Ou como quem diz, por outras palavras: a regra do fairplay financeiro falhou redondamente e eu acho que tenho uma nova ideia de génio


 

«Estou a pensar seriamente em limitar o orçamento dos clubes para os salários dos jogadores. A diferença entre os clubes mais ricos e os outros está a aumentar de forma perigosa e isto preocupa-me. Os clubes contratam mais jogadores do que realmente precisam e com um teto salarial pensariam mais naquilo que os jogadores realmente valem» – Aleksandr Ceferin, presidente da UEFA.

 

Nem sei sinceramente o que hei-de pensar de Aleksandr Ceferin: se o esloveno é um sonhador ou se é simplesmente um ingénuo que caiu de para-quedas na presidência da UEFA.

Como foram autorizadas ou inventadas novas formas para contornar (aumentos de capital por parte dos proprietários dos clubes; emissão de empréstimos obrigacionistas; todo o tipo de receitas existentes ou fantasma através de novos patrocínios, branding e naming; venda antecipada de lugares cativos para a temporada seguinte; destas formas, a UEFA apenas autorizou a injecção de capital por parte do proprietário do clube e a questão publicitária mediante condições muito explícitas) o Fair Play Financeiro ao longo dos últimos anos (em 2009, Michel Platini vendia o novo princípio de gestão como o “fim da vitória a todo o custo”) serão obviamente inventadas novas formas para furar tal medida caso o presidente da UEFA queira materializar o pensamento sob a forma de novas regras de controlo financeiro. Uma delas, básica, reside na possibilidade dos clubes virem a pagar os ordenados auferidos pelo jogador nos prémios de assinatura. Outra, também básica, poderá materializar-se no pagamento desse mesmo ordenado através dos direitos de imagem. Ou seja, os clubes podem, legitimamente, pagar aos jogadores o ordenado mínimo estabelecido pela lei do seu país e\ou pela entidade que tutela as competições em que participa e pagar o resto comodamente, sem qualquer tipo de restrições, no momento de assinatura do jogador. A meu ver, tal situação não causará qualquer incómodo de maior aos grandes clubes europeus. Quem tem 50 milhões para dar por um jogador que lhe custará 10 milhões por época, terá os 60 milhões disponíveis.

Outra coisa completamente diferente seria, por exemplo, legislar no sentido de impor aos clubes tolerância zero no cumprimento da sua gestão ao abrigo do FFP e monitorizar o cumprimento desta questão particular “pensada por Ceferin” se a lei o permitir. Para tal, a UEFA teria que ter coragem para impor um modelo no qual não seria possível em qualquer circunstância injectar capital num determinado clube no final de uma temporada para efeitos de branqueamento de situações de má gestão, e impor regras mais pesadas do que as que actualmente estão em vigor. Ou seja, se determinado clube chegar a determinado período a temporada (por norma o fim) sem os critérios assentes na legislação em vigor, qualquer patrocínio ou aumento de capital, p.e não seria oficialmente contabilizado para efeitos do FFP daquela(s) (3) temporada(s) assim como a pena a aplicar seria, naturalmente, apenas uma: a exclusão de participação nas competições uefeiras enquanto não se apurasse naquele clube a prática de uma gestão equilibrada. Por outro lado, os contratos celebrados por todos os clubes seriam alvo de uma monitorização séria ao nível da sua folha salarial, se efectivamente tal medida não venha a ser considerada como contrária aos preceitos do princípio da liberdade contratual que se encontram plasmados nos sistemas normativos dos países cujas federações são afiliadas da UEFA.

Para todos os efeitos, o que Aleksandr Ceferin defende é um conjunto de regras que já são aplicadas no desporto americano há muito tempo, com as condicionantes de ordem especial existentes. As franquias da NBA, da NHL, da MLB e da MLS já tem um tecto salarial (centralizado pela Liga) instaurado há muito tempo e não é por aí que não o violam, pois podem contorná-lo com o pagamento dos chamados impostos de luxo (Luxury Tax). No momento da sua criação, no início do século XXI (2001, 2002) os impostos de luxo visavam impedir que as franquias com mais disponibilidades financeiras contratassem os melhores jogadores. A medida tentava evitar que as competições perdessem interesse em virtude da disparidade de qualidade entre equipas, motivada por questões de assimetria de rendimentos. Qualquer equipa que viole o tecto salarial terá que pagar um determinado imposto (tabelado conforme o valor que foi ultrapassado) que será, numa segunda fase, distribuído pelas equipas com menores disponibilidades no momento, para que estas também possam ter capital para contratar bons jogadores. No entanto, ao nível salárial, na NBA, p.e existe todo um conjunto de excepções que podem influir com a folha salarial de uma equipa. A Bird Exception, a possibilidade de contratar um veterano pelo salário mínimo (jogadores que tenham cumprido mais de 10 temporadas na Liga), entre outras. O tecto salarial existe mas as franquias ultrapassam-no constantemente. A liga não perde tanta espectacularidade porque as equipas que ficaram nas classificações mais baixas podem sempre recorrer a um rebuilding a partir do draft do ano seguinte. O que é que torna a NBA diferente do futebol europeu? Para além das receitas que são averbadas, é a gestão que faz a diferença!

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