nós ficávamos mais 15 minutos no relvado a matutar no que é que falhou, no que é que ficou por dizer, no que é que poderá ter ficado por treinar, naquele output que não saiu no tempo correcto, naquele output que nos dá a certeza que o atleta finalmente reteve toda a aprendizagem e aplicou-a correctamente, naquela característica que foi ou precisa de ser trabalhada em determinado atleta, naquele progresso espontâneo que nos surpreendeu sem estarmos a contar. Debaixo do chuveiro, o nosso cérebro continua a girar a mil à hora. A analisar todos os frames de hora e meio de trabalho. No carro, lembramo-nos daquele pormenor que falhou. Paramos na berma da estrada para o anotar de forma a corrigi-lo o mais rapidamente possível na próxima sessão. Vamos para casa. A nossa namorada faz-nos o jantar mas nós ainda estamos com a cabeça a mil. Acabamos por não lhe ligar patavina. Só pensamos na nossa próxima sessão de treino para continuarmos a trabalhar as nossas ideias.

Chegamos ao dia do jogo. Não dormimos bem durante a noite. Na véspera do jogo rezamos literalmente para que nada falhe. Temos a sensação que trabalhámos bem mas tudo é absolutamente falível se entretanto surgir uma nova condicionante que não previmos. Galvanizamos a malta. Pedimos concentração, atenção, rigor, qualidade. Repetimos até à exaustão o que pensamos sobre o adversário. Os seus pontos fortes. Os seus pontos fracos. Os seus processos. As suas jogadas mais comuns. A forma em como o podemos surpreender. Finalizamos com o habitual grito – “vamos ganhar isto, porra. Isto tem que ser tudo nosso” – entretanto vou moralizando tudo e todos. Peço qualidade. Peço esforço – “Hoje vais vestir o fato macaco e vais fazer o melhor jogo da tua vida. Veste o faco macaco e trabalha” – O jogo começa. Sofremos nos primeiros minutos. Nos primeiros 10 minutos não sai uma de jeito. Apesar de ter treinado numa modalidade que não nos concede o direito a interromper a partida para falar com os atletas (rugby), eles vão passando junto a mim na lateral – “ó João, não dá! Os gajos são mais fortes” – “O x não defende” – o “Y não fez bem o cruzamento” – “Pedi-lhe a dobra mas não saiu” – “Aquele ganancioso não me ouve” – “Entramos em maul?” – Eles sabem que devem entrar em maul mas continuam a perguntar repetidamente, semana após semana, se o devem fazer. O medo de errar toma conta do seu discernimento.

Exasperamos. Chegamos a um estado de loucura tal que invariavelmente terminamos o assunto com o mais minimalista dos prestáveis conselhos que podemos dar para tentar inverter uma situação negativa: “Querem jogar caralho?” – “Vão lá para dentro e joguem” – quando nos sai este grito de revolta, temos por norma o dom de irritar e de, ao mesmo tempo, aliviar toda a pressão que pende sobre aquelas cabeças. Comigo, tem resultado. Quando opto por este tipo de discurso, eles rendem 4 ou 5 vezes mais do que tinham rendido até ali.

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