Tour de France – 13ª etapa – Warren Barguil cumpriu a tradição e tomou a bastilha


Enquanto Emmanuel Macron, o novo presidente da República Francesa fazia o obséquio de aturar o ignorante Donald Trump e a sua gosma de calaceiros no Eliseu, Warren Barguil (Sunweb) cumpria, por mais um ano, um dos principais objectivos partilhados por todos os ciclistas franceses na sua grande prova: vencer a etapa do dia 14 de Julho, dia eternizado na história no longínquo ano de 1789 quando um grupo de cerca de 1200 homens (entre revoltosos, soldados e guardas) comandados por Pierre-Augustin Hulin, Camile Desmoulins e George Jacques Danton, Bernard Jordan de Launay e Charles de Lorraine decidiu invadir a grande prisão do Estado absolutista do Rei Luis XVI para dar o mote para a revolução importantíssima (para a história da civilização humana) que se seguiria nos anos subsequentes.

Todo o ciclista francês que se preze, tem a obrigação de sonhar com a vitória na etapa que consagra o seu dia nacional. É verdade que nenhum francês ganha a sua prova há 31 anos. Também é verdade que nenhum outro ciclista francês está tão perto da liderança a meio da prova como actualmente está Romain Bardet. No entanto, também é verdade, porque é efectiva e unanimemente aceite entre os ciclistas franceses a ideia que vencer a etapa do dia 14 de Julho tem um sabor especial. Para muitos, vencer no dia nacional de França tem um paladar semelhante ao da vitória na geral individual da prova.

Para Barguil, a vitória na 13ª etapa (a mais curta se exceptuarmos a ligação fictícia de consagração dos vencedores que irá encerrar este Tour no próximo domingo, dia 24, às Portas de Paris) foi o reconhecimento do enorme esforço que o ciclista, actual líder do Prémio da Montanha, tem deixado no terreno nas últimas etapas. O trepador francês da Sunweb perdeu com estrondo a vitória na 9ª para Rigoberto Uran. Na tarde de ontem, Barguil agarrou com unhas e dentes a oportunidade que conquistou com muito esforço na subida final para levar a sua vitória para casa.

Num dia marcado pelo reaparecimento (em grande) de Nairo Quintana e Alberto Contador na frente da corrida após um conjunto de etapas em que as suas exibições não foram de todo positivas, pode-se dizer que a geral manteve-se na mesma no que respeita ao top 4 mas ganhou, por outro lado, outra vivacidade e outra emoção para o futuro da prova, em virtude da ascensão de Landa para a 5ª posição (a 1.09m do líder) e das aproximações de Quintana e Contador na geral individual. Os novos dados que foram lançados durante o dia de hoje, dia em que a Sky alterou por completo a sua estratégia de corrida, poderão apimentar (e de maneira!) a corrida nos próximos dias porque irão permitir a abertura de uma série de equações bastante plausíveis.

Warren, quand nous serons en mesure de voir la lutte pour la victoire dans le classement genéral? 

O indiscutível potencial apresentado pelos novos talentos da escola velocipédica gaulesa permitem aos amantes francesas sonhar com a “sebastianica” vitória que escapa desde 1986. Thibaut Pinot decidiu não correr a edição deste ano (o trepador tem andado mascarado de burro ou de qualquer coisa no meio do pelotão, pagando caro o esforço que realizou no Giro). Bardet é a certeza confirmada da nova escola do ciclismo. Por muitos e bons anos veremos o chefe-de-fila da AG2R a batalhar pela vitória na geral porque tem vindo a revelar melhorias em todos os departamentos da modalidade. Barguil é irregular nas suas exibições (tanto é capaz de apanhar 8 minutos na montanha num dia como de vencer a etapa no dia seguinte) mas tem potencial para um dia também ele tentar lutar pela vitória na prova daqui a 2 ou 3 anos se entretanto evoluir no plano mental e no contra-relógio. David Gaudu, Lilian Calmejane e Guillaume Martin (estes dois últimos tem estado em destaque durante a actual edição) são os mais recentes projectos da fábrica de campeões do ciclismo francês, fábrica que está indiscutivelmente a trabalhar melhor e com mais qualidade nos últimos 7\8 anos.

Voltemos à corrida

A explosiva ligação entre Saint-Girons e Foix na curiosa distância de 101 prometia à partida um certo grau de emotividade, ainda para mais se considerarmos a reviravolta na geral que aconteceu na etapa de quinta-feira. Fábio Aru assumia na 2ª abordagem da prova às montanhas dos Pirinéus uma liderança (de certo modo) desejada para o actual momento da corrida. O italiano teria de abordar uma curta mas explosiva tirada com 3 contagens de primeira categoria sem chegada em alto, em primeiro lugar, na expectativa de se defender bem dos ataques que poderiam surgir por parte de Froome, Bardet, Uran ou Martin. Se a etapa o permitisse, o italiano até poderia tentar ganhar tempo à concorrência directa. Se considerarmos o perfil de etapa, a previsão de tal cenário seria à partida, algo com um ínfimo grau de probabilidade em virtude da etapa não terminar em alto. Froome e Bardet poderiam portanto ter nesta etapa uma fenomenal oportunidade para tentarem recuperar posições na descida visto que são ambos extraordinários descedores. A descida final foi um dos grandes focos de interesse de uma etapa muito atacada desde o seu início.

Franceses a postos. 

A etapa terminou tal e qual como começou: com Barguil na frente. Logo nos primeiros quilómetros, os clássicos agitadores dos “dias da bastilha” dos últimos anos saíram do pelotão à procura de honrar os seus antepassados. Dois nomes míticos da história do ciclismo, Thomas Voeckler e Sylvain Chavanel (Direct Energie) trataram de se unir para dar a segunda vitória à sua formação. Os vovôs do pelotão internacional (ambos nascidos no ano de 1979; deveriam ser eternos pá!) somam mais vitórias no Tour que mais de uma centena de participantes na edição deste ano. Juntos, os dois corredores conquistaram 7 tiradas nos últimos 9 anos. O seu “sobrinho” Warren Barguil também decidiu partir para tentar vencer a etapa pela qual tanto tem lutado na presença edição, não esquecendo porém os importantes pontos que a montanha oferecia durante a tirada. O caça etapas Alessandro DeMarchi (BMC) saiu logo na primeira montanha (primeiro na companhia de Gilbert, posteriormente na companhia de Chavanel; por último a solo) para tentar vencer uma etapa onde poderia efectivamente vencer porque é um ciclista com um enorme endurance. Phillip Gilbert, o consagrado que tanto adoro, compôs o ramalhete inicial de um conjunto de fugas que poderia redundar no vencedor da etapa como veio a redundar no final em Foix.

Contador tinha outros planos

O nosso amigo Alberto, Pistolero (sem balas, pelo menos na presente edição) pelo qual nutro um amor doentio desde a pós-adolescência, surpreendeu toda a gente quando decidiu atacar logo na primeira montanha. O espanhol viria rapidamente a suscitar a atenção de Mikel Landa e Warren Barguil. O espanhol saiu do pelotão (restará perceber se a sua saída foi consentida pelo seu director desportivo ou se foi mais uma atitude por conta própria do ciclista basco) enquanto o francês já se encontrava em posição intermédia. No Col de Agnès, o grupo tratou de comandar a corrida com cerca de 20 segundos de vantagem sobre o pelotão, onde Fábio Aru seguia descansado da vida. A Sky também. Os britânicos não mexeram uma palha durante a corrida, tal e qual como de resto lhes competia devido à perda da camisola amarela para a Astana. A corrida acabou por ser movimentada numa espécie de serpentina. Sempre que uma unidade tentava mexer com a corrida, a unidade melhor classificada a seguir a esse ciclista tratava de o perseguir. Na última ascensão do dia por exemplo, a AG2R e a Lotto colocaram algumas unidades à frente do pelotão em virtude da ameaça que representavam os homens que seguiam na frente.

Quintana também estava à procura de qualquer coisa

NairoMan decidiu mexer com a corrida quando sentiu que o grupo do camisola da amarela não estava a viver um saudável momento de harmonia. Os 4 minutos de desvantagem para a amarela permitiram ao colombiano uma certa liberdade que qualquer líder não poderá em momento algum conceder, ainda para mais quando na frente seguem ciclistas de qualidade irrefutável bem classificados na geral, com uma subida apetitosa pela frente. Com o colombiano seguiu também o perigoso Michal Kwiatkowski. Com dois gregários na frente, cheirava imenso a ataque demolidor de Froome. Não veio a acontecer.

O quarteto da frente embalou, chegando a ter 2:40 a meio da subida. Entretanto dividiu-se, ficando a dupla de espanhóis (Contador e Landa) na frente enquanto Quintana fazia pela vida com Bardet para os alcançar a cerca de 30 segundos. Na subida final, o colombiano puxou durante grande parte da subida. O francês só se disponibilizou para passar para a frente do grupo quando foi avisado pelo carro do aumento da distância para a frente. Contador e Landa entenderam-se bem. Bardet tinha no entanto toda a França nas suas pernas. Na fase mais dura da subida para o Mur de Péguère (3 km de rampas a oscilar entre os 18 e os 22% numa via minimal) o francês assumiu a perseguição e só parou de cavalgar no terreno quando amealhou os pontos da primeira categoria presente no alto.

Lá atrás, as coisas começaram a piar fino quando Daniel Martin sentiu que a sua posição estava em risco. A vantagem conquistada por Landa, Quintana e Contador ameaçava a sua 5ª posição. O irlandês já tinha perdido (virtualmente) a sua posição para Landa e preparava-se para a perder para os dois colossos vivos da história do ciclismo.

O irlandês passou para a frente do grupo (reduzido num curto espaço de tempo e terreno) e aumentou o ritmo da perseguição. O primeiro a tombar foi o neozelandês George Bennett da Lotto-Jumbo.

A 300 metros da contagem, Froome esboçou um ataque numa altura em que recebia a companhia de Michal Kwiatkowski, ciclista que entretanto tinha perdido a companhia de Barguil e Quintana. Aru foi rápido a responder. Martin e Simon Yates (Orica) passaram mal mas acabam por conseguir recolar logo no início da longa e rápida descida final.

A descida

Com 1 minuto e meio de vantagem, os fugitivos tinham acumulado uma vantagem que lhes permitiria chegar na frente à linha de chegada. Com uma rendição bastante curta na frente (à qual Contador não se juntou, preferindo poupar esforços para a parte final da etapa), o grupo de fugitivos logrou alcançar na descida 40 segundos de vantagem em cima do minuto e meio que traziam da subida, fruto do clima instável que se vivia lá atrás com as tentativas de ataque de Bardet, Froome, Martin, Uran e Yates durante a descida. Martin e Yates foram efectivamente os únicos que conseguiram vingar um ataque, conquistando 9 preciosos segundos à concorrência, em especial, ao sul-africano Louis Meintjes da UAE, o mais directo concorrente do ciclista da Orica pela camisola da Juventude. Ao contrário de George Bennett (acumulou mais de 4 minutos para os vencedores; 2 para a frente da corrida) o sul-africano aguentou a peugada dos melhores com uma atitude muito discreta nos últimos 25 km.

Chegados ao sprint final, Contador lançou o sprint mas Barguil foi o ciclista mais forte. O ciclista da Sunweb era aquele que apresentava a melhor ponta final do quarteto. Habituado a discutir provas de um dia (o bretão de 25 já conta no seu palmarés com interessantes feitos, de top 10, em provas de um dia como a Rund un Koln, a Strade Bianche, a Clássica de San Sebastián, o GP do Quebec, a Liège-Bastone-Liège, o Giro di Lombardia ou a Flèche Wallone), naturalmente essas experiências vieram ao de cima quando foi chamado a ratificar a vitória que lhe fugiu pelos dedos no passado domingo.

As alterações no top 10 permitiram a re-entrada de um conjunto de equações para as próximas etapas.

O que é que poderá fazer Mikel Landa se lhe continuarem a conceder liberdade para atacar? Poderá ter o ciclista espanhol carta branca do director desportivo da Sky Nicholas Portal, para fazer uma corrida à margem de Christopher Froome? Poderá o espanhol funcionar com uma dupla ameaça da equipa à liderança de Aru? A sua atitude nos últimos dias faz parte de uma estratégia pensada, deliberada e ordenada pelo director desportivo da Sky ou é um claro sinal de que Landa poderá estar a subverter todas as regras hierárquicas dentro da equipa. Essa é neste momento uma das grandes dúvidas da corrida em virtude do comportamento algo ambíguo que o espanhol tem demonstrado nos últimos dias.

O comportamento do espanhol nas últimas etapas tem sido surpreendente. Portal refutou durante o dia de ontem a ideia de que Landa esteja a subverter as regras que lhe foram ordenadas quando afirmou que não ficou minimamente importado pela decisão tomada pelo espanhol na 12ª etapa quando este não decidiu aguardar por Froome. No entanto, as televisões captaram um momento muito interessante entre o ciclista e o seu director desportivo, momento que pode ajudar a explicar o “encoberto” momento de crispação que se vive dentro da equipa Sky:

Noutro vértice do top encontram-se Quintana e Contador. O que é que ainda podem fazer os chefes-de-fila da Movistar e da Trek nas 3 etapas de montanha que restam até Paris? 

Subir lugares na geral. Na minha modesta opinião, os 2:07m que separam o colombiano de Aru e os mais de 5 minutos que Contador tem para a frente da corrida não irão permitir a sua recolagem aos 4 da frente. Quintana ainda pode aspirar a um lugar no pódio se tiver um comportamento bem diferente daquele que tem apresentado nas etapas de montanha que se irão disputar a partir de domingo. Se o colombiano continuar ao ataque, a diferença para a frente da corrida poderá evidentemente pulverizar-se num ápice. Se o colombiano voltar a realizar uma etapa à imagem daquela que realizou na quinta-feira, muito dificilmente conseguirá sequer um lugar no top7. A Contador restarão 2 objectivos: saltar lugares na tabela se mantiver a atitude exemplar demonstrada durante a etapa de hoje e tentar conquistar uma etapa. A etapa que terminará na próxima terça-feira em Serre Chevalier poderá ser a oportunidade que o espanhol precisa para vencer uma etapa. As passagens pelas suas montanhas fetiches (Galibier e Telegraphe) são bastante apelativas para que tal venha a acontecer.

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