Tour de France – 12ª etapa – Bardet vence categoricamente no alto de Peyragudes; Aru rouba a amarela a Froome; a controversia gerada pela atitude de Mikel Landa


Pela primeira vez em vários anos, Christopher Froome perdeu a amarela numa etapa de montanha. A rampa final (na ordem dos 22% de inclinação nos últimos 500 metros) da sensacional etapa que terminou no alto de Peyragudes, ligação de 214,5 km que abriu as hostilidades no que aos Pirinéus concerne (até domingo teremos mais 3 etapas muito duras; o crucial momento de decisão da geral da prova) colocou a nu um raro momento de fraqueza do chefe-de-fila da Sky.

Num par de subidas (Peyresourde e Peyragudes) totalmente controladas pela Sky (mesmo quando Froome saiu de estrada no final da descida para o Peyresourde) assim que Fabio Aru e Romain Bardet se lançaram ao sprint para colher as preciosas bonificações de etapa, o inglês ficou ligeiramente apeado sem a companhia do único gregário que lhe restava: Mikel Landa. Estranhamente, o ciclista basco avançou sem se preocupar muito com o estado do seu líder. Froome perdeu a camisola amarela para Fábio Aru, dados os 20 segundos que o italiano da Astana conquistou na estrada (precisava apenas de conquistar 18 segundos) acrescidos dos 4 de bonificação amealhados em virtude do 3º lugar conquistado na tirada. A perda da camisola amarela poderá ter sido uma machadada no estado anímico do ciclista britânico?

Essa é naturalmente uma questão que poderemos vir a desvendar durante a etapa de amanhã se o inglês baquear numa das 3 contagens de primeira categoria que serão corridas na curta mas explosiva ligação entre Saint-Girons e Foix. O tempo perdido por Froome nos 300 metros finais da etapa de hoje não foi suficiente para podermos dizer que o inglês está em quebra física. A Sky voltou a dominar a etapa a seu belo prazer em todas as contagens de montanha. O inglês rodou muito bem na frente até ao 300 metros finais, soçobrando apenas quando o terreno lhe pediu alguma explosividade, característica que tanto Aru como Bardet possuem para dar e vender. Em virtude dessas mesmas características detidas pelos dois corredores em causa, a etapa de amanhã poderá ser crucial para as contas da geral porque a etapa está talhada para ciclistas explosivos. Serão 3 contagens de montanha de primeira categoria no curto espaço de 43 km, seguidos, após a passagem na última de uma longa descida de 13 km e de um falso plano (essencialmente corrido em descida) de 14 até à meta em Foix. A descida após a última categoria de montanha, poderá, por outro lado, também servir os interesses de Froome. Se Froome realizar uma daquelas descidas loucas, poderá facilmente reconquistar a amarela no final da etapa de amanhã.

No entanto, o total desprezo a que o inglês foi votado pelo seu companheiro de equipa numa etapa em que Sky voltou a aparecer muito activa no grupo principal, como de resto seria de esperar, com a presença dos principais gregários do ciclista britânico, levanta uma série de dúvidas em relação ao grau de compromisso de Mikel Landa perante os objectivos da formação: estará o espanhol 100% focado no objectivo de ajudar Froome a conquistar a 4ª Volta à França? Estará o espanhol a indicar aos responsáveis da equipa um natural sentimento de castração (do seu potencial) em detrimento dos objectivos do seu chefe-de-fila? A atitude de Landa nos 300 metros foi, no mínimo, enigmática. Se Landa tivesse engajado no seu chefe-de-fila, este poderia ter mantido a amarela na sua posse.

Um dia marcado por uma fuga bastante prometedora.

O medonho perfil traçado pela ASO para a ligação de 209,5 km entre Pau e Peyragudes (6 contagens de montanha; 3 delas nos últimos 45 km; uma de categoria especial no Port Des Balés, 2 de 1ª categoria, sendo uma delas o Peyresourde; 2 de 2ª categoria, entre as quais, a curta mas árdua subida final para Peyragudes; rampas de 13 e 22% nos últimos 2 km; 1 de 4ª categoria) prometia, à partida, a presença de todos os interessados à vitória no Prémio da Montanha. O seu detentor Warren Barguill estaria certamente na frente para defender a posse da Polka Dot da ameaça de outros ciclistas que poderiam ousar aproveitar a vasta montanha existente para lhe roubar o seu bem mais precioso. Não seria de espantar se algumas das equipas colocassem alguns dos gregários a rodar na frente assim como não seria de admirar se pudéssemos ver na frente homens que gostam deste tipo de etapas como Stephen Cummings ou Thibaut Pinot. Cummings viria a ser uma das figuras do dia.

O ciclista da Dimension Data tratou de sair bem cedo da companhia do pelotão com o auxílio de um engraçado lote de corredores composto por Thomas De Gendt (Lotto Soudal), Jack Bauer, Marcel Kittel (Quickstep), Diego Ulissi (UAE), Koen de Kort (Trek), Michael Matthews (Sunweb), Stefan Kung (BMC), Nils Politt (Katusha), Cyril Gautier (AG2R La Mondiale), Imanol Erviti (Movistar) and Julien Simon (Cofidis). Enquanto alguns destes ciclistas, casos de Kittel, Bauer e Matthews só entraram nesta fuga para disputar o sprint intermédio presente ao km 94, Thomas DeGent, Cummings, Ulissi e Erviti entraram na fuga com vontade para dar uma alegria aos seus directores desportivos. A inerte UAE, a esforçada Lotto-Soudal e a azarada Movistar bem o merecem dadas as provas medíocres que alguns dos seus key players têm feito na prova francesa.

Enquanto Kittel desaparecia de circulação logo na primeira contagem e Matthews vencia o sprint intermédio, Steve Cummings tratou de dizer adeus à companhia de todo o grupo. Lá atrás, Warren Barguil saiu do grupo principal de forma a ir buscar alguns pontos para amenizar os eventuais estragos que Cummings pudesse vir a realizar na montanha. O francês apercebeu-se que não poderia portanto deixar o recente campeão nacional britânico de estrada e contra-relógio amealhar pontos porque a prova ainda irá oferecer muitas oportunidades ao ciclista da Dimension Data. Com os olhos naturalmente postos numa conquista de etapa, o ciclista da formação sul-africana Dimension Data poderá, disfarçadamente e sem muito alarido, ir somando pontos para um objectivo que não é, assim à vista desarmada, o seu principal objectivo na prova porque Cummings é essencialmente um caça etapas de montanha.

No pelotão, durante as primeiras contagens de montanha, Jakob Fuglsang dizia adeus à luta por um lugar no top10. Vítima de uma queda na etapa de ontem (quarta-feira), o dinamarquês desistiu precocemente da etapa, deixando Fábio Aru sozinho no grupo principal, grupo em que à excepção da AG2R (Latour ainda acompanhou Bardet até ao início da subida final; Gautier também esteve por lá depois de ter caído na descida para o Peyresourde, momento da etapa onde o francês perseguia Stephen Cummings na companhia de Thomas DeGent)  e da Movistar (Carlos Alberto Bettancur manteve-se com Nairo até ao momento da descolagem do colombiano do grupo principal nos primeiros metros de subida para o Peyresourde) todos os candidatos seguiam sem um único apoio da sua equipa.

Total controlo por parte da Sky. A saída de estrada de Froome. 

À entrada para a ascensão de 9,5 km ao alto do Peyresourde, Stephen Cummings detinha 2 minutos de vantagem sobre o grupo principal. Cyril Gautier caiu durante a descida e foi apanhado rapidamente pelo pelotão. Thomas DeGent também não durou muito mais na frente. Warren Barguil viria a ser alcançado durante a descida, momentos antes da saída de estrada protagonizada por Christopher Froome e Fabio Aru.

A saída de estrada do inglês nascido no Quénia obrigou Michal Kwiatkowski a ter que esperar pelo seu líder. Aru aproveitou a boleia oferecida pelos gregários do seu rival, enquanto na frente, todo o grupo esperava calmamente (com o habitual fairplay) pela chegada dos infortunados.

No grupo principal ainda contávamos com as presenças de Contador, Quintana, George Bennett (Lotto-Jumbo), Louis Mentjes (UAE), Simon Yates (Orica) entre outros ciclistas da fuga inicial entretanto apanhados como Stephen Kung da BMC. Com 3 homens próximos do camisola amarela, a Sky pretendeu essencialmente controlar a corrida através da colocação de um ritmo aceitável nas rampas de 8,5% de média de inclinação que a complicada subida tinha para oferecer.

Logo que a subida se iniciou, Nairo Quintana perdeu contacto em definitivo com o grupo principal. O colombiano deu um pré-aviso do que iria acontecer quando abriu para o lado. Em poucos metros, Nairo estava a declarar a sua desistência da luta por um lugar no pódio. O líder da Movistar acabou por perder 2 minutos. Só não perdeu mais tempo porque a meio da subida conseguiu recuperar algumas energias para diminuir a desvantagem que entretanto acumulara. Na subida para Peyragudes, vimos o colombiano a tentar terminar a etapa em top speed na companhia de Damiano Caruso da BMC.

Com Cummings alcançado a cerca de 10 km para a meta (sensivelmente a meio da subida para o Peyresourde; assim que alcançado, perante as cameras, o britânico deu a indicação de que tinha rebentado quando bateu com a mão no peito) a Sky tentou levar a corrida devidamente controlada até à recta da meta. A colocação de um ritmo de corrida aceitável não colocou ninguém em risco durante grande parte das subidas finais (no final da subida, somente Contador não conseguiu seguir o ritmo imposto) mas por outro lado, dissuadiu qualquer ataque que pudesse caber no livrinho de corrida que todos os corredores trazem no seu dorsal. No último km, vindo de trás, o sensacional neozelandês George Bennett foi o único que tentou melhorar a sua situação na geral com um ataque. O ciclista de 27 anos nascido em Nelson tem vindo a confirmar todo o potencial que já lhe pudemos observar nos últimos anos: Bennett é efectivamente um ciclista que pode, nos próximos anos, lutar por um top5 ou até por um lugar no pódio de qualquer grande volta do calendário velocipédico.

Trilhados 209,2 km, a corrida chegou ao seu destino final. Na poderosa rampa final de 22%, Aru lançou o sprint final que viria a desequilibrar Froome na luta pela amarela mas Bardet foi aquele que pode libertar mais energias no seu pedal. O francês conquistou a etapa e pode recuperar 27 segundos em relação a Froome e 12 em relação a Aru. A corrida está portanto bem lançada para a exigente etapa de amanhã:

A etapa de amanhã traz obviamente uma série de interrogações que terão de ser esclarecidas.

A primeira e mais válida, parece-me ser esta: que poder de choque poderá ter a equipa da Astana? Fábio Aru precisará imenso que Jakob Fuglsang ou qualquer outro ciclista da sua equipa não o deixe sozinho, pelo menos, nas duas primeiras contagens do dia. Na última, o italiano já estará em condições de responder a qualquer ataque que possa surgir ou até de atacar com o objectivo expresso de ampliar a vantagem que dispõe. A meu ver, o italiano precisa de conquistar mais tempo em relação a Froome porque o contra-relógio de Marselha não será nada fácil dadas as suas características.

Bardet também estará decerto galvanizado com a vitória conquistada. De dia para dia posso sentir o pulsar de um corredor em melhor estado de forma. O francês poderá tentar ganhar tempo na montanha e na descida. Não nos esqueçamos do que o ciclista da AG2R fez na 9ª etapa quando conseguiu ganhar cerca de 25 segundos ao grupo principal na descida.

Rigoberto Uran continuará a lutar taco-a-taco por um lugar no pódium ou quiçá pela vitória na prova. Rigo está muito, muito, forte!

A etapa é um bom aperitivo para as características de Daniel Martin. O irlandês da Quickstep adora este tipo de etapas. Se atacar por exemplo na segunda contagem, poderá ser um perigo.

Alberto Contador precisará de fazer mais e melhor. O seu actual 11º lugar é uma vergonha para quem, há poucas semanas atrás, apregoou aos sete ventos um estado de forma perto do ideal, combinado com uma taxa de massa gorda corporal de 6%.

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