Mérito a Maurício Pocchettino


Alguém se lembra do tenebroso medo que Eric Dier tinha há 3 anos atrás quando era chamado a “cobrir” as baixas de William na posição 6? Assim o foi na Luz em 2013\2014, palco onde, o versátil jovem inglês (jogador que Jesualdo tinha lançado na época anterior com relativo sucesso a defesa direito frente ao Sporting de Braga; sabíamos porém que o jogador ia dar um centralão de mão cheia) se sentiu terrivelmente perdido em campo, abrindo uma autêntica avenida ao entretanto “caído em descrédito” Enzo Perez – o futebol dá mesmo muitas voltas!

De todas as asneiras que Godinho Lopes fez  ao longo do seu mandato (foram muitas; leia aqui o post que escrevi no ano passado no Blogue Insónias) a que mais me custou, a que mais fez doer o meu coração, foi a negociata acordada com Eric Dier. Mais que a de Bruma. Via em Dier o grande rebento da geração que despontava. Não estava longe da verdade embora a verdade se tenha vindo a consumar, 3 anos depois, de forma totalmente antagónica aquela que projectei. No entanto, se em 2014 me pusessem um contrato à frente a dizer na primeira cláusula que o jogador inglês iria singrar como 6 com Maurício Pocchettino, não acreditava na possibilidade e por conseguinte não assinava o dito… Poderíamos portanto ter perdido um excelente 6, mas o Sporting poderia estar hoje a facturar uma importante venda de 30 milhões se o jogador tivesse permanecido em Alvalade a jogar a central.

Eric Dier singrou efectivamente como 6. Como um 6 de luxo no habilidoso e arriscado sistema táctico de Maurício Pocchettino. Não quero de maneira alguma afirmar que Leonardo Jardim falhou na sua missão porque na sua passagem pelo Sporting, o treinador madeirense nunca projectou de facto o inglês para a posição 6 mas sim para a posição de central, podendo, pontualmente, exercer a posição de trinco à frente da defesa quando William estivesse impedido por lesão ou castigo.

O treinador argentino é um jogador que gosta de fazer as suas equipas alinhar num esquema táctico 4x2x3x1 (desdobrável para 4x3x3 ou até 4x4x2 com pouca dificuldade, se o contexto do jogo ditar uma necessidade) com defesa subida. Com Pocchettino, os centrais do Tottenham tem de chegar perto da linha de meio-campo. A ideia de jogo do argentino reside em duas premissas: pressionar alto e bem para recuperar a bola o mais rapidamente possível de forma a tê-la e esmagar o adversário. Eu adoro treinadores com colhões para jogar assim durante toda a temporada! Hajam também bons preparadores físicos. A defesa subida com laterais quase sempre projectados no último terço adversário (Kyle Walker é indiscutivelmente um dos jogadores mais desequilibradores da quintinha de Christian Eriksen) obriga um dos médios, neste caso Dier, a funcionar quase como um 3º central.

O argentino defende a projecção de um dos médios no terreno (usualmente costuma ser Dembelé) enquanto o trinco, Dier, fica mais recuado para permitir precisamente que a equipa disponha 7 unidades “regulares” no processo ofensivo sem perder equilíbrio defensivo. Isso implica naturalmente a propensão e a utilização do médio para as dobras nos laterais quando eles não são rápidos a descer no terreno e\ou quando a equipa adversária consegue sair rapidamente na transição através dos flancos ou com o lançamento de bolas para o espaço vazio nos flancos, em situações em que a defesa não permitiu, por exemplo, a criação da armadilha do fora-de-jogo.

O médio de contenção, Eric Dier, também serve naturalmente outro propósito: quando a equipa falha situações de pressão alta, ele está lá constituindo-se como um verdadeiro mecanismo de controlo da profundidade adversária. A pressão alta de Pocchettino raramente falhou durante a temporada.

A adaptação do jogador à posição 6 requisitou portanto algumas características que o jogador não possuía. Na temporada e meia que o jogador alinhou no Sporting pudemos perceber a sua capacidade de passe longo. O projecto Dier não seria portanto, passível de cair em virtude da sua inaptidão para lançar jogo. O jogador foi efectivamente optimizado ao nível posicional, ao nível funcional (o que é que o jogador pode ou não fazer em campo; que terrenos deve pisar; até onde pode avançar e em que situações sem prejudicar o almejado equilíbrio defensivo) e ao nível de abordagem ao adversário, ganhando com o argentino, um pouco à imagem e semelhança daquela verve de porco, feio e mau que o argentino deixou nos relvados espanhóis,  uma dotação de intensidade na pressão e agressividade (muito positiva; Dier tenta sempre jogar a bola) no tackle.

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