A sobriedade de Tiago Machado


Quando eu era petiz, havia determinados aspectos que também não percebia no ciclismo. Essas incompreensões sobre alguns aspectos da modalidade não eram, ao contrário do que usualmente acontece com as crianças, fruto de algum desconhecimento técnico ou táctico sobre a modalidade, porque desde cedo desenvolvi um especial interesse pelas acções e características de todos os corredores, pelas decisões tácticas e estratégias que eram tomadas pelos seus directores desportivos, e pelo próprio contexto de evolução da modalidade – como sempre fui uma criança curiosa, sempre que queria saber mais sobre determinado corredor ou sobre determinada equipa, socorria-me das muletas que tinha mais à mão: o meu pai e o meu avô. Mais o meu avô porque o meu pai não acompanha regularmente a modalidade desde há 2 décadas a esta parte.

Essa incompreensão surgia quase sempre em virtude do contexto da temporada em questão: não percebia o porquê do José Maria Jimenez não ser o chefe-de-fila da Banesto, não percebia, por exemplo a razão pela qual o Michelle Bartoli (o melhor puncheur dos anos 90) não corria regularmente provas por etapas ou a razão pela qual o Pavel Tonkov não aparecia no Tour de France. Na altura, confesso que desconhecia por completo o indispensável planeamento que era realizado por todas as equipas no início da cada temporada. Nada mais natural para uma criança de 7 ou 8 anos. A falta de informação sobre o que se passava lá fora também não nos ajudava a perceber quais eram os objectivos que todas as equipas traziam para as grandes voltas. 

Ao longo dos anos fui crescendo imenso ao nível de conhecimento sobre esta modalidade. Não sei tudo sobre ciclismo, nem nunca o saberei, mas creio que sou alguém cujos standards de conhecimento estão acima da média. Quando vejo o primeiro frame de uma determinada imagem, por norma, sei como irá terminar. Quando vejo determinada movimentação, sei o que é que esta pode gerar no desenrolar da etapa. Quando vejo uma máscara de esforço consigo perceber (minimamente) se aquele ciclista está a passar por um bom ou mau momento.

Julho é aquele mês em que toda a gente decide ver a Volta à França. O nosso país é um país onde o número de adeptos da modalidade tem vindo a crescer exponencialmente nos últimos anos. É um facto inegável. No entanto, também me assoma com um facto inegável, a quantidade de pseudo experts da modalidade que se revela durante o mês de Julho. Durante o Tour, milhares de pessoas que não viram uma única prova de ciclismo durante a primeira metade do ano, vem para as redes sociais armar-se literalmente ao pingarelho, como se de verdadeiros catedráticos da modalidade se tratassem. Falo com propriedade. Não ando aqui a papar sono. Desde que abri este espaço, não falhei a análise de uma única etapa do circuito World Tour bem como ainda vi uma boa dezena de provas ou resumos de provas de categoria continental. Podem ver aqui, na categoria ciclismo. 

Grande parte dos catedráticos que tem julgado o comportamento exemplar do Tiago Machado no Tour, não sabem distinguir uma prova de categoria WT de uma prova de categoria 1 HC ou 2HC, de provas de categoria 2.1 ou 2.2, assim como não sabem quais as equipas que nela podem participar bem como a existência de determinadas vagas destinadas a equipas que recebem wild card ou até, num horizonte de conhecimento mais longínquo, a percentagem de equipas World Tour que podem participar em determinada prova ou a percentagem de equipas da divisão Pro Continental que podem participar em provas World Tour. Confuso? Não…

A crítica terá obviamente de assentar a sua base no conhecimento. O conhecimento não se assenta em pressupostos brutos. Para se criticar é preciso conhecer-se a fundo (não pela rama) todo um conjunto de factores (de condicionantes) que levam determinado corredor a ter que assumir um papel em virtude dos objectivos da equipa, um director desportivo a preferir determinado ciclista em função de outro para determinado perfil de etapa, os objectivos da própria equipa na prova, os objectivos individuais dos corredores, o seu estatuto dentro da equipa, a temporada que está a realizar, a adequação das suas características em relação a determinado perfil de etapa, entre outros factores.

Muitos são portanto aqueles que tem criticado Tiago Machado devido ao facto do ciclista português estar a ser utilizado pelo seu director desportivo José Azevedo como gregário de perseguição na frente do pelotão nas etapas de plano em detrimento das etapas de montanha, reduto onde o português poderá arriscar a vitória numa etapa se conseguir vingar uma fuga. O Tiago, com muita sobriedade e inteligência, recorreu a uma brilhante analogia para explicar que só está a cumprir ordens. Porque no ciclismo, os objectivos de determinada equipa obrigam determinados ciclistas a cumprir um determinado papel traçado em prol da sua liderança, podendo contudo ter carta branca para numa ou noutra etapa tentarem a sua sorte se não estiverem a ser jogados interesses que vão de encontro aos objectivos traçados. O Tiago está inserido num objectivo colectivo: levar Kristoff à vitória numa etapa.

Dentro do que lhe é pedido: acelerar a cabeça do pelotão na perseguição aos fugitivos do dia, o Tiago tem sido incansável. Etapa após etapa, pelo menos nas etapas de plano, o ciclista português pode ser visto a puxar na frente do pelotão ao longo de 100 km de corrida. 100 km? Alguém imagina o esforço que este homem tem vindo a fazer ao longo destas 10 etapas? Pois… Acho que ninguém tem noção da missão que o Tiago desempenha quando é obrigado a impor ritmos durante 100 km. Uma coisa é segui-los. Outra coisa é ter que os impor. Mesmo assim, o Tiago ainda tem tentado fugir nas etapas de montanha. Não teve sorte na última tentativa mas eu estou certo que ainda o veremos na frente nas últimas etapas da prova.

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