Portugal 4-0 Nova Zelândia – Passeata em São Petersburgo


15 minutos finais de aceitável futebol permitiram à selecção confirmar o apuramento na primeira posição do grupo num jogo em que os restantes 75 não foram verdadeiramente aceitáveis face ao adversário que defrontámos em São Petersburgo. Perante um adversário tão inofensivo que só construiu 2 situações de golo em 2 lances oferecidos pelos centrais e pelo guarda-redes português, e tão débil do ponto de vista defensivo, o jogo contra os neozelandeses deveria ter sido facilmente solucionado no primeiro tempo com uma goleada se não tivessem existido alguns dos erros a que este elenco nos tem habituado.

Mudanças no onze

Fernando Santos aproveitou a partida para realizar alguns experimentalismos sem contudo abdicar do rigor que obviamente se pretendia para um jogo em que à priori nada estava decidido no que concerne às contas finais do grupo. No onze português concordei com todas as escolhas que não foram ditadas por situações de impedimento por lesão excepto com a escolha de Danilo por motivos óbvios: frente a uma selecção tão inofensiva do ponto de vista defensivo haveria necessidade de entrar na partida com um trinco ao lado de Moutinho ou seria o momento ideal para testar um sistema com dois centrocampistas puros num duplo pivot? Adrien e Pizzi pareciam-me (como me tem parecido desde a 2ª parte do jogo contra Chipre) as duas opções mais acertadas para um jogo em que teoria, o onze português poderia passar 90% do jogo no meio-campo adversário. Na minha honesta opinião, a capacidade de pressão dos dois médios chegava e sobrava para impedir que os neozelandeses pudessem lançar com eficácia situações de contra-ataque. Noutra parte do tabuleiro, a aposta em Ricardo Quaresma em detrimento do langão André Gomes resultou em cheio. Portugal pode finalmente exercitar este sistema táctico com recurso a dois extremos (catalogar Bernardo Silva como um extremo é sempre uma tarefa ingrata porque na verdade, de extremo, o jogador do Mónaco só tem mesmo a sua posição de partida no jogo) e Quaresma foi para mim o melhor em campo no jogo de hoje.

Pelo menos, o extremo do Besiktas foi aquele que mais dinamizou o ataque ao longo do jogo. Na primeira parte, foi dele que nasceram todas as situações de perigo frente a uma selecção neozelandesa que, ao contrário do que em teoria era expectável, entrou muito bem na partida. Os neozelandeses não são um colectivo onde ressalta qualquer qualidade técnica ou qualquer virtude táctica (antes pelo contrário; a pressão média alta inicial no meio-campo português foi uma espécie de fogo de artíficio criado pelo seu seleccionador no início da partida para tentar galvanizar unidades para uma boa exibição) mas foram efectivamente muito aguerridos até à meia-hora.

Uma meia hora inicial em que pudemos assistir a uma exibição muito pobre da selecção portuguesa

Frente a uma equipa capaz de ter o fulgor para pressionar muito mas nem sempre bem no meio-campo adversário, a formação lusa, sentiu algumas dificuldades para assentar o seu jogo. Os neozelandeses estavam a ser, nos primeiros 10 minutos, mais rápidos, mais acutilantes e mais agressivos sobre a bola, e muito directos na sua construção à procura do seu avançado Chris Wood (melhor marcador do Championship inglês na última temporada) ou nas aberturas que iam tentando colocar para as entradas dos alas nas costas dos laterais portugueses. Por outro lado, os processos na transição utilizados pelos portugueses não foram os melhores. Para além dos clássicos problemas na definição dos lances de transição em situações de recuperação de bola, existiram outros défices ao nível da construção:

  • Assim que era ultrapassada a primeira linha de pressão neozelandesa, não era colocada velocidade no jogo. Em várias perdas de bola no meio-campo português, os neozelandeses ficavam com poucas unidades. Poderiam ter sido criadas mais situações de superioridade numérica nas situações de contra-ataque se tivesse sido colocada mais velocidade nas transições.
  • Uma equipa incapaz de encadear mais que 2 ou 3 passes seguidos. Muitos passes falhados ou simples devoluções para o adversário.
  • Uma equipa profundamente incapaz de ler o posicionamento adversário quando este baixou as suas linhas. A aposta na colocação imediata de bolas nos corredores (os médios interiores neozelandeses impediam qualquer superioridade numérica nas alas, apesar de Bernardo Silva ter tentado fazer várias combinações 1×2 com Nélson Semedo e de ter tido a ajuda de Moutinho, junto às linhas, num ou noutro lance) deveria ter sido substituída por uma circulação paciente a toda a largura do terreno para obrigar o meio-campo neozelandês a vascular. Os neozelandeses procuram sempre evitar situações de sobreposições assim como foram tentando na primeira meia-hora de jogo empurrar os extremos portugueses para fora do último terço. Sempre que Bernardo Silva conseguia sacar de um drible sobre vários adversários, a defensiva neozelandesa tremia.

Quaresma descomplicou (mesmo sem ajuda por parte de Eliseu)

Num jogo em que tanto Cristiano Ronaldo como André Silva (demasiado marcado pelo ríspido Michael Boxall) vieram muitas vezes atrás (no corredor central) ou às alas facilitar situações de progressão, Eliseu poderia ter dado uma ajuda maior a Ricardo Quaresma no corredor esquerdo. O lateral do Benfica limitou-se até ao lance do 2º golo a despejar passes para o extremo. Não é que Quaresma precise de muita ajuda em dia sim, porque de facto não precisa, mas, se Eliseu tivesse sido ávido a procurar entrar pelo exterior, p.e, o lateral do Benfica teria poupado uma série de viagens de Ronaldo até ao corredor esquerdo para facilitar a progressão ao extremo através de tabelas, deixando-o mais confortável de cadeirinha na área à espera dos cruzamentos. Assim que a equipa conseguiu colocar mais bolas no extremo, o golo surgiu com naturidade. Quaresma esteve em todas. Assistiu Ronaldo para o cabeceamento à trave de Ronaldo. Bateu os cruzamentos que originaram a grande penalidade bem conseguida por Danilo (aqui está um dos poucos pormenores em que a meu ver o jogador do Porto se diferencia de William Carvalho) e descobriu, com rasgo, o caminho para Eliseu (quando este finalmente quis subir pelo flanco) no lance do 2º golo. O cruzamento do lateral do Benfica foi perfeito para a entrada de Bernardo Silva à frente de Marinovic.

Adormecimento na primeira metade da 2ª parte

O jogo tomou proporções de soneca no 2º tempo. Um golo do México frente à Rússia ou um golo dos neozelandeses poderiam ter ditado a perda da 1ª posição do grupo e a possibilidade de termos que vir a defrontar a Alemanha nas meias-finais. Entre este elenco que a Alemanha trouxe à Rússia ou a selecção chilena, creio que os chilenos poderiam ser o adversário mais difícil.

Com a entrada de Pizzi para o flanco esquerdo e a passagem de Quaresma para o flanco direito, Portugal perdeu dinamismo no flanco esquerdo e ganhou naturalmente esse mesmo dinamismo no flanco direito. Não querendo desvalorizar o jogador do Benfica porque é neste momento o melhor construtor que possuímos, creio que Pizzi tem imperativamente que jogar no lugar de João Moutinho como construtor de jogo. Moutinho não fez um jogo mau nem fez um jogo bom. Se em algumas transições não foi rápido a pensar e a soltar a bola, noutros, o médio do Mónaco construiu vistosas situações. Uma delas deu-se aos 64″ quando o médio conseguiu, pelo espaço existente entre o central, lateral e médio interior esquerdo neozelandês servir a desmarcação de André Silva num lance em que o avançado poderia ter sido mais pragmático na decisão. Marinovic negou-lhe o golo com um voo para o remate colocado junto ao poste direito.

Recuemos porém novamente no tempo. Aos 54″ Pepe cometeu uma falta estúpida que lhe valeu, com sorte, uma viagem para a final. Mais uma vez fiquei com a sensação que por mais anos que passem sobre o jogador, este continuará a não abonar muito do conhecimento que a experiência lhe vai dando. Contudo, o maior culpado nesta situação foi Fernando Santos porque poderia ter poupado o jogador para a entrada de Luís Neto. A inofensividade do adversário permitia tal veleidade ao seleccionador nacional.

O jogo tornou-se desinteressante durante um largo período. Portugal teve uma boa parte da posse entre os minutos 48 e 64 mas parecia não interessar progredir muito no terreno. O estéril desporto de contenção em vantagem a meio-campo quase me levou a procurar o sofá para ter duas horinhas de sono antes do jogo de futsal. A única de situação de perigo criada durante esse intervalo temporal foi a abertura de Ricardo Quaresma (sempre o mesmo) para a entrada de Nelson Semedo na área. O cruzamento para mais uma cabeçada bombática de Ronaldo para uma defesa em espécie de manchete de Marinovic não foi o sintoma que muitos tem vindo a apregoar em relação à suposta péssima exibição do lateral do Benfica. Semedo fez uma agradável exibição ofensiva em contraste com a péssima exibição defensiva. Foi daquele corredor que nasceram as duas oportunidades dos neozelandeses em virtude da permissividade garantida pelo lateral encarnado: a primeira quando aos 57″ o ala Thomas Doyle ganhou as costas ao português e teve espaço para servir a entrada de Chris Wood ao 2º poste (Bruno Alves salvou com a coxa um golo cantado do avançado apesar de ter chegado algo tarde à bola) e a segunda quando o mesmo jogador cruzou para uma atrapalhação a meias entre Patrício e Bruno Alves. O guardião do Sporting poderia ter resolvido a coisa de forma mais eficaz.

Santos poupou Ronaldo. Pizzi veio mais vezes ao corredor central. O contra-ataque finalmente saiu.

68″ – Excelente abertura de Pizzi para o corte de Semedo em direcção à área. O lateral coloca a bola em zona de finalização onde aparece Nani a rematar prensado para nova defesa de Marinovic.

Nani entrou com vontade de conseguir algo na partida. Aos 68 poderia ter sido mais lesto e mais inteligente a definir uma situação na qual entrou bem na área pelo corredor esquerdo, num lance desbloqueado por Pizzi por debaixo das pernas do adversário (o pormenor técnico do jogo). Nesse lance, Nani perdeu o tempo de remate, perdeu a possibilidade de assistir André Silva e acabou por tentar um remate em arco de uma posição onde o efeito que deu à bola não seria o mais aconselhável.

A selecção portuguesa era mais afoita no contra-ataque.

E Quaresma voltava a estar em praticamente todas:

Com olhos de lince, Quaresma recupera de forma fantástica a bola que vai dar origem ao 3º golo. Para além da eficaz recuperação que André Silva numa situação de 1×2 contra os centrais neozelandeses, o corte promovido pelo extremo do Besiktas tem extrema influência no desfecho do lance. Ao entrar junto a um dos centrais, o extremo condicionou a “saída na pressão” destes a André Silva porque os conduziu a uma situação de duvida em relação ao que André Silva pudesse vir a executar. O avançado aproveitou a situação no timing perfeito para partir para o 1×1 e finalizar com muita categoria.

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