Antevisão à 104ª edição do Tour de France – o traçado (1ª parte)


No próximo sábado, dia 1, a emblemática prova francesa parte para a estrada em Dusseldorf (Alemanha) pela 104ª vez na História. Chegou o grande momento da temporada velocipédica do ano 2017. Quem será o ciclista mais forte à chegada aos Champs Elysées no próximo dia 23 de Julho? Quem será o mais rápido a cumprir os 3540 km divididos por 21 dias de competição? Quem é que ousará arriscar mais, suar mais, para conquistar ou reconquistar a Grand Boucle? Este é o primeiro de três posts de antevisão em que tentarei, com o meu modesto contributo, procurar algumas das respostas para estas perguntas. O primeiro post desta sequência visa escrever algumas linhas sobre o traçado da edição de 2017 do Tour.

À semelhança daquilo que tenho realizado ao longo da temporada de 2017, irei realizar a cobertura (prioritária, em relação a outras modalidades) da prova francesa. 

A prova irá arrancar no próximo sábado na Alemanha, mais concretamente em Dusseldorf, com um contra-relógio de 14 km. Esta será a 4ª vez que a organização da ASO levará o arranque da prova para solo alemão. Em Dusseldorf, os 14 km do plano traçado desenhado pela organização comandada pelo histórico Christian Preudhomme poderá estabelecer as primeiras diferenças entre contenders. Alguns dos trepadores terão que entrar com o pé direito na prova para não perderem imediatamente 1 minuto e meio\2 minutos para homens com Christopher Froome ou Richie Porte. Romain Bardet é à partida o contender mais desfavorecido com a existência deste contra-relógio. Contudo, o ciclista francês é um ciclista que reage extraordinariamente bem na 2ª semana a um mau arranque na primeira.

Favoritos à vitória na etapa são “mais que muitos”? Os dois contra-relógios marcados para a 104ª edição levaram as 20 equipas em prova a trazer grande parte da nata do contra-relógio mundial para território alemão\francês. Os dois contra-relógios são vistos por algumas equipas como um grande oportunidade para conquistar aquele que é, para muitas, o seu grande objectivo principal: a conquista de uma etapa. Entre os grandes candidatos à vitória na etapa estarão Richie Porte (BMC), Maciej Bodnar (Bora), Taylor Phinney (Cannondale), Tony Martin (Katusha), Primoz Roglic e Jos Van Emden (Lotto-Jumbo-NL), Jonathan Castroviejo e Jasha Sutterlin (Movistar), Vasil Kyrienka (Sky) ou Michael Matthews (Sunweb).

Da Alemanha, a organização saltará, durante a 2ª tirada, para a Bélgica, mais concretamente para uma cidade que adora ciclismo: Liège. O final de etapa marcado para a cidade que acolhe uma das mais espectáculares clássicas da história do ciclismo (não, com muita pena nossa não teremos uma re-edição do Tour do traçado da Liège-Bastogne-Liège…) promete a primeira grande chegada em sprint massivo. A linha de chegada verá o despique aceso entre todos aqueles que tem aspirações à conquista da camisola verde. Peter Sagan tentará segurá-la face à cobiça dos seus históricos rivais Greg Van Avermaet, John Degenkolb, Marcel Kittel, Mark Cavendish, Arnaud Demare, Alexander Kristoff, Andre Greipel, Michael Matthews e Nacer Bouhanni – a elite dos sprinters está toda aqui!

Até chegar a França, a prova dará ainda um pequeno salto tradicional pelo luxemburgo. A 3ª etapa parece-me assim à primeira vista um assombro de etapa. Os 100 km finais são muito interessantes. Como a etapa será corrida num terreno irregular, poderemos ter aqui uma etapa própria para puncheurs. Com um final fantástico (1,6 km a 5,8%) de inclinação, não creio que todos os sprinters sejam capazes de chegar a Longwy com condições para disputar o sprint final. Creio que esta será a etapa ideal para ciclistas como Sonny Colbrelli (Bahrain-Mérida) ou Phillipe Gilbert (Quickstep) brilharem.

Passo imediatamente para a 5ª etapa. A 4ª tirada, etapa que terminará em Vittel será uma etapa para sprinters.

A primeira grande dificuldade estará estabelecida na 5ª etapa. Numa corrida que ficará decerto endurecida na difícil passagem de 3ª categoria pelo Côte de Esmoulères a 53 km da meta (a subida é mais dura do que o gráfico efectivamente apresenta porque a ascensão não se esgota à passagem pela categoria de montanha), aparecerá no fim a primeira grande dificuldade com a ascensão a La Planche des Belles Filles…

Como podemos ver neste gráfico, a subida ao topo da subida localizada na região da Borgonha é de uma dureza extrema. Com uma pendente média na ordem dos 12 por cento até meio da subida (14,5km) e uma parte final de 2km com rampas de 20%, as meninas bonitas estarão lá em cima para aplaudir aquele que conseguir estabelecer a primeira diferença de montanha para os seus rivais. Christopher Froome deverá pretender atacar a prova nesta etapa. No entanto, esta é uma subida que também adequa imenso às características de Nairo Quintana: longa e acentuada. O colombiano adora atacar neste tipo de subidas pois são aquelas que lhe permitem gerar ataques mais efectivos. Bardet, Aru e Fuglsang também deverão querer atacar aqui para começar a impor o seu domínio na montanha. Esta subida também poderá indicar o estado de forma de Alberto Contador e Thibault Pinot (uma das grandes incógnitas) bem como poderá revelar uma outra surpresa expectável como o sul-africano da UAE Louis Mentjes ou o britânico Simon Yates da Orica.

Reveja a vitória de Vincenzo Nibali na Planche em 2014.

Como a ASO não quer rebentar com os candidatos logo na primeira semana e quer guardar o melhor do traçado para a 3ª semana, decidiu não avançar para a região que se situa abaixo da Borgonha: a região de Rhone-Alpes. Como tal, a organização decidiu inverter o traçado da prova para norte. A 6ª etapa terminará ao que tudo indica com um sprint massivo em Troyes e a 7ª deverá terminar da mesma forma em Nuits Saint George. Saltamos portanto para a 8ª etapa.

Station des Rousses recebe a chegada de uma etapa cujo perfil me parece ser recheado de alguma dureza. Ao todo, os ciclistas terão que passar 8 ascensões numa tirada em que só 3 são categorizadas.

A ascensão final ao alto do Montée de La Combe de Laisia\Les Molunes é uma subida de médio\alto nível de dificuldade em virtude da sua extensão (11,4 km) e da sua pendente média (6,4%). A pendente máxima regista-se logo no início da subida. A Sky deverá querer endurecer o ritmo para fazer uma selecção alargada para o resto da subida. A etapa não termina, porém, em alto. A seguir à passagem pela bandeira que indica o prémio de montanha, o ciclista que passar na frente terá que manter a vantagem que conquistar na plana parte final.

Antes do primeiro dia de descanso, vem a primeira das etapas rainha da prova. A ligação na distância de 181,5 km entre Nantua e Chambéry é mais ou menos a repetição tirada a papel químico da etapa que Jakob Fuglsang ganhou no mesmo local há menos de 1 mês no Criterium Dauphiné…

Aos terríveis Grand Colombier (8,5 km a 9,9% de inclinação média), e Mont Du Chat (8,7 km a 10,3% de inclinação média), a etapa tem mais 4 situações desesperantes: 1 de 4ª categoria, 2 de 3ª e uma categoria especial no Col de La Biche a meio da etapa. Se Alberto Contador estivesse noutro momento de forma, diria que seria capaz de lançar um ataque muito longe da meta no Col de La Biche, à imagem daqueles ataques que protagonizou há uns anos atrás no Tirreno-Adriático. Contudo, precaução e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Quando a etapa chegar ao Grand Colombier já estará decerto bem seleccionada a um grupo restrito. O resto será, uma grande maluquice. Os ciclistas com pretensões ao Prémio da Montanha terão que atacar logo nos primeiros km. A etapa traz imensos pontos para esta categoria.

Cumprido o primeiro dia de descanso, seguem-se mais duas etapas para os sprinters. Bergerac e Pau receberão mais duas batalhas pela posse da camisola verde.

Segue-se a sequência de etapas mais dura da prova. São 4, 4 etapas onde difíceis tudo pode acontecer. Comecemos pela 12ª.

Na etapa mais longa da edição deste ano da prova francesa, Peyragudes recebe o circo vindo da direcção de Pau. Os ciclistas devem preparar convenientemente a sua alimentação durante a etapa para não terem que bater no choco na massa gorda e no doloroso ácido láctico. A etapa, na distância de 214,5 km, prepara-lhe um monte de surpresa. Os gajos da ASO não brincam, não senhor. Nos últimos 100 km, haverá lugar a duas contagens de 2 categoria, a 1 de 1ª e a uma espécial no Port de Balés.

A parte final da etapa é dolorosa. Recordemos a chegada à estância estival de  Peyragudes em 2012 na etapa ganha por Alejandro Valverde

A Peyragudes segue-se uma etapa curtinha mas explosiva com final no ligeiro descanso de “Foix” – 3 contagens de 1ª categoria marcam uma etapa em que a corrida deverá ser novamente atacada pelos favoritos. A parte final reserva uma daqueles descidas à medida de Chris Froome.

Se considerarmos que a 14ª etapa (Blagnac-Rodez; 181,5 km) é um autêntico doce face às anteriores (apenas 2 categorias, numa etapa disputada num terreno algo acidentado), passamos directamente para a última etapa antes do 2º dia de descanso: a ligação entre Laissac e Le-Puy-en-Velay.

A 15ª tirada da prova promete ser outra aventura e tanto. O momento da decisão deverá verificar-se no Col de Peyra Tallade a 1190 metros de altitude.

O 2º dia de descanso irá preparar os ciclistas para uma derradeira semana em que as oportunidades para todos os corredores que ainda estejam a lutar por algo serão repartidas. Na 16ª etapa, Romans-Sur-Isére receberá uma etapa que deverá ser disputada ao sprint. No dia seguinte, Serre Chevalier será o primeiro destino nos Alpes nesta monstruosa etapa.

A etapa que não termina em alto (com muita pena nossa) começa no simpático Col D´Ornon. Passados alguns km, os ciclistas terão que enfrentar a Croix de Fer, subida com a distância de 24 km (a mais longa da prova) a uma percentagem média de inclinação de 5,2%. Da Croix de Fer, os ciclistas sairão para o Telegraph, passagem obrigatória de qualquer Tour. Alberto Contador volta à sua subida fetiche.

Do Telegraph passamos ao exigente teste do Galibier (17,7 km a 6,9 de inclinação média, com arranque no rarefeito ar dos 1434 metros até ao rarefeito ar dos 2642 metros da subida em que Miguel Indurain e Tony Rominger estabeleceram um histórico duelo em 1993.

Bateu-me a saudade! Felizmente tive a sorte de ver correr Indurain. O espanhol era o meu grande ídolo de infância. Uns anos mais tarde, em 1999, tive a sorte de o conhecer pessoalmente e até de privar de perto durante alguns minutos (não resisti a fazer-lhe umas perguntas imbecis, apenas desculpáveis pelo facto de ter 11 anos na altura) quando a Volta a Portugal o trouxe, no papel de director desportivo da equipa que a Banesto trouxe a Portugal para secundar Cândido Barbosa.

Voltando à prova. Os grandes cartuchos no que concerne à montanha terão forçosamente que ser jogados nas etapas 18 porque a chegada ao alto de Izoard representa a última oportunidade para serem estabelecidas ou corrigidas diferenças na montanha.

Os 2364 metros de altitude de Izoard coroaram ao longo da história nomes como Bernard Hinault, Fausto Coppi (a maior vitória da sua carreira sobre o seu grande rival Gino Bartali), Eddy Merckx ou Greg Lemond. A extensa subida de 14 km a uma percentagem média de 7,3% sob condições extremas ao nível de rarefacção de oxigénio serão a última oportunidade para todos os trepadores.

Antes de um contra-relógio intervalado pela chegada de fácil alcance a todos os sprinters a Salon-de-Provence na 19ª etapa e a etapa de consagração nos arredores de Paris.

No entanto, antes de chegar aos arredores de Paris (de avião), os ciclistas terão um difícil (creio) teste pela frente na cidade de Marselha. As últimas gotas de suor dos candidatos terão que ser deixadas na Riviera num curto mas complexo contra-relógio citadino de 22 km, disputado na sua esmagadora maioria à beira-mar. O traçado desenhado pela organização trará portanto dificuldades acrescidas aos ciclistas mais leves. O vento forte que se fará sentir complicará ainda mais a tarefa dos trepadores. À primeira vista, Romain Bardet parece-me o favorito mais prejudicado pela escolha traçada pela ASO. Bardet terá que acumular qualquer coisa como 2 minutos\2 minutos e meio na montanha se quiser eventualmente defender a primeira posição neste crono em relação a ciclistas com Froome ou Porte. Quintana terá por exemplo que partir com 1 minuto e meio a 2 minutos de vantagem.

Um pensamento em “Antevisão à 104ª edição do Tour de France – o traçado (1ª parte)”

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