Rúben Neves: uma venda que rendeu 20 mendilhões


Ao contrário do que aqui escrevi a propósito da transferência de André Silva para o AC Milan, tenciono discutir o valor da transferência de Rúben Neves bem como o seu potencial. Na minha modesta opinião, acho que o valor da transferência é elevadíssimo para o mediano potencial futuro que Rúben Neves apresenta. Quero entrar portanto por caminhos sinuosos que levam, invariavelmente, a discussões apaixonadas.

É preciso dizê-lo com franqueza e abertura: Rúben Neves foi queimado por vários treinadores. A começar por Júlen Lopetegui e a acabar em Nuno Espírito Santo. Em 3 anos, percebemos que o jogador é um interessante distribuidor de jogo mas ainda não sabemos bem qual é efectivamente a sua posição no terreno. Isto é: o médio não tem nem o cabedal necessário para ser um 6. Para além da estampa física, falta-lhe força, resistência e capacidade de desarme para jogar à frente de uma defesa e para poder fazer as compensações às subidas dos laterais de forma a mandá-los (com propriedade) subir no terreno. Por outro lado parece-me evidente, pelo que vi nas últimas 3 temporadas, que o jogador também não parece ter as características ideais para ser um bom 8. Em primeiro lugar porque joga com a cabeça no chão. Em segundo lugar, porque lhe falta muita intensidade na pressão. Em terceiro lugar, porque raramente aparece à saída da área contrária para ganhar segundas bolas (de forma a rematar de meia distância, p.e) ou servir imediatamente de tampão à acção no contragolpe do adversário. Em quarto lugar porque é um jogador que revela alguma incapacidade para desfazer uma marcação individual adversária de forma a vir buscar jogo. Este defeito ficou demasiadamente vincado na sua prestação no último europeu de sub-21. Em quinto e último lugar porque não é um jogador capaz de colocar verticalidade no jogo da equipa. Nunca vi um passe de ruptura realizado por Rúben Neves.

A única qualidade excepcional que lhe destaco é a sua capacidade de passe longo. Como é um jogador capaz de ler muito bem os espaços vazios deixados pelo adversário e é um jogador com um passe à distância muito bom, é um médio que realiza muito bem as acções de variação do centro de jogo. Exceptuando essa razão, não lhe reconheço efectivamente mais características onde possa dizer que temos ali um médio passível de ter um estatuto de topo dentro do futebol mundial no futuro.

Tais atributo ou a falta deles devem-se em parte ao facto do jogador ter sido obviamente queimado ao longo destes últimos 3 anos. Queimaram etapas ao jogador. Para além de terem sido queimadas etapas de desenvolvimento, o jogador não foi desenvolvido fisicamente como deveria ter sido. Em outras palavras: não cresceu e não jogou o suficiente (se atendermos 30 jogos\2700 minutos como critério de suficiência). Como não jogou com regularidade, não se estabeleceu em definitivo numa posição dentro das rotinas (correctas ou erradas) estabelecidas pelos técnicos com quem trabalhou.

Nuno Espírito Santo foi o treinador que mais desinvestiu no jogador. Com Nuno, Ruben Neves jogou sensivelmente metade dos minutos que teve com Lopetegui na temporada 14\15 (1789) e com Lopetegui e Peseiro na temporada 15\16 (2274m). A qualidade do meio-campo do Porto não subiu consideravelmente face à qualidade demonstrada nos anos transactos. Otávio não pegou de estaca. Sérgio Oliveira mal calçou. João Carlos Teixeira foi uma inexistência. Óliver andou metade da temporada em sub rendimento porque não é jogador para a posição 8 e porque a estratégia de jogo montada por Nuno não favorecia as suas características. Herrera não é consistente. André André andou a oscilar. Danilo é intocável e nem serve de matéria para comparações porque como afirmei lá atrás, Rúben não é um jogador para alinhar na posição 6. O mesmo Nuno Espírito Santo (vulgo, treinador mais à mão que Mendes tem para vender os seus jogadores) foi aquele que decidiu, inexplicavelmente, pedir aos amigos chineses de Jorge Mendes, a contratação de um jogador que não utilizou. E o jogador decidiu, estranhamente, aceitar a proposta de um treinador que não contou com as suas prestações, para jogar, aos 20 anos (quando ainda está claramente a tempo de corrigir algumas insuficiências no seu jogo) num clube da 2ª inglesa, quando poderia, com um novo treinador, eventualmente ganhar outras dimensões no seu jogo. Pelo menos estou seguro que Conceição daria outra noção de intensidade nos momentos de pressão ao jogador.

Perante estes factos só posso concluir que esta venda foi, para além das necessidades actuais que são sentidas pelo FC Porto, uma venda de necessidade que rendeu 20 mendilhões. A transferência atesta mais uma vez a extrema influência de Jorge Mendes na gestão de alguns clubes e na gestão da carreira de vários jogadores. Assim que Mendes acena com dinheiro chinês, os clubes vendem e os jogadores vão, não lhes interessando minimamente para onde vão: simplesmente vão. Os milhões falam mais alto. Temo portanto que a carreira deste jogador não vá a “bom Porto” – não creio que o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo seja o contexto favorável para uma inversão das características do jogador.

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4 thoughts on “Rúben Neves: uma venda que rendeu 20 mendilhões”

  1. Epa, prezo-te por dizeres o que pensas nesta situação. O Neves é um talento único, com uma mentalidade de vencedor. Nasceu para ser líder, e em poucos anos, estará numa equipa de topo. Nunca será um portento no desarme, nem ocupação de espaços, mas fará a diferença pela capacidade como faz a bola girar a toda a largura de terreno. Distribui como poucos, e tem 20 anos. 20 milhões é oferecido.

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    1. Um talento único que estará em poucos anos numa equipa de topo… entretanto o fcp (que ambiciona a ser uma equipa de topo) vendeu-o a um entreposto na segunda divisão inglesa… hmmm vamos lá pensar um bocadinho…
      A) se o jogador é mesmo bom e 20M€ é oferecido, então alguem anda a lesar os interesses do fcp…
      B) Se o jogador é assim tão bom e “distribui como poucos” então porque não foi opção regular no fcp nem se destacou nas nossas selecções jovens?
      C) Se o jogador não é assim tão bom como é advogado neste texto, então estaremos a falar de “Mendilhões”?

      Seja o que for este negócio cheira a esturro por todos os lados.

      Coitado do miúdo!

      Z

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      1. Como referi no post não creio que o jogador apresente neste momento potencial (presente e futuro) para valer tal soma de dinheiro. Uma transferência a rondar os 20 milhões de euros, é um excelente negócio para o Porto. O Porto ganhará 18 milhões de euros se descontarmos os 10% que serão recebidos pelo Jorge Mendes.

        Façamos uma ligeira comparação: o Adrien é conjuntamente com o Pizzi, o melhor 8 português. É um jogador muito bom a construir jogo, falha poucos passes, é inteligente a procurar o espaço vazio, incisivo e agressivo na forma em como pressiona os adversários, forte nas segundas bolas\divididas, e tem uma leitura posicional muito acima da média. É aquele médio que aparece imediatamente no espaço onde vai cair a 2ª bola. É aquele médio que sai imediatamente para tentar estancar a transição adversária. Tem um aceitável remate de meia distância. Apesar de ser um jogador totalmente “feito”, ou seja, cuja evolução será pouca no futuro, é uma solução credível e certinha para qualquer clube no mundo para o espaço de 4\5 anos. O Sporting não está (acho que posso dizer com toda a propriedade) conseguir vender o jogador por 30 milhões de euros. Mais 10 que um jogador cujo potencial futuro anda muito distante daquele que apresenta actualmente o Adrien. Parece-me portanto uma excelente venda.
        Porque é que não foi opção regular no FCP? É uma boa pergunta para se fazer ao treinador que agora o contratou.
        O Rúben Neves soma dezenas de internacionalizações pelas selecções jovens – mais concretamente 53 entre os sub-16 e os sub-21. A juntar às duas internacionalizações pela selecção A.

        Para entender o método utilizado pelo Jorge Mendes para vender jogadores, recomendo-lhe a leitura deste post: https://omeucadernodesportivo.wordpress.com/2017/06/01/jorge-mendes-pode-nao-mandar-mas-decide/ – creio que este post poderá ser bastante esclarecedor para perceber os contornos das transferências de Jorge Mendes.

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    2. Eu acho que ele é um interessante distribuidor, como referi no post, em virtude das capacidades supracitadas, mas não lhe vislumbro muito mais para ser um dos grandes médios do futebol mundial. A tudo isto acresce o facto de estar perto de se transferir para um clube inserido num contexto competitivo que nada o fará evoluir como jogador nesta fase da carreira (o Championship ainda é, praticamente no seu todo, um campeonato em que as equipas praticam um estilo de jogo directo) e para as mãos de um treinador que só sabe desvalorizar jogadores.

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