Bloco de Notas da História #26 – A mítica vitória de Joaquim Agostinho no Alpe D´Huez


“Às vezes, ao domingo, dizia na brincadeira para nós que era ‘fiesta’ (feriado), para irmos com mais calma. Tenho muitas boas recordações. Era um sujeito muito simpático, um grande atleta. Depende de que equipa viesse a fazer parte e do momento dos outros corredores. Acho que eu era melhor trepador e ele era impressionante em etapas de ‘sobe-e-desce’, mas, depois, claro que teria sido possível ele ganhar o Tour, por que não?”

Estas afirmações foram proferidas há 8 anos atrás pelo “Canibal” Eddy Merckx a propósito da efeméride dos 30 anos da vitória de Joaquim Agostinho no mítico Alpe D´Huez.

Agostinho era uma força viva da natureza. Não tinha escola porque começou a pedalar muito tarde, já aos 25 anos, quase inocentemente, depois de ter vencido algumas provas populares (de festas religiosas, sobretudo) ali para os lados de Torres Vedras. Quando aquele que viria a ser seu colega no Sporting Miguel Miranda o levou ao clube de Alvalade para ser avaliado por Manuel Graça, o então treinador e director desportivo da formação do leão rampante, Agostinho pode ter a ascensão na hierarquia do ciclismo mundial que hoje conhecemos.

Sobre o ciclista de Brejenjas, Luis Ocaña, histórico ciclista (vencedor de um Tour e de duas Vueltas) que foi companheiro de equipa do português na equipa francesa BIC, referiu-se nestes modos: “Nunca sabíamos bem o que esperar de Agostinho. Ele não percebia nada de táctica mas tinha a força suprema de um lavrador a lavrar na sua terra. Não sabíamos bem como ele treinava durante o ano, mas ele fazia questão de aparecer no Tour num estado de forma que nos causava sempre uma enorme admiração”

Já Raphael Géminiani, o seu antigo director desportivo na Flandria, equipa pela qual Agostinho correu a partir de 1978, lamentou as lacunas que o corredor possuía em contraste com a sua enorme força física:

“Joaquim Agostinho didn’t know his own strength. He was a ball of muscles of out-of-the-ordinary power. He was built like a cast-iron founder. Having come to cycling fairly late, he had trouble integrating with it. It’s a shame he didn’t want to dedicate himself 100 per cent to being a professional cyclist. Now and then he showed his very great physical powers, but no more often than that. He didn’t want to do more. The peloton scared him, which is why he fell so often. More than that, Tinho was never aggressive enough to impose himself totally. He had a legendary kindness and his only ambition was to be good, gentle Tinho. If he’d been ambitious, he would easily have written his name into the records of the Tour de France.”

Na icónica subida para o Alpe D´Huez, todos os ciclistas que puderam vencer uma etapa a contar para o Tour, tiveram direito a uma placa comemorativa com o seu busto no local onde realizou o decisivo ataque que lhe permitiu vencer a etapa.

A 15 de Julho de 1979, “Tinô”, alcunha pela qual o ciclista luso era carinhosamente tratado pelo público francês, deixava o mundo de queixo caído. Na história subida para o Alpe D´Huez, o ciclista português deixara, sem qualquer tipo de resposta possível por parte dos mesmos aquando do seu ataque, Bernard Hinault (o francês acabaria por revalidar o título de vencedor do Tour nesse ano, conquistando portanto o 2º dos 5 títulos que viria a conquistar no total) e o holandês Joop Zoetemelk (futuro vencedor da prova no ano seguinte). O duo perseguidor viria a perder cerca de 3 minutos para o ciclista português. Nessa edição de 1979, o português conseguiria atingir, pelo segundo ano consecutivo, um honroso 3º lugar que lhe garantiu novamente a subida ao pódio final em Paris.

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